Escrevo esta coluna sob o impacto de um triste episódio acontecido no meu Estado. O que ocorre com alguma frequência nos Estados Unidos, tem, agora, se repetido no Brasil: Em uma pacata cidade do interior gaúcho, soube há pouco, um adolescente de 16 anos, armado com uma faca, ingressou numa escola e passou a atacar crianças e uma professora, em sala de aula. Uma menina de 8 anos acabou morrendo e três ou quatro outras foram hospitalizadas com ferimentos mais ou menos graves.
Uma das primeiras pessoas a ser ouvida em reportagem radiofônica há pouco divulgada foi o prefeito da cidade. Indagado se conhecia o agressor, disse: “É de uma família boa, aqui da comunidade”.
“Uma família boa…”. Essa declaração ficou ecoando em mim.
COMO EXPLICAR?
Sei que para explicar casos terríveis como esse, há inúmeras teses sociológicas, psicológicas, psiquiátricas etc. Há, também, a constatação de que determinadas matérias divulgadas, especialmente via Internet, envolvendo violência, podem operar sérios transtornos mentais em adolescentes, levando-os, muitas vezes, a atos brutais como esse.
Mas, por mais que se somem essas razões, a qualquer pessoa minimamente racional é difícil chegar a uma explicação definitiva. Como entender que, numa família de hábitos saudáveis, que educa seus filhos a partir de parâmetros culturais vigentes, em um mundo civilizado, possa alguém ser capaz de atos tão brutais e, aparentemente, sem qualquer motivação, censura interior ou, mesmo, arrependimento posterior?
É aí que, mesmo considerando todos os aspectos científicos e toda uma vasta literatura acerca de comportamentos humanos extremos e desarrazoados, somos levados a avançar para além do reducionismo materialista.
PSIQUISMO HUMANO
Grita na alma humana a necessidade de ampliar a pesquisa do histórico e do meio em que vive um ser capaz de ato tão brutal, recorrendo a hipóteses anteriores à vida atual. O que, ainda, é tido meramente como uma crença torna-se, então, uma hipótese a ser, pelo menos considerada.
Episódios assim, tanto como outros, bons ou maus, heroicos ou extremamente cruéis, não cabem inteiramente no limitado espaço espremido entre o berço ao túmulo ou explicáveis pelas contingências biológicas, educativas, familiares e sociais de seus agentes.
É aí que entram as concepções radicadas na existência do espírito e na anterioridade de causas que possam levar a comportamentos tão fora de contexto, como esse protagonizado por um jovem “de boa família”.
Não estou sugerindo a simplória ideia de que autores de atos gravosos como esse estejam servindo de instrumento para a “justiça divina”, tornando-se algozes de quem, antes, os fizera vítimas. Isso em nada serviria à justiça – nem humana, nem divina -, mas patentearia a vingança, sempre abjeta e perpetuadora do mal. Entretanto, o psiquismo humano é tão complexo e, muitas vezes, tão desvinculado do tempo e espaço atual, que impõe reflexões e pesquisas sobre eventuais anterioridades.
UM NOVO PARADIGMA
Em concorridos Congressos Espíritas, posteriores a Kardec, notadamente em Barcelona (1888) e Madri (1892), período em que, pelo menos na Espanha, o espiritismo foi visto fundamentalmente como uma ciência, houve proposições de introdução da ciência espírita como matéria a ser estudada nas escolas.
A pós-modernidade, que separou, corretamente, o Estado da religião, decidiu, arbitrariamente, entretanto, que todas as questões atinentes ao espírito, sua existência e sua capacidade de influência material, se mantivessem presas às crenças: “coisas de religião”, não cabendo à sociedade laica considerá-las.
Foi a partir de uma concepção científica, filosófica e não religiosa do espiritismo que Kardec sonhou vê-lo como titular do que chamou de gozo do “direito de cidadania entre os conhecimentos humanos”, (L.E. Conclusões, item XVIII).
Se isso vier a acontecer um dia – e estamos, parece, tão distantes dessa possibilidade -, quantos comportamentos humanos hoje tão difíceis de entender, poderão ser melhor examinados e avaliados, a partir de suas causas mais profundas.
A teoria espírita guarda sementes de um novo paradigma de conhecimento apto a tornar-se profundamente transformador do ser humano e da sociedade.
