A morte não é o fim. Somos consciências imortais em viagem de aprendizado, progresso e evolução

“Se a morte fosse o aniquilamento absoluto, a vida não teria sentido.” (O livro dos espíritos, questão 957)

Seres humanos não morrem. Seres humanos famosos por suas realizações na sociedade, também não. Mas o falecimento dos seus corpos costuma causar comoções e impactos diversos, reaproximando a verdade de que a vida no planeta é finita. Porém, nem por isso é menos extraordinária.

Quando Allan Kardec sistematizou os princípios do Espiritismo, apoiou-se num método rigoroso: a observação, a comparação e a análise crítica dos fenômenos mediúnicos. A Doutrina Espírita, desde seus fundamentos, sustenta a tese da imortalidade da alma não como crença cega, mas como resultado da experiência, do estudo dos fatos, da reflexão racional e da observação científica.

No início do século XX, Ernesto Bozzano, um dos maiores pensadores da metapsíquica, publicou A crise da morte, uma obra monumental em que analisa centenas de casos de comunicações mediúnicas de Espíritos recém-desencarnados. Suas conclusões foram categóricas: os processos de desprendimento da consciência do corpo físico são universais, padronizados, e revelam que a morte não é um fim, mas uma transição.

Hoje, um século depois, pesquisadores das ciências da consciência e da medicina de emergência — muitos deles sem vínculos com qualquer tradição espiritualista — deparam-se com fenômenos que reproduzem quase exatamente aquilo que Bozzano, Kardec e os Espíritos já haviam revelado.

“Os 12 pontos fundamentais de Ernesto Bozzano

No encerramento de A crise da morte, Bozzano resume os principais aspectos da experiência do desencarne em doze pontos, extraídos do cruzamento de centenas de relatos:

  1. Desconhecimento do estado de morto: O Espírito frequentemente não percebe que morreu, crendo-se ainda vivo no mundo físico.
  2. Busca por comunicação: Tenta dialogar com os presentes, sem compreender por que não é ouvido ou visto.
  3. Surpresa e insistência: Persiste nas tentativas de ser notado, muitas vezes com angústia e perplexidade.
  4. Percepção unilateral: Vê e ouve tudo o que ocorre no ambiente terreno, mas não é percebido pelos encarnados.
  5. Desespero momentâneo: Experimenta medo, confusão e inquietação diante da situação desconhecida.
  6. Visão do próprio corpo físico: Vê-se fora do corpo, observando-o inerte, seja no leito de morte, no local do acidente ou no velório.
  7. Aparição de Espíritos socorristas: Gradualmente, percebe a presença de entidades espirituais — familiares, amigos, mentores.
  8. Esclarecimento sobre a morte: Recebe orientação espiritual que lhe confirma a realidade de sua nova condição.
  9. Alívio e aceitação: A angústia se dissipa à medida que entende que continua vivo, porém em outro plano.
  10. Revisão panorâmica da vida: Surge, então, uma visão retrospectiva dos principais atos e escolhas da existência recém-encerrada.
  11. Afastamento do ambiente físico: Progressivamente se desprende do local do desenlace, acompanhado por Espíritos benfeitores.
  12. Entrada no mundo espiritual: Transita definitivamente para uma nova realidade, correspondente ao seu estado moral e espiritual.
“A Ciência moderna e as EQMs: a validação empírica

Nas décadas recentes, a medicina de emergência e a neurociência começaram a acumular dados que, ainda que inicialmente desconcertantes para o paradigma materialista, reproduzem exatamente as descrições dos processos de desencarne observados por Bozzano.

As chamadas Experiências de Quase Morte (EQMs) ocorrem, na maioria, durante situações clínicas de parada cardíaca, acidente grave ou estados de coma profundo. Durante períodos em que não há atividade elétrica cerebral mensurável — portanto, segundo os critérios médicos, a consciência deveria estar apagada — os pacientes relatam:

  • Desprendimento do corpo físico e visão do próprio corpo.
  • Observação precisa do ambiente, muitas vezes corroborada por testemunhas (médicos e enfermeiros).
  • Sensação de flutuação, paz e leveza.
  • Passagem por túneis ou portais.
  • Encontro com seres espirituais, familiares desencarnados ou entidades luminosas.
  • Revisão panorâmica da vida, com ênfase nas escolhas morais e afetivas.
  • Uma percepção clara de que “a vida não termina ali”.
  • Por fim, o retorno ao corpo físico, frequentemente acompanhado de uma transformação espiritual profunda.
“A consciência sobrevive à morte clínica?

O cardiologista holandês Pim van Lommel, em seu livro Consciência além da vida, defende que a consciência não é um produto do cérebro, mas uma entidade não-local, que utiliza o cérebro como um receptor-transmissor. Ele baseia-se em mais de vinte anos de pesquisa com pacientes de EQMs.

O psiquiatra Bruce Greyson, após sistematizar milhares de casos, desenvolveu a Escala de Greyson, ferramenta padrão na pesquisa de EQMs. Suas conclusões são claras: os relatos são consistentes, universais e não podem ser explicados por hipóxia cerebral, alucinações ou efeitos químicos.

O médico Sam Parnia, do projeto AWARE, conduziu estudos com milhares de pacientes em parada cardíaca, comprovando que alguns relataram percepções claras de procedimentos realizados enquanto estavam clinicamente mortos — percepções que foram verificadas como factuais.

“Alexander Batthyány e a lucidez terminal: um desafio adicional ao materialismo

O austríaco Alexander Batthyány, psicólogo, professor e diretor do Instituto Viktor Frankl, introduz outro fenômeno surpreendente à discussão: a lucidez terminal.

Se, para o paradigma materialista, a consciência depende integralmente do cérebro, como explicar que pacientes com Alzheimer avançado, com destruição maciça de neurônios, recuperem subitamente, nas horas ou dias finais, plena lucidez, podendo reconhecer familiares, dialogar e refletir com clareza, antes de falecer?

No livro Threshold (2023), Batthyány apresenta centenas de casos documentados que corroboram esse fenômeno, reforçando que a consciência não apenas resiste à falência do cérebro, como pode até se tornar mais lúcida quando o corpo se aproxima do desligamento definitivo.

“Se a consciência emergisse do cérebro, deveríamos esperar que ela se apagasse proporcionalmente à sua falência. No entanto, o que observamos é exatamente o oposto.” — Alexander Batthyány

“O Espiritismo e a Ciência: convergências notáveis

A Doutrina Espírita, desde O livro dos espíritos, estabelece claramente:

“A alma não reside no cérebro, mas irradia-se em todo o corpo, sendo o cérebro seu instrumento mais aperfeiçoado.” — Questão 141.

Essa concepção é perfeitamente compatível com a hipótese da consciência não-local, defendida hoje por estudiosos como Van Lommel, Greyson, Parnia e Batthyány.

Mais de um século antes, Ernesto Bozzano já defendia que a consciência é uma entidade autônoma, que sobrevive à morte do corpo, e que os relatos espirituais não são produtos da imaginação ou de processos psíquicos internos, mas evidências concretas de uma realidade extrafísica.

Reflexão final: Ciência e Espiritualidade caminham juntas

O que vemos emergir, lentamente, nas ciências da consciência, é uma ruptura com o paradigma reducionista que, durante séculos, tratou a mente como simples produto da química cerebral.

O Espiritismo não se opõe à ciência. Ao contrário, é uma ciência espiritual em desenvolvimento, aberta às descobertas que confirmem, ampliem ou aprofundem seus princípios. As pesquisas sobre EQMs, lucidez terminal e consciência não-local não fazem mais do que confirmar aquilo que os Espíritos superiores, através da codificação kardequiana e dos trabalhos de estudiosos como Ernesto Bozzano, já revelaram

“Repetindo: A vida continua. A morte não é o fim. Somos consciências imortais em viagem de aprendizado, progresso e evolução

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Livre-arbítrio e determinismo no Espiritismo

A evolução do Espírito está referenciada na Lei de Progresso. Em “O Livro dos Espíritos”, questão 647, está dito que: “ (…) Aliás, a lei natural compreende todas as circunstâncias da vida (…)”. Como consequência para o Espiritismo, o progresso espiritual é inerente ao existir humano, cumprindo-se pela ação do indivíduo.

Kardec definiu o Espiritismo como ciência investigativa dos fatos espíritas, através da mediunidade, e como uma filosofia com consequências morais. Sabemos que a Filosofia Espírita não é apenas um conhecimento, um campo de ideias abstratas, mas um meio efetivo para a compreensão do mundo, da vida, dos seres, enfim, da existência e da realidade, através da lente e do entendimento espírita. Para tanto, Kardec, ao longo de sua obra, propõe que essa tarefa se realiza ancorada no exercício da razão e do livre-arbítrio, os quais conferem-nos a condição de protagonistas, a responsabilidade por nossas escolhas e, também, o desmérito ou mérito de nossas ações e progresso.

Sendo desta maneira, o Espiritismo propõe que aprofundemos a busca por significados sempre crescentes e mais abrangentes, o exercício do pensamento crítico e autônomo, a reflexão questionadora dos valores e crenças, a análise das relações entre os indivíduos, culturas e contextos históricos. Propõe, igualmente, que questionemos, utilizando o raciocínio lógico e ético para analisar verdades estabelecidas e temas complexos, para, então, alcançar novas perspectivas de pensamento, verdades ampliadas e sempre progressivas, bem como sermos capazes de eleger novos propósitos de vida, coerentes com o desenvolvimento da própria razão e que propiciem, também, o desenvolvimento das livres escolhas, de modo a produzir mais felicidade, progresso e justiça para todos.

Livre-arbítrio e razão são patrimônios de todos os seres humanos. São como marcas do divino em nós. No entanto, são como pedras brutas que precisam ser lapidadas. Aí está o nosso protagonismo! Razão e livre-arbítrio são a estrutura que sustenta e que, ao mesmo tempo, revela o nível do ser que somos, o que sentimos, acreditamos e a natureza das nossas ações. Quanto mais precário e insuficiente for esse nível, mais deixamo-nos governar pelos “determinismos e instintos” extremos. Expressões como: “sempre fui assim”, “o mundo é assim mesmo”, “é o que Deus quis ou quer”, mostram passividade e submissão total diante da ação do determinismo, um livre-arbítrio adormecido e uma fé cega. Quanto mais desenvolvida a razão e o livre-arbítrio mais o determinismo e o instinto perdem atuação e menos condicionam as ações humanas, dando lugar à conscientização. Essa conscientização será, então, livre de misticismos, madura, coerente, ética e responsável, amparada nas contribuições da ciência, especialmente das ciências humanas e sociais.

Na escala inicial da jornada do Espírito, o Espiritismo situa-nos como “simples e ignorantes”. À medida das experiências nas encarnações múltiplas, vamos colhendo aprendizagens e, gradualmente, desenvolvendo razão e livre-arbítrio, transformando a mente, tornando-a capaz de raciocínios mais complexos, superando a condição inicial de simples. Da mesma forma, por ensaio, erro e acerto, colhemos consequências de dor ou de bem-estar e, assim, vamos educando nosso livre-arbítrio, realizando com isso melhores escolhas.

Desta maneira, sempre como protagonistas do aperfeiçoamento do espírito que somos, razão e livre-arbítrio ocupam a tarefa de construir, unidos à nossa vontade, nosso crescente possível progresso. Razão e livre-arbítrio crescem e determinismo e instinto perdem espaço de influência no nosso proceder, na medida que subimos de posição na escala de progresso, rumo à conquista da perfeição que é possível ao ser humano.

Na mesma medida em que crescemos em desenvolvimento da razão e do livre-arbítrio, crescemos em moralidade porque, pela prática da ética, examinamos nossos valores morais e vamos, também, transformando-os, abandonando aqueles que nossa razão refuta e elegendo outros, em coerência com uma prática de vida conectada com os novos patamares intelectomorais construídos. Essa conquista moral vai abrindo oportunidades ao Espírito de acessar reencarnações em mundos melhor situados na Escala Espírita de progresso, abandonando aqueles dos quais nossa sintonia vibracional desconectou-se e ingressando em mundos crescentemente mais avançados, em sua condição de existência.

O determinismo, se tomado como absoluto e fatal condicionante das ações do indivíduo, é uma concepção que afeta e avilta a visão espírita do ser humano, se compreendida deste modo, pois retira dele o protagonismo individual, autônomo, consciente e responsável por seus atos e construtor do seu destino. Em “O Livro dos Espíritos”, questão 851, o determinismo entendido como fatalidade:

(…) só existe no tocante à escolha feita pelo Espírito ao se encarnar, de sofrer esta ou aquela prova; ao escolhê-la ele traça para si mesmo uma espécie de destino, que é a própria consequência da posição em que se encontra. Falo no tocante às provas de natureza física, porque, no tocante às provas morais e às tentações, o Espírito, conservando o seu livre-arbítrio sobre o bem e sobre o mal, é sempre senhor de ceder ou resistir (…)” (grifos nossos).

No pensar espírita, o determinismo manifesta-se na revelação das tendências inatas, resultantes de experiências passadas, bem como pelos condicionamentos de condutas que trazemos conosco na vida atual e que pedem superações do indivíduo reencarnante. Ao reencarnar, trazemos nossa própria herança intelectomoral em seus aspectos positivos e aqueles que necessitamos ultrapassar.

A questão 861 de “O Livro dos Espíritos” esclarece que:

(…) Se há fatalidade, às vezes, é apenas no tocante a acontecimentos materiais, cuja causa está fora de vós e que são independentes da vossa vontade. Quanto aos atos da vida moral, emanam sempre do próprio homem, que tem sempre, por conseguinte, a liberdade de escolha; para os seus atos não existe jamais a fatalidade.”

Então, reencarnar e desencarnar é fatalidade para Espíritos imperfeitos que necessitam desenvolver razão e livre-arbítrio pelo amplo e generoso processo de educação que o existir proporciona nas duas dimensões da vida. Entendido desta forma, o determinismo espírita é positivo porque permite o autoconhecimento real e abre as possibilidades de, a partir dele, reescrever pela autoeducação a história de progresso individual possível a cada ser.

O determinismo espírita age compulsoriamente, fatalmente, mostrando quem somos através dos nossos modos de sentir, pensar, agir e, especialmente, por meio de nossas reações que costumam ser automáticas, repetitivas e espontâneas. Ele pode ser entendido, agindo independente de nossa vontade, evidenciando as forças interiores que nos compõem e que solicitam transformações. À medida que o Espírito vai progredindo através do desenvolvimento da razão e do livre-arbítrio, ele domina e enfraquece o determinismo pessoal e, em seu lugar, vai solidificando, pouco a pouco, virtudes, “agora”, por sua livre escolha e por consciência da necessidade de mudanças.

Resumindo, para entender a função pedagógica do determinismo e do instinto, que caminha com ele, precisamos relembrar a caminhada do Princípio Espiritual. Nos estágios iniciais do seu desenvolvimento a dinâmica é determinista, pois não há consciência de progresso, porque só há apenas latente o princípio da razão e do livre-arbítrio. Nesse nível, determinismo e instinto são soberanos na sua atuação, pois nesse contexto, a dinâmica de desenvolvimento inerente ao existir é automática e inconsciente.

Desta forma, o determinismo material é constante, nas fases iniciais da jornada do princípio espiritual, onde a razão ainda não desabrochou. Existem níveis diferentes de determinismo. Ele não se cumpre indefinidamente e do mesmo modo para todos. Emoções, impulsos, tendências e automatismos reacionais estão presentes no indivíduo, em cada encarnação, de forma sempre individual. No entanto, esses elementos podem ser transformados, quando destrutivos, pela educação do livre-arbítrio, pelo desenvolvimento da inteligência e pelo autoconhecimento. É saudável, mental e espiritualmente, buscá-los, porque a libertação dessa herança pessoal que sabota nossa felicidade e progresso é necessidade do ser humano, na conquista pessoal evolutiva.

Para o Espiritismo o determinismo, aliado ao instinto, não é uma fatalidade definitiva. É a vontade humana de autotransformação e de expansão da consciência que vai agindo sobre eles, na medida em que o indivíduo vai vencendo seus impulsos em desequilíbrio, seus comportamentos infantis repetitivos, suas tendências geradoras de infelicidade, seus comportamentos egocêntricos e seu funcionamento escravo de reações deletérias. O autoconhecimento, a autoaceitação, a disposição às mudanças e a busca do conhecimento são antídotos à submissão pessoal ao determinismo individual. Educação do livre-arbítrio, expansão da consciência, busca de novos conhecimentos e autotransformação são indicadores de que estamos progredindo e no caminho produtivo.

Temos que ter clareza, portanto, que fatalidade e livre-arbítrio precisam ser muito bem compreendidos, como diz Kardec:

O homem tem livre-arbítrio ou está sujeito a fatalidade? Se a conduta do homem dependesse da fatalidade, não teria responsabilidade pelo mal nem o mérito pelo bem praticado. Consequentemente todo o castigo seria injusto e toda recompensa um contrassenso. O livre-arbítrio do homem é consequência da justiça de Deus; é o atributo que lhe confere sua dignidade e o eleva acima das demais criaturas…” (O que é o Espiritismo, Capítulo III, Item 128).

Importante é ter presente que, se livre-arbítrio é autonomia, na visão espírita ela tem um referencial: a fraternidade e a construção do bem comum. Fora disso, livre-arbítrio carecerá de maturidade espiritual.

Será sempre o uso da própria liberdade, no sentido de emancipação intelectomoral, o exercício da ética e a educação da vontade, liberta de paixões, entendidas como todos os excessos que praticamos, que nos colocarão no caminho do progresso, que conquista mais felicidade pessoal e coletiva.

Tudo está em nossas mãos!

Referências Bibliográficas

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83. ed. São Paulo: LAKE, 2020.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. 30. ed. São Paulo: LAKE, 2022.
RÉGIS, Jaci. Do Homem e do Mundo. Santos, SP: LICESP, 1994.
RÉGIS, Jaci. Introdução à Doutrina Kardecista. Santos, SP: LICESP, 1997.
RÉGIS, Jaci. Novas Ideias: Textos Reescritos. Santos, SP: ICKS Edições, 2007.

Boas famílias

Escrevo esta coluna sob o impacto de um triste episódio acontecido no meu Estado. O que ocorre com alguma frequência nos Estados Unidos, tem, agora, se repetido no Brasil: Em uma pacata cidade do interior gaúcho, soube há pouco, um adolescente de 16 anos, armado com uma faca, ingressou numa escola e passou a atacar crianças e uma professora, em sala de aula. Uma menina de 8 anos acabou morrendo e três ou quatro outras foram hospitalizadas com ferimentos mais ou menos graves.

Uma das primeiras pessoas a ser ouvida em reportagem radiofônica há pouco divulgada foi o prefeito da cidade. Indagado se conhecia o agressor, disse: “É de uma família boa, aqui da comunidade”.

“Uma família boa…”. Essa declaração ficou ecoando em mim.

COMO EXPLICAR?

Sei que para explicar casos terríveis como esse, há inúmeras teses sociológicas, psicológicas, psiquiátricas etc. Há, também, a constatação de que determinadas matérias divulgadas, especialmente via Internet, envolvendo violência, podem operar sérios transtornos mentais em adolescentes, levando-os, muitas vezes, a atos brutais como esse.

Mas, por mais que se somem essas razões, a qualquer pessoa minimamente racional é difícil chegar a uma explicação definitiva. Como entender que, numa família de hábitos saudáveis, que educa seus filhos a partir de parâmetros culturais vigentes, em um mundo civilizado, possa alguém ser capaz de atos tão brutais e, aparentemente, sem qualquer motivação, censura interior ou, mesmo, arrependimento posterior?

É aí que, mesmo considerando todos os aspectos científicos e toda uma vasta literatura acerca de comportamentos humanos extremos e desarrazoados, somos levados a avançar para além do reducionismo materialista.

PSIQUISMO HUMANO

Grita na alma humana a necessidade de ampliar a pesquisa do histórico e do meio em que vive um ser capaz de ato tão brutal, recorrendo a hipóteses anteriores à vida atual. O que, ainda, é tido meramente como uma crença torna-se, então, uma hipótese a ser, pelo menos considerada.

Episódios assim, tanto como outros, bons ou maus, heroicos ou extremamente cruéis, não cabem inteiramente no limitado espaço espremido entre o berço ao túmulo ou explicáveis pelas contingências biológicas, educativas, familiares e sociais de seus agentes.

É aí que entram as concepções radicadas na existência do espírito e na anterioridade de causas que possam levar a comportamentos tão fora de contexto, como esse protagonizado por um jovem “de boa família”.

Não estou sugerindo a simplória ideia de que autores de atos gravosos como esse estejam servindo de instrumento para a “justiça divina”, tornando-se algozes de quem, antes, os fizera vítimas. Isso em nada serviria à justiça – nem humana, nem divina -, mas patentearia a vingança, sempre abjeta e perpetuadora do mal. Entretanto, o psiquismo humano é tão complexo e, muitas vezes, tão desvinculado do tempo e espaço atual, que impõe reflexões e pesquisas sobre eventuais anterioridades.

UM NOVO PARADIGMA

Em concorridos Congressos Espíritas, posteriores a Kardec, notadamente em Barcelona (1888) e Madri (1892), período em que, pelo menos na Espanha, o espiritismo foi visto fundamentalmente como uma ciência, houve proposições de introdução da ciência espírita como matéria a ser estudada nas escolas.

A pós-modernidade, que separou, corretamente, o Estado da religião, decidiu, arbitrariamente, entretanto, que todas as questões atinentes ao espírito, sua existência e sua capacidade de influência material, se mantivessem presas às crenças: “coisas de religião”, não cabendo à sociedade laica considerá-las.

Foi a partir de uma concepção científica, filosófica e não religiosa do espiritismo que Kardec sonhou vê-lo como titular do que chamou de gozo do “direito de cidadania entre os conhecimentos humanos”, (L.E. Conclusões, item XVIII).

Se isso vier a acontecer um dia – e estamos, parece, tão distantes dessa possibilidade -, quantos comportamentos humanos hoje tão difíceis de entender, poderão ser melhor examinados e avaliados, a partir de suas causas mais profundas.

A teoria espírita guarda sementes de um novo paradigma de conhecimento apto a tornar-se profundamente transformador do ser humano e da sociedade.

 

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