Entre a crítica da exploração e a superação do egoísmo: um diálogo possível entre marx e o espiritismo

Por Klycia Fontenele

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A natureza do sistema capitalista é fincada numa lógica desumanizante, e que fere à razão. Estimula-se o desenvolvimento tecnológico e científico, pelo qual muitas boas invenções e descobertas surgem. Estimula-se a produção, criando condições materiais para dar aos homens uma vida confortável e digna. Mas, por esse estímulo se basear no ímpeto egoísta, simbolizado pela propriedade privada dos meios de produção e pela acumulação privada da riqueza, o desenvolvimento promovido sob a lógica do capital não resulta em benesses para o conjunto da humanidade.

Se, de um lado, ele é fruto do caminhar histórico das sociedades, é também resultado de uma moral mesquinha, calcada no egoísmo e orgulho. Tendo ele, esta dupla origem, terão aqueles, que desejam viver em mundo melhor, que construir as condições históricas para a derrocada do capital ao passo que buscam promover a transformação moral de suas almas. O desafio é ainda maior do que pensei quando imaginava que a tomada do poder pelo proletariado seria o suficiente para construir uma sociedade socialista e, posteriormente, o comunismo.

Enquanto o egoísmo encontrar abrigo nos corações e mentes humanas, a revolução verdadeira não acontecerá. Hoje, eu sei disso. Engels, Friedrich1.

Introdução

A comparação entre Karl Marx e a doutrina espírita sistematizada por Allan Kardec pode parecer, à primeira vista, improvável. O primeiro é reconhecido como um dos principais críticos do capitalismo e formulador do materialismo histórico e do socialismo científico; o segundo é o codificador do Espiritismo, doutrina que afirma a existência e a imortalidade do Espírito, que nada mais é do que a alma humana, e que tem como objeto a relação entre o mundo espiritual e o corpóreo.

Contudo, ambos compartilham uma preocupação fundamental com a condição humana e com os obstáculos que impedem sua plena realização. Embora partam de pressupostos ontológicos distintos, é possível identificar pontos de convergência em suas críticas às formas de opressão e alienação, bem como importantes divergências quanto às causas e aos meios para a emancipação.

Este ensaio busca identificar aproximações e distanciamentos entre o pensamento marxista e os princípios espíritas, especialmente no que se refere às desigualdades sociais, à emancipação humana, à luta de classes, ao materialismo histórico e à questão religiosa. Para tanto, utiliza-se como metodologia a pesquisa bibliográfica, tomando como referência principal as obras Manifesto do Partido Comunista, A Ideologia Alemã e Para a Crítica da Economia Política, de Karl Marx e Friedrich Engels, bem como O Livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo, escritos por Allan Kardec.

A análise permitiu identificar que, apesar das profundas divergências ontológicas existentes entre o materialismo marxista e a teoria espiritista, ambas as perspectivas compartilham preocupações relacionadas à emancipação humana, à crítica das formas de opressão e à necessidade de transformação da realidade social. Observou-se também que os pontos de convergência aparecem sobretudo nas reflexões sobre desigualdade, educação e emancipação, enquanto os principais distanciamentos dizem respeito à compreensão da história, da religião e da natureza última da realidade.

Ressalta-se, por fim, que este ensaio constitui um estudo preliminar, integrante de uma investigação ainda em curso.

Desigualdades sociais e emancipação humana

Em Marx, a desigualdade social não é um fenômeno moral ou psicológico, mas resultado das relações históricas de produção. No capitalismo, a riqueza é produzida coletivamente pelos trabalhadores, porém apropriada privadamente pelos proprietários dos meios de produção. O antagonismo entre burguesia e proletariado constitui a essência desse modo de produção. Como afirmam Marx e Engels, “toda a história da humanidade tem sido a história da luta de classes” (Marx; Engels, 2005, p. 77).

A sociedade capitalista, segundo Marx, não eliminou os antagonismos sociais, mas os reorganizou sob novas formas, simplificando-os em dois grandes campos opostos: “Burguesia e Proletariado” (Marx; Engels, 2005). A lógica do capital transforma o trabalho humano em mercadoria e submete a existência social à busca incessante do lucro. Nesse processo, o trabalhador perde o controle sobre sua própria atividade produtiva, experimentando a alienação.

A emancipação humana, para Marx, exige a superação dessas relações sociais. Não se trata apenas de mudanças no plano político ou jurídico, mas da transformação radical das condições materiais que produzem a exploração. A libertação do ser humano dependeria, portanto, da superação histórica do capitalismo e da recuperação do trabalho como atividade consciente e verdadeiramente humana.

No Espiritismo, as desigualdades sociais possuem uma explicação distinta. Allan Kardec registra, em O Livro dos Espíritos, que a raiz dos males sociais se encontra principalmente no egoísmo. À questão 913, sobre o vício mais radical, os Espíritos respondem: “o egoísmo: dele deriva todo o mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos está o egoísmo” (Kardec, 2009, p. 283).

A origem das injustiças sociais estaria, portanto, nas imperfeições morais do Espírito encarnado. Contudo, isso não implica uma leitura individualista da realidade. Os próprios Espíritos afirmam que o egoísmo é (retro)alimentado pelas instituições sociais, sendo necessária a reforma dessas instituições por meio da educação moral e espiritual que fomenta a evolução do Espírito (Kardec, 2009, q. 914) – “à medida que os homens se esclarecem sobre as coisas espirituais, ligam menos valor às coisas materiais. Aliás, é preciso reformar as instituições humanas que o entretêm e o excitam. Isso depende da educação” (p. 283).

Essa compreensão torna-se ainda mais evidente quando Kardec aborda diretamente a questão das desigualdades sociais. Em O Livro dos Espíritos (Kardec, 2009, p. 254, q. 806), pergunta-se: “A desigualdade das condições sociais é uma lei natural?”. A resposta dos Espíritos é categórica: “Não, é obra do homem e não de Deus”. Ao tratar de sua superação, acrescentam que ela desaparecerá “juntamente com a predominância do orgulho e do egoísmo” (q. 806a), permanecendo apenas as diferenças de mérito moral e intelectual2.

Ressalta-se que a pergunta trata das condições sociais ou seja, trata da estrutura que produz a desigualdade. Compreendendo que o ser humano é um Espírito encarnado, e estando aí a preocupação dos estudos espíritas, é de se esperar que a resposta dos Espíritos não fique circunstanciada a uma ideologia ou a um sistema econômico que são históricos e conjunturais, posto vinculados à vida corpórea.

Na questão seguinte, os Espíritos condenam expressamente o uso da posição social para exploração dos mais fracos, ao afirmar que aqueles que abusam da superioridade de sua posição social para oprimir o fraco em proveito próprio responderão pelos seus atos perante as leis divinas (Kardec, 2009, q. 807).

A passagem é particularmente relevante porque estabelece uma articulação entre indivíduo e sociedade. As raízes das desigualdades encontram-se no orgulho e no egoísmo, isto é, nas imperfeições morais do Espírito. Entretanto, sua concretização ocorre historicamente por meio das relações humanas e das estruturas sociais construídas pelos próprios homens. Nesse sentido, o egoísmo não permanece somente como disposição subjetiva da alma, pois se exterioriza em formas de organização econômica, política, cultural e social que permitem a concentração de privilégios, a dominação e a exclusão.

Assim, embora Kardec não desenvolva uma crítica estrutural do capitalismo como a realizada por Marx – inclusive, porque este não era seu objeto de estudo –, reconhece, ao aprender com os Espíritos, que as desigualdades são produzidas pelas práticas humanas e sustentadas por instituições que refletem a condição moral predominante dos indivíduos (Espíritos encarnados) que as compõem. Bom que se diga que esses são transtornos vivenciados no mundo corpóreo e não no mundo espiritual.

É precisamente nesse ponto que emerge uma importante aproximação com a crítica marxista. Marx identifica as desigualdades como resultado das relações materiais de produção; Kardec as compreende como resultado do egoísmo e do orgulho encarnados nas relações sociais. Em ambos os casos, a desigualdade não é natural nem expressão da vontade divina, mas uma construção histórica produzida pelos próprios seres humanos, tornando-se, portanto, passível de transformação. Nesse sentido, ambos reconhecem que as condições sociais não são imutáveis e que a transformação da realidade depende da ação humana. Ambos denunciam estruturas que reproduzem a opressão, embora discordem sobre sua causa fundamental. Enquanto Marx identifica a exploração econômica como elemento central, o Espiritismo localiza a origem profunda dos problemas sociais no egoísmo e no orgulho.

Já a emancipação espírita consiste no progresso moral e intelectual do Espírito. À medida que este supera o egoísmo, amplia sua compreensão das leis divinas e passa a orientar sua conduta pela justiça, pelo amor e pela caridade (Kardec, 2009). Nessa perspectiva, uma sociedade mais justa seria consequência do aperfeiçoamento moral de seus membros.

O próprio Espiritismo reconhece, porém, que o progresso intelectual não produz automaticamente progresso moral. Os Espíritos ensinam que o desenvolvimento da inteligência pode, inclusive, intensificar “a ambição e o amor das riquezas” (Kardec, 2009, p. 246, q. 785), favorecendo manifestações alimentadas de egoísmo e orgulho (mas, ao mesmo tempo, abrindo a possibilidade de que o ser humano procure esclarecer o próprio espírito). Entretanto, acrescentam que esse estado de coisas é transitório e tende a ser superado à medida que o ser humano compreenda a existência de uma felicidade superior aos bens materiais (ibidem).

Essa reflexão aproxima-se da constatação marxista de que o desenvolvimento das forças produtivas e da técnica não elimina, por si só, a exploração social – é preciso que a alienação seja quebrada para que o ser humano compreenda o estado de coisas que perpetua a exploração capitalista, entendendo o seu lugar na história e na estrutura socioeconômica. Em ambas as perspectivas, o progresso material ou intelectual necessita ser acompanhado por uma transformação mais profunda das relações humanas: uma transformação moral e ética.

Propriedade privada, trabalho e justiça social

Um aspecto particularmente interessante para o diálogo entre Marx e Kardec diz respeito à propriedade. Diferentemente de certas correntes socialistas que defendem a abolição integral da propriedade privada, o Espiritismo realiza uma distinção entre a propriedade legitimamente adquirida pelo trabalho e aquela construída sobre a exploração ou prejuízo de terceiros.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta: “O homem tem o direito de defender o que ajuntou pelo seu trabalho?”. A que os Espíritos respondem, “Deus não disse: não furtarás; e Jesus: é preciso dar a César o que pertence a César?” (Kardec, 2009, p. 274, q. 882). O comentário de Kaardec a esta resposta reconhece que aquilo que foi obtido mediante trabalho honesto constitui propriedade legítima. O trabalho aparece, portanto, como fundamento moral da posse, aproximando-se da ideia de que o ser humano possui direito aos frutos de sua atividade produtiva: “[…] a propriedade, que é fruto do trabalho, é um direito natural tão sagrado como o de trabalhar e de viver” (p. 274).

Entretanto, esse direito não é absoluto. O ensinamento dos Espíritos introduz uma importante limitação ética ao afirmarem: “não há propriedade legítima senão aquela que foi adquirida sem prejuízo para outrem.” (Kardec, 2009, p. 274, q. 884). A formulação é particularmente significativa porque subordina o direito de propriedade ao princípio da justiça. Ao comentar essa questão, Kardec esclarece que a lei de amor e de justiça condena quaisquer meios de aquisição que produzam dano ao próximo (Kardec, 2009).

Assim, embora reconheça a propriedade privada, o Espiritismo recusa sua legitimidade quando fundada na exploração, na fraude, na violência ou em qualquer forma de prejuízo causado a outros indivíduos. Essa crítica torna-se ainda mais contundente quando os Espíritos abordam as limitações das próprias legislações humanas: “[…] a legislação dos homens, sendo imperfeita, consagra, frequentemente, direitos de convenção que a justiça natural reprova” (Kardec, 2009, p. 274, q. 885).

Observa-se, portanto, uma distinção entre legalidade e legitimidade. Nem tudo aquilo que a lei positiva permite corresponde necessariamente à justiça natural – o direito à propriedade privada nas constituições capitalistas, por exemplo. Tal argumento oferece um interessante ponto de contato com a crítica marxista, que também compreende o direito como expressão histórica de determinadas relações sociais e econômicas. Em ambos os casos, as normas jurídicas não constituem critérios absolutos de justiça.

A análise espírita avança ainda para uma crítica moral da acumulação. Questionado sobre o desejo de possuir, Kardec registra: “há homens insaciáveis e que acumulam sem proveito para ninguém, ou para satisfazer suas paixões.” (Kardec, 2009, p. 274, q. 883). Os Espíritos, então, classificam essa postura como expressão do egoísmo, distinguindo-a daquele que trabalha e acumula recursos com o objetivo de amparar seus semelhantes. A riqueza, nessa perspectiva, não é condenada em si mesma; o que se condena é sua utilização exclusivamente voltada à satisfação pessoal e ao culto dos interesses individuais.

Essa compreensão é aprofundada por Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo (2008), ao comentar a parábola do rico avarento (Lc 12:13-21). Nela, Jesus apresenta um homem que, após uma colheita abundante, decide ampliar seus celeiros para armazenar ainda mais riquezas, acreditando que poderia então repousar e desfrutar tranquilamente de sua fortuna. Contudo, é surpreendido pela morte na mesma noite, ouvindo a advertência divina: “Insensato que és! vai ser retomada tua alma esta noite mesmo; e para quem será o que amontoaste?” (Kardec, 2008, p. 156). A lição final é explícita: “É isso o que acontece àquele que amontoa tesouros para si mesmo, e que não é rico diante de Deus” (ibidem). Desse modo, a crítica não se dirige à produção da riqueza, mas à acumulação egoística e à ilusão de que a posse de bens materiais constitui finalidade suficiente para a existência.

Embora partam de pressupostos distintos, emerge aqui uma aproximação relevante entre Kardec e Marx. No pensamento marxista, a acumulação de capital não é compreendida como simples resultado da poupança ou do esforço individual, mas como consequência de relações de produção que permitem a apropriação privada da riqueza gerada coletivamente pelos trabalhadores. Por isso, a crítica de Marx dirige-se às estruturas econômicas que convertem o trabalho humano em fonte de valorização do capital e reproduzem a exploração social.

Já no Espiritismo, a questão é examinada sob uma perspectiva moral. Kardec não condena a riqueza em si mesma, tampouco a propriedade legitimamente adquirida pelo trabalho. Sua crítica recai sobre a acumulação motivada pelo egoísmo, pela avareza e pelo apego excessivo aos bens materiais, uma vez que tais atitudes afastam o Espírito da lei de justiça, amor e caridade e contribuem para a perpetuação das injustiças sociais.

A convergência entre as duas perspectivas não se encontra, portanto, na explicação das causas da acumulação, mas na crítica às suas consequências humanas e sociais. Enquanto Marx denuncia a concentração da riqueza por produzir exploração e alienação, Kardec a critica quando ela decorre do egoísmo e da indiferença em relação às necessidades do próximo. Em ambos os casos, a riqueza perde sua legitimidade quando deixa de servir ao desenvolvimento humano e ao bem comum, convertendo-se em instrumento de dominação, privilégio ou exclusão.

Essa preocupação com os limites éticos da riqueza conduz naturalmente à discussão sobre a propriedade. Se Marx questiona as formas históricas de propriedade que permitem a apropriação privada da riqueza produzida coletivamente, Kardec procura estabelecer critérios morais capazes de distinguir a propriedade justa daquela que viola as leis divinas. Em ambos os casos, o debate desloca-se da simples posse dos bens para a reflexão acerca de sua origem, finalidade e função social.

Essa reflexão está ligada a uma compreensão ainda mais fundamental dos direitos humanos. À questão 880, os Espíritos afirmam que: o primeiro de todos os direitos naturais do homem “é o de viver.” (Kardec, 2009, p. 274, q. 880). Consequentemente, a posse de bens encontra sua justificativa inicial na preservação da existência. A questão 881 complementa esse entendimento ao reconhecer o direito de acumular recursos necessários à subsistência e ao futuro, desde que isso ocorra por meio do trabalho honesto e sem os excessos do egoísmo (Kardec, 2009).

A partir desse conjunto de questões, observa-se que o Espiritismo não realiza uma defesa irrestrita nem liberal da propriedade privada. Pelo contrário, submete-a permanentemente aos critérios da justiça, da solidariedade e da caridade. A legitimidade da riqueza não decorre simplesmente de sua legalidade, mas de sua aquisição sem prejuízo ao próximo e de sua utilização conforme o bem comum. Essa distinção permite compreender por que determinadas formas de acumulação podem ser juridicamente reconhecidas e, ainda assim, moralmente incompatíveis com a lei divina.

Desse modo, o Espiritismo não rejeita a propriedade privada de maneira absoluta, mas estabelece limites éticos rigorosos para sua legitimidade. A riqueza somente é compatível com a lei divina quando resulta do trabalho justo e quando não produz prejuízos a outras pessoas. Embora essa posição esteja distante da crítica marxista da propriedade privada dos meios de produção, existe um ponto de convergência relevante: ambas as perspectivas condenam formas de acumulação que conduzam à exploração humana. Marx localiza essa exploração nas relações estruturais do capitalismo; Kardec a identifica como manifestação social do orgulho e do egoísmo. Em ambos os casos, a riqueza perde sua legitimidade quando deixa de servir ao bem comum e se converte em instrumento de dominação.

Assim, embora Kardec não desenvolva uma crítica econômica sistemática como a de Marx, sua reflexão sobre a propriedade, a acumulação e a exploração permite identificar uma crítica moral às formas de riqueza obtidas em prejuízo do próximo. Se, para Marx, a apropriação privada da riqueza socialmente produzida constitui o núcleo da exploração capitalista, para Kardec a ilegitimidade da propriedade aparece sempre que sua aquisição ou manutenção viola a lei de justiça, amor e caridade. Em ambos os casos, a desigualdade não é considerada uma determinação natural ou divina, mas uma construção humana passível de transformação.

Luta de classes, educação e emancipação

A teoria marxista compreende a luta de classes como motor da história. Em sociedades divididas em classes antagônicas, os interesses dos grupos dominantes entram necessariamente em conflito com os interesses dos grupos dominados. No capitalismo, essa contradição manifesta-se na oposição entre burguesia e proletariado.

Essa compreensão decorre da própria concepção marxista da história. No prefácio de 1888 ao Manifesto do Partido Comunista, Engels sintetiza a ideia de que “em cada época histórica, a produção econômica, o sistema de trocas e a estrutura social que dela necessariamente decorre constituem a base da história política e intelectual dessa época” (Marx; Engels, 2005, 77) e que a história da humanidade tem sido marcada pelos conflitos entre classes dominantes e dominadas. Nessa perspectiva, a emancipação do proletariado não representa apenas a libertação de uma classe específica, mas a possibilidade de superar o próprio sistema de exploração que sustenta as divisões de classe.

Entretanto, reduzir Marx à defesa exclusiva da violência revolucionária constitui uma simplificação. Sua concepção de transformação social envolve também a educação, a crítica e a práxis. Ademais, ao afirmar que as circunstâncias são modificadas pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado, Marx evidencia que a transformação social requer a transformação dos sujeitos que atuam nela. A saber:

A doutrina materialista que supõe que os homens são produtos das circunstâncias e da educação e, em razão disso, os homens transformados são produtos de outras circunstâncias e de uma educação modificada, esquece-se de que são justamente os homens que transformam as circunstâncias e que o próprio educador precisa ser educado. […] A coincidência da mudança das circunstâncias com a atividade humana ou mudança de si próprio só pode ser vista e considerada racionalmente como práxis revolucionária (Marx; Engels, 2012, p. 118).

A educação pensada por Marx não se restringe, portanto, à instrução escolar nem à capacitação técnica para o trabalho. Desde os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, sua crítica à alienação aponta para a necessidade de recuperar o ser humano em sua integralidade. Essa perspectiva seria posteriormente desenvolvida no ideal de formação omnilateral, isto é, uma educação voltada ao desenvolvimento pleno das capacidades humanas e à superação da fragmentação produzida pela divisão capitalista do trabalho.

Ainda em A Ideologia Alemã, Marx e Engels imaginam uma sociedade em que o indivíduo possa exercer múltiplas atividades ao longo da vida, sem ser reduzido a uma única função social. A emancipação humana, portanto, não consiste apenas na redistribuição da riqueza, mas também na recuperação da plenitude do ser humano. Nesse sentido, a educação omnilateral – em oposição à educação unilateral – participa da formação da consciência social e pode contribuir para que os trabalhadores compreendam as determinações históricas de sua condição; tendo em vista que a emancipação pressupõe sujeitos capazes de interpretar criticamente a realidade e agir sobre ela.

No Espiritismo, a educação também ocupa um lugar central. Contudo, seu foco principal é a transformação moral, pois a transformação social radical e duradoura depende da transformação moral dos indivíduos. Segundo O Livro dos Espíritos, o egoísmo é combatido sobretudo pela educação: uma educação de valores no bem que extrapola a educação dos livros e dá condições para que sejam criados hábitos no bem (Kardec, 2009, q. 914). A educação humana, portanto, vincula-se também à cultura.

Importante ressaltar que a construção desses valores morais, em detrimento a vícios como o egoísmo e o orgulho, passa pelo exercício do autoconhecimento em que o ser humano deve questionar, a si mesmo, se suas escolhas o aproximam ou não de Deus: conhecer a si mesmo é o caminho para vencer o arrastamento do mal (Kardec, 2009, q. 919).

Há, portanto, uma convergência relevante: tanto Marx quanto Kardec atribuem à educação um papel decisivo na construção de uma nova sociedade. Divergem, porém, quanto ao conteúdo dessa educação. Em Marx, ela visa desenvolver uma consciência crítica das relações materiais de exploração. Em Kardec, procura promover a renovação moral e espiritual do indivíduo. Todavia, convergem na finalidade da educação: libertar o ser humano.

Materialismo histórico, emancipação humana e evolução espiritual

Uma das maiores divergências entre Marx e Kardec encontra-se na compreensão da natureza da realidade e, consequentemente, dos fundamentos da emancipação humana. Todavia, essa divergência não impede a identificação de pontos de contato entre ambos os sistemas de pensamento, especialmente no que se refere ao caráter transformador de suas propostas.

O materialismo histórico desenvolvido por Marx parte do princípio de que os seres humanos produzem socialmente sua existência e que as formas de organização econômica condicionam as instituições políticas, jurídicas, culturais e ideológicas. Na célebre formulação do Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx afirma que:

na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência (Marx, 2008, p. 47).

Nessa perspectiva, não são as ideias que explicam fundamentalmente a organização da sociedade, mas as condições materiais sob as quais os homens produzem a vida. Daí, decorre sua conhecida afirmação de que: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência” (Marx, 2008, p. 47). É importante observar, contudo, que essa concepção não conduz a um determinismo absoluto.

Embora Marx afirme que a consciência é condicionada pela existência social, ele sustenta igualmente que os próprios seres humanos transformam as circunstâncias históricas nas quais vivem. Propõe, inclusive, que a filosofia não deveria apenas interpretar o mundo, mas contribuir para sua transformação ao dizer que: “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo” (Marx; Engels, 2012, p. 120).

Essa proposição aponta para o materialismo histórico como uma crítica marxista ao idealismo de Hegel. Embora reconhecesse a importância da dialética hegeliana para compreender a realidade como um processo dinâmico e contraditório, Marx entendia que Hegel invertera a relação entre pensamento e realidade ao atribuir primazia ao desenvolvimento da Ideia. No posfácio de O Capital, Marx afirma que seu método dialético é diretamente oposto ao de Hegel, pois, enquanto este transforma a ideia em sujeito da história, para Marx, “o ideal não é mais do que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem” (Marx; Engels, 2013, p. 129). Ele aposta, portanto, no ser humano como sujeito histórico.

Ao “colocar a dialética sobre seus pés”, Marx desloca a análise do plano metafísico para as relações de produção e reprodução da vida social. As contradições históricas não decorreriam, portanto, do desenvolvimento do Espírito Absoluto, como em Hegel, mas dos conflitos presentes nas relações materiais de existência. É nesse sentido que o materialismo histórico se converte em instrumento de interpretação científica da história.

Mais do que uma teoria explicativa, o materialismo histórico possui uma dimensão prática e política. Seu objetivo é revelar os mecanismos de exploração presentes no capitalismo e possibilitar que a classe trabalhadora compreenda sua posição histórica. Marx não pretende apenas descrever a sociedade burguesa, mas fornecer elementos para sua transformação. Sustenta ele, na segunda tese sobre Feuerbach, que saber se o pensamento humano pertence a uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas prática, pois é na prática que o homem deve demonstrar a verdade (Marx; Engels, 2012).

Por essa razão, sua concepção não conduz ao determinismo. Embora a consciência seja condicionada pela existência social, os seres humanos também são sujeitos da história. A análise materialista da história converte-se, assim, em estratégia de mobilização política. Ao compreender que a pobreza, a exploração e a desigualdade não são fenômenos naturais nem decorrentes de defeitos individuais, mas resultados de relações históricas de produção, a classe trabalhadora poderia desenvolver consciência de sua condição e atuar coletivamente para superá-la.

É justamente esse movimento que fundamenta o projeto do socialismo científico, formulado por Marx e Engels em oposição às propostas socialistas (como as do socialismo francês), consideradas por eles utópicas, por serem incapazes de identificar as determinações concretas do desenvolvimento histórico.

O materialismo histórico, portanto, não elimina a ação humana; ao contrário, procura esclarecê-la. Seu objetivo é fornecer à classe trabalhadora instrumentos para compreender as relações econômicas, políticas e sociais que estruturam a sociedade, possibilitando sua transformação consciente. Assim, os indivíduos não são simples produtos das condições materiais, mas que a compreensão dessas condições é requisito para sua transformação. Nesse sentido, o conhecimento da realidade converte-se em instrumento de emancipação coletiva.

Em suas críticas ao materialismo contemplativo, Marx rejeita a ideia de que os seres humanos sejam simples produtos passivos das circunstâncias. Afinal, como dito anteriormente, ele afirma que “são justamente os homens que transformam as circunstâncias e que o próprio educador precisa ser educado” (Marx; Engels, 2012, p. 118), e que a coincidência entre transformação das circunstâncias e transformação dos próprios indivíduos somente pode ser compreendida como práxis revolucionária.

É precisamente nesse ponto que se evidencia uma divergência fundamental entre Marx e Kardec. Marx circunscreve sua análise ao plano das relações materiais e históricas, rejeitando a hipótese da existência de uma realidade espiritual. Kardec, ao contrário, compreende o ser humano como Espírito imortal e interpreta a experiência terrestre como parte de um processo evolutivo mais amplo.

Enquanto Marx busca a emancipação por meio da transformação das estruturas econômicas e sociais, o Espiritismo acrescenta uma dimensão moral/espiritual à libertação humana. Kardec parte do pressuposto de que a realidade espiritual possui existência objetiva e que o ser humano é essencialmente um Espírito imortal temporariamente vinculado ao corpo físico. Em O Livro dos Espíritos, a vida corpórea é compreendida apenas como uma etapa da trajetória evolutiva do ser, que prossegue para além da morte através de múltiplas existências corpóreas (Kardec, 2009).

A transformação defendida pelo Espiritismo transcende, portanto, os limites da vida material. Seu objetivo último é a libertação do Espírito das imperfeições morais, especialmente do egoísmo e do orgulho, causas fundamentais dos sofrimentos humanos e das injustiças sociais. Enquanto Marx concentra sua análise nas estruturas históricas, econômicas e políticas, Kardec enfatiza o aperfeiçoamento moral e intelectual do Espírito ao longo de sua jornada evolutiva.

À primeira vista, tais perspectivas parecem incompatíveis. Ainda assim, ambos compartilham a convicção de que a superação da opressão exige transformação consciente do ser e da sociedade. Além disso, mesmo partindo de pressupostos ontológicos distintos, é possível identificar uma aproximação relevante entre as duas doutrinas.

Tanto Marx quanto Kardec recusam explicações puramente contemplativas da realidade. Ambos atribuem centralidade à transformação concreta da condição humana. Marx busca compreender as relações materiais para transformá-las; Kardec procura compreender as leis espirituais para promover a transformação moral do indivíduo. Em ambos os casos, conhecimento e transformação encontram-se inseparavelmente articulados.

Há ainda uma convergência metodológica frequentemente negligenciada. Marx critica o idealismo especulativo por se afastar da realidade concreta, ao passo que Kardec rejeita a fé cega e o dogmatismo religioso, propondo aquilo que denominou “fé raciocinada”. Mesmo em diferentes campos do conhecimento, ambos reivindicam uma postura investigativa diante da realidade e rejeitam a simples submissão à autoridade da tradição.

Desse modo, pode-se sustentar que o materialismo histórico circunscreveu a análise marxiana ao plano da vida social e econômica, permitindo-lhe desvendar os mecanismos de exploração do capital e os processos de alienação. O Espiritismo, por sua vez, amplia o horizonte de análise ao afirmar a existência objetiva do mundo espiritual e a continuidade da vida para além da experiência corpórea. Diz mais: a interexistência é condição ontológica do ser humano – não há dicotomia entre vida corpórea e vida espiritual; ambas estão intrinsecamente vinculadas e o que aqui é vivido repercute no além, e vice-versa. Tal compreensão impele – aqueles que, com ela, concordam – a iniciar na vida corpórea as transformações necessárias à evolução espiritual.

Embora partam de paradigmas distintos e alcancem conclusões diferentes acerca da natureza da realidade, ambos se apresentam como projetos de emancipação. Marx procura libertar o homem das estruturas materiais de dominação; Kardec procura libertar o Espírito das imperfeições morais que sustentam essas mesmas estruturas. É precisamente nesse horizonte emancipatório que se torna possível construir uma aproximação crítica entre os dois pensadores, sem ignorar as profundas diferenças que os separam.

Deus, religião e consciência

As diferenças entre Marx e Kardec acerca de Deus, da religião e da consciência decorrem de um distanciamento filosófico mais profundo. Enquanto o materialismo marxista circunscreve a análise da realidade ao plano histórico e material, o Espiritismo compreende a existência humana a partir da interação permanente entre as dimensões material e espiritual.

No que tange à crítica marxista da religião, ela está também vinculada à sua análise das formas de dominação social e ao papel das ideologias na reprodução das relações de poder. Para Marx, a religião frequentemente funciona como mecanismo de legitimação das desigualdades e como forma de compensação simbólica para sofrimentos produzidos pelas condições materiais de existência. Nesse sentido, as crenças religiosas podem contribuir para a manutenção da ordem social vigente ao deslocarem para uma esfera transcendente a solução de problemas que possuem causas históricas e sociais.

Ademais, ao falar sobre o “deus de Israel”, entendido como representação religiosa associada à exigência de submissão e obediência diante da autoridade (Marx, 2010), Marx amplia sua crítica para além das instituições religiosas, alcançando determinadas concepções de divindade que historicamente serviram para justificar relações de dominação. Sua preocupação não se restringe à religião como sistema de crenças, mas ao modo como determinadas formas religiosas podem contribuir para obscurecer as causas reais da exploração social.

É nesse contexto que ele afirma: “O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. Ela é o ópio do povo” (Marx, 2010, p. 145). Mas, a célebre expressão não deve ser compreendida como simples rejeição da experiência religiosa.

Marx considera que a religião nasce do sofrimento humano e oferece consolo aos indivíduos submetidos a condições de vida opressoras. Sua crítica dirige-se ao fato de que esse consolo pode se transformar em apatia e inação diante das estruturas que produzem o sofrimento. A emancipação humana exigiria, portanto, que os indivíduos compreendessem as causas concretas de sua condição histórica e atuassem conscientemente para transformá-las.

À primeira vista, a concepção espírita da Terra como mundo de expiações e provas poderia parecer suscetível à mesma crítica. Uma leitura superficial poderia sugerir que a explicação dos sofrimentos humanos por meio da lei de causa e efeito conduziria à aceitação passiva das desigualdades sociais, transformando a experiência religiosa em mecanismo de acomodação diante das injustiças. Nessa interpretação, se correria o risco de reproduzir, sob novas formas, a lógica de submissão denunciada por Marx.

Entretanto, os fundamentos filosóficos do Espiritismo apontam em direção distinta. Em primeiro lugar, Deus não é concebido como um ser antropomorfizado que recompensa, pune ou exige obediência cega. Logo na primeira questão de O Livro dos Espíritos, os Espíritos definem Deus como “a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas” (Kardec, 2009, p. 35). Essa definição afasta-se da imagem de uma divindade antropomorfizada, arbitrária ou autoritária e procura estabelecer um princípio universal que governa a criação por meio de leis imutáveis físicas (que regem o mundo corpóreo) e morais (que regem o mundo incorpóreo).

Em segundo lugar, o Espiritismo desloca a responsabilidade moral para o próprio indivíduo. As leis divinas não se apresentam como imposições externas transmitidas por autoridades religiosas, mas encontram-se escritas na consciência do Espírito. Em consequência, o julgamento das ações não decorre da condenação pronunciada por sacerdotes ou instituições religiosas, tampouco de um tribunal espiritual que distribui castigos eternos – por sinal, o Espiritismo rejeita a ideia de penas eternas.

Visto que o próprio Espírito, ao ampliar sua compreensão das leis divinas, reconhece as consequências de seus atos e compreende os efeitos das escolhas que realizou. Além disso, na visada espírita, o castigo é uma oportunidade que o Espírito arrependido pede para reparar os erros e aprender com as experiências em uma nova encarnação (Kardec, 2009).

O livre-arbítrio ocupa, portanto, posição central na ontologia espírita. Cada Espírito é livre para escolher seus caminhos e, ao mesmo tempo, responsável pelas consequências decorrentes dessas escolhas. A reencarnação não se destina à submissão passiva ao sofrimento, mas ao aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual do ser em evolução. A experiência terrena constitui oportunidade de aprendizado e de participação consciente no progresso individual e coletivo.

Essa concepção afasta o Espiritismo das formas religiosas marcadamente heterônomas, nas quais a autoridade moral é exercida por instituições, dogmas ou representantes encarregados de definir erros, penitências e meios de salvação. Embora reconheça a importância da orientação moral, Kardec rejeita a constituição de um sacerdócio hierarquizado e a aceitação cega de dogmas. Sua proposta religiosa fundamenta-se na liberdade de consciência e na investigação racional dos fenômenos espirituais.

É precisamente nesse contexto que Kardec formula o princípio da fé raciocinada. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, afirma: “não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade” (Kardec, 2008, p. 187). A fé, nessa perspectiva, não deve resultar da submissão da inteligência, mas do diálogo permanente entre razão, experiência e reflexão moral. Assim, o Espiritismo procura construir uma religiosidade que não suspenda o pensamento crítico nem substitua a responsabilidade individual por determinações externas.

É justamente nesse ponto que emerge uma aproximação interessante entre Marx e Kardec. Embora cheguem a conclusões radicalmente distintas acerca da existência de Deus e da realidade espiritual, ambos rejeitam formas religiosas que produzem passividade intelectual. Marx denuncia a religião quando ela se converte em instrumento de alienação e legitimação da opressão. Kardec critica as estruturas religiosas que transformam a fé em dogma e substituem a autonomia moral do indivíduo pela obediência cega à autoridade.

Pode-se dizer, portanto, que ambos atribuem importância decisiva à consciência humana. Marx busca despertar a consciência crítica capaz de compreender as determinações materiais da exploração social. Kardec procura despertar a consciência moral do Espírito, cuja criticidade o leva a ser capaz de reconhecer sua responsabilidade perante si mesmo, os outros e o ordenamento divino. Em ambos os casos, a emancipação exige o abandono de formas de pensamento que aprisionam o ser humano em relações de dependência, ignorância ou submissão.

Além disso, a moral espírita fundamenta-se no ensinamento de Jesus segundo o qual se deve amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Em outras palavras, a relação com Deus não se realiza à margem das relações humanas, mas através delas: não é possível amar a Deus sem amar o próximo e vice-versa. Bem como não há progresso espiritual autêntico quando persistem relações marcadas pela exploração, pela exclusão e pela indiferença diante do sofrimento alheio. Como observa Léon Denis, é da relação do ser humano com o princípio divino que decorrem “a harmonia universal, a comunidade e a fraternidade” (Denis, 2020, p. 21).

Desse modo, enquanto Marx procura libertar os indivíduos das formas religiosas que considera instrumentos de alienação e dominação, o Espiritismo busca libertar a experiência religiosa dos elementos dogmáticos, autoritários e heterônomos que historicamente favoreceram essas mesmas formas de dominação criticada por Marx. A divergência permanece profunda quanto à existência de Deus e da realidade espiritual; contudo, ambos convergem na crítica às estruturas que restringem a liberdade de consciência, substituem a responsabilidade individual por obediência passiva e contribuem para a perpetuação das injustiças humanas.

Considerações finais

Tanto para Marx quanto para Kardec, a transformação da realidade exige participação ativa dos indivíduos na construção da vida coletiva. Sob perspectivas distintas e utilizando categorias diferentes para interpretar a realidade, ambos rejeitam a passividade diante das injustiças sociais e atribuem ao ser humano a tarefa de participar ativamente da construção de um mundo mais justo.

O diálogo entre ambos pode, então, fomentar um exercício consciente de responsabilidade perante a sociedade, que aproxima tanto a luta contra as estruturas de exploração e dominação, como o enfrentamento do egoísmo e do orgulho que sustentam tais estruturas. É com essa perspectiva que compreendemos os caminhos para se construir uma cidadania que se liberta da lógica do capital e da visão redutora do materialismo, tendo no horizonte a emancipação humana em sua vida interexistente.

Marx e Kardec compartilham uma preocupação comum com a libertação humana, mas diferem quanto às causas da opressão e aos caminhos da emancipação. Marx identifica na estrutura econômica capitalista o principal mecanismo de exploração e sustenta que sua superação é condição indispensável para a realização humana. Kardec, por sua vez, localiza a raiz última dos males sociais no egoísmo e no orgulho, defendendo a transformação moral do Espírito (pela evolução espiritual) como fundamento de uma sociedade mais justa.

As convergências entre essas perspectivas encontram-se sobretudo na recusa à naturalização das desigualdades sociais, na valorização da educação como instrumento de transformação e na convicção de que a emancipação depende da ação consciente dos próprios seres humanos. Tanto em Marx quanto no Espiritismo, os problemas sociais não são apresentados como fatalidades históricas ou determinações divinas imutáveis, mas como construções humanas passíveis de transformação.

Também se verificou que, embora por caminhos distintos, ambas as tradições realizam críticas às formas de acumulação que comprometem a dignidade humana. Marx denuncia a exploração inerente à apropriação privada da riqueza socialmente produzida, enquanto o Espiritismo critica a acumulação motivada pelo egoísmo, pela avareza e pela indiferença diante das necessidades do próximo. Em ambos os casos, a riqueza perde legitimidade quando deixa de servir ao bem comum e passa a reproduzir privilégios, exclusões e formas de dominação.

As divergências, contudo, permanecem significativas. Elas aparecem na compreensão da história, da religião, da natureza da realidade e do próprio processo emancipatório. Enquanto Marx adota uma perspectiva materialista e compreende a transformação social a partir das contradições históricas presentes nas relações de produção, Kardec sustenta a existência objetiva da realidade espiritual e interpreta a evolução humana como processo simultaneamente moral, intelectual e espiritual que ocorrem ao longo de sucessivas encarnações.

Apesar dessas diferenças, o diálogo entre Marx e Kardec mostra-se fecundo para o debate contemporâneo. Em um mundo marcado pelo aprofundamento das desigualdades, pelo individualismo exacerbado, pelo consumismo e por múltiplas formas de violência e exclusão, a crítica marxista das estruturas de exploração e a crítica espírita do egoísmo e do orgulho oferecem perspectivas complementares para pensar os desafios da cidadania. Se Marx convida à transformação das condições sociais que produzem a opressão, Kardec conclama à transformação moral dos indivíduos que, conscientemente ou não, reproduzem essas mesmas estruturas.

Ademais, em ambos os pensamentos, a educação ocupa papel estratégico no processo de emancipação humana, ainda que orientada por finalidades distintas. Em Marx, a educação contribui para a formação da consciência crítica dos sujeitos, permitindo-lhes compreender as determinações históricas, econômicas e sociais que produzem a exploração e a desigualdade, condição necessária para a transformação da realidade por meio da práxis. No Espiritismo, a educação assume uma dimensão mais ampla, voltada não apenas à instrução intelectual, mas sobretudo ao autoconhecimento e à transformação moral do indivíduo, entendidos como caminhos para a superação do egoísmo e do orgulho.

Em comum, ambas as perspectivas rejeitam a passividade diante da realidade e atribuem ao processo educativo a capacidade de despertar o ser humano para uma compreensão mais profunda de si mesmo e do mundo que o cerca. Se, em Marx, a educação favorece a conscientização das estruturas sociais, em Kardec ela favorece o conhecimento de si; em ambos os casos, porém, trata-se de um instrumento de libertação e de construção de novas formas de existência individual e coletiva.

Por fim, o diálogo crítico entre essas duas tradições de pensamento pode contribuir para ampliar a reflexão espírita sobre cidadania, participação social e responsabilidade coletiva, tema central deste IX Fórum do Livre-Pensar Espírita. Mais do que escolher entre uma perspectiva e outra, o exercício aqui realizado sugere que a construção de uma sociedade verdadeiramente justa exige tanto a transformação das relações sociais quanto o aperfeiçoamento moral e ético daqueles que as constroem e sustentam.

Referências

DENIS, Léon. O porquê da vida. 1. ed. Catanduva: Edicel, 2020.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 349. ed. Araras: IDE, 2008.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 182. ed. Araras: IDE, 2009.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2008.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Feuerbach – A contraposição entre as cosmovisões materialista e idealista. 1. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. 1. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. 4. reimp. São Paulo: Boitempo, 2010.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro I – O processo de produção do capital. 3. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.

1 Psicografia recebida durante o estudo do texto Injúrias e violência (Evangelho), em 05.02.2022. Bom dizer que precisar a identidade do Espírito é uma das grandes dificuldades metodológicas do Espiritismo prático. Todavia, optou-se por manter o nome com o qual o Espírito assina por uma questão de registro e por se considerar a possibilidade de ser ele.

2 Na teoria espírita, o mérito é compreendido sob a perspectiva do Espírito na relação com Deus – por termos sido criados do mesmo modo (imortal, simples e ignorantes), com as mesmas condições de progresso (inteligência, moral, perfectibilidade e possibilidades múltiplas de reencarnação) que se estabelecem numa relação direta com o livre-arbítrio e os conhecimentos, progressivamente, alcançados por cada Espírito, as escolhas feitas pelo Espírito (encarnado ou não) trazem o mérito das decisões deste que pode variar conforme o contexto em que ele está inserido. Esta teoria não se assemelha ao discurso falacioso de meritocracia que é aclamado pelas superestruturas capitalistas, visto que, neste, as situações estruturais de desigualdade impedem que haja condições justas a todos.

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