Opinião em tópicos

Nascer e viver

O poeta gaúcho Mário Quintana que, como está acontecendo comigo, viveu mais de 80 anos, escreveu: “Nascer é uma possibilidade, viver é um risco e envelhecer é um privilégio”.

Sobre as estreitas possibilidades de nascimento, sabemos que, em cada relação sexual, o homem expele centenas de milhares de espermatozoides para, em alguns casos restritos, apenas um alcançar o óvulo feminino e fecundá-lo. Isso sem levar em conta o que nós, espíritas, consideramos as nem sempre fáceis oportunidades de reencarnação dos espíritos. Segundo alguns relatos, há sempre filas deles buscando a oportunidade de voltar à matéria.

Quanto ao risco de viver, este é altíssimo, pela própria natureza da vida material e as contingências peculiares de cada existência. A luta pela sobrevivência, do homem das cavernas ao guerreiro de todos os tempos; as epidemias; a violência; a fome, os desastres climáticos, tudo sempre esteve a conspirar contra a fragilidade humana.

PRIVILÉGIO?

Já, o envelhecer será mesmo um privilégio? Ao completar 84 anos, guardo lá minhas dúvidas. Não consigo ver exatamente assim em casos invariavelmente próximos a cada um de nós. Deparamo-nos a cada momento com velhos acometidos de dolorosas limitações físicas e mentais, totalmente dependentes, muitas vezes, de pessoas nem sempre dispostas a lhes prestar a devia ajuda. Sim, sei que a complexidade do viver, as injustiças sociais e, também, as escolhas de cada um moldam diferentes sortes que podem se inscrever no complexo rol dos desafios necessários, das consequências naturais ou das compulsórias provações suscetíveis de gerar avanços.

Seja isso privilégio, seja um quadro de consequências pedagógicas, ou o que for, o que bem sei, no entanto, é que, nesta fase da vida, tornamo-nos, mais aptos a melhor interpretar episódios de nossa existência, incompreendidos ou lamentados, quando de sua ocorrência.

ONTEM E HOJE

Vai daí que, passando a limpo a vida da gente, o que ontem nos pareceu mero acaso, podemos ver hoje como absolutamente decisivo ao atingimento de certas metas reencarnatórias.

Decisões tomadas repentinamente, sem uma clara razoabilidade, ou derrotas profissionais e até episódios duramente sentidos, porque aparentemente injustos, lá adiante podem se revelar imprescindíveis a posteriores êxitos ou estágios familiares, sociais ou emocionais, carregados de felicidade. Eles não ocorreriam, sem os pressupostos fáticos anteriores.

Ditado popular afirma que “Deus escreve direito por linhas tortas”. O raciocínio espírita nos permite conferir uma certa complexidade a isso. O universo, pensamos, é regido por múltiplos mecanismos inteligentes, teleologicamente conectados, entre si, sujeitos a uma lei natural, emanada de uma “Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. É no estágio final da vida que nos tornamos aptos a melhor compreender isso.

INFLUÊNCIAS ESPIRITUAIS

É com raciocínios e experiências dessa natureza que podemos ajuizar melhor a afirmação contida na questão 459 de O Livro dos Espíritos. Indagados sobre se influem os Espíritos sobre nossos pensamentos e atos, os interlocutores espirituais de Kardec responderam: “Mais do que imaginais, pois, com bastante frequência, são eles que vos dirigem”.

À primeira vista, a afirmativa pode se revelar totalmente atentatória à nossa autonomia. Mas, autonomia é conquista paulatina e progressiva do espírito. No estágio em que estamos, nem sempre avaliamos corretamente o que nos serve e o que nos prejudica. O deficiente conhecimento acerca de nossas reais necessidades, no contexto de uma experiência encarnatória, exige, muitas vezes, que sobre nossas decisões, planejamentos ou aparentes interesses, se contraponham interferências espirituais, só mais tarde compreensíveis.

Será a compreensão dessa realidade o grande privilégio do envelhecimento, reconhecido pelo poeta gaúcho, que eu tive a ventura de conhecer pessoalmente, e que desencarnou em 1996, aos 88 anos de idade?

Enfoque

A resistência ao Jesus histórico no meio espírita

A comunidade espírita brasileira construiu um discurso sobre a cientificidade do Espiritismo. Tomando a posição de Kardec como referência [1], os espíritos se declaram abertos aos avanços científicos, inclusive desfrutando de mudar certos pontos da Doutrina, desde que se comprovem estar errados. Não vou discutir o estatuto científico do Espiritismo. Neste texto, o objetivo é confrontar a apropriação desse discurso de valorização das ciências com os resultados das pesquisas históricas e arqueológicas sobre Jesus de Nazaré.

Embora a posição aparentemente flexível e progressiva, o que se observa é que os espíritos estabelecem uma relação seletiva com os saberes científicos. Se as teorias e os experimentos apontam alguma convergência com as teses do Espiritismo, geralmente são aceitas e replicadas sem um exame mais detido. Por outro lado, se as pesquisas científicas discordam dos conteúdos espíritas ou mostram que estão equivocados e/ou ultrapassados, a ocorrência é intensa na defesa do credo. A comunidade espírita tende a se isolar em sua bolha de fé e reforçar convicções para os convertidos.

Exemplo relevante dessa ambiguidade é o tratamento dispensado às descobertas sobre o Jesus histórico. A perturbação provocada é capaz de unir quase todo o espectro dos espíritas, de dogmáticos a progressistas. O desagrado é generalizado. Parece haver um acordo implícito de limites para essas pesquisas, pois é considerado exagero mexer em certas concepções sobre a figura deificada de Jesus. Curiosamente, nesse contexto, muitos espíritos praticam negacionismo científico. Cai por terra todo o discurso cuidadosamente elaborado e reproduzido de uma suposta conduta doutrinária de diálogo rigorosa e permanente com as ciências.

As opiniões no Jesus teológico são fortes e se impõem sobre as evidências históricas e arqueológicas. Essa resistência indica conflitos com a idealização do camponês de Nazaré e revela fragilidades na elaboração de certos conteúdos doutrinários. Por vezes, a apresentação das descobertas é recebida como opinião às opiniões pessoais. Por isso esclareço: não discuto a fé de ninguém. Respeito o direito das pessoas de acreditar no tipo de Jesus que mais lhes agrada. Estou ciente do sucesso do Cristo no meio espírita brasileiro. Não escrevo para atacar nem para converter. Faço uma análise e a entrego para as considerações do(a) leitor(a) interessado(a) no tema.

Objeções mais comuns

Uma ampla parcela dos espíritos se satisfaz com as abordagens exclusivamente teológicas. Para esse grupo, a historicidade de Jesus é negada ou nem sequer é alvo de atenção. Essas pessoas conhecem apenas o Jesus Teológico da Bíblia e os livros espirituais de exortação da moral evangélica; leem os romances mediúnicos e acredito piamente que são relatos verídicos e completos dos episódios dos Cristianismos primitivos. Para esses adeptos, o mais importante é ter fé em Cristo. Assim, ignoram, não se interessam ou rejeitam as pesquisas sobre o Jesus histórico. Sua visão é limitada à crença e sem contato com a ciência.

Na sequência, abordo meu registro das três contestações mais frequentes dos espíritas referentes às pesquisas de historiadores e arqueólogos sobre Jesus. Não pretendo estabelecer uma classificação completa e definitiva. Certamente há nuances que escapam ao esquema proposto, e a complexidade dos posicionamentos extrapola esta ordenação conceitual. No entanto, entendo que pode ser um mapa útil para apresentar um panorama dos principais argumentos da inclusão. Escrevo alguns apontamentos em cada tópico, examinando a teoria das ideias.

Assimilação fideísta

Esse agrupamento é formado por espíritas que aceitam alguns resultados das pesquisas sobre o Jesus histórico e tentam adaptá-los às suas crenças. Há uma tentativa de conciliar os conhecimentos científicos com as informações dadas pelos Espíritos. É um comportamento característico de adeptos com formação superior, particularmente em Ciência da Religião. Conceitos e descobertas são mobilizados para dar uma suposta validação científica ao conteúdo mediúnico. O exemplo mais notável é o esforço de harmonização das investigações documentais e arqueológicas com a narrativa do livro “Paulo e Estêvão”, apesar do acúmulo de divergências.

Mas nesse grupo, parte das investigações científicas são ignoradas de propósito; não é por falta de conhecimento. Faça-se uma opção pela visão teológica em confronto com a realidade histórica. A situação é bem ilustrada na insistência desses espíritos em afirmar que Jesus sabia ler e escrever, que era um leitor das escrituras sagradas. Essa crença é infundada e se opõe ao consenso científico consolidado: Jesus foi um camponês pobre e analfabeto. Os malabarismos exegéticos demonstram o desconforto em admitir uma liderança espiritual sem letramento.

Nessa mentalidade, há uma falsa aliança da fé com a ciência, uma encenação da proposta Kardequiana [2]. Mas na prática o que se observa são os espíritos colocando essa fé acima do exame racional. O que se faz é submeter a história aos ditados mediúnicos e, por isso, denomina essa postura de Escolástica Espírita. Trata-se de uma retomada medieval, agora atualizando a filosofia pela ciência. Os textos científicos são interpretados à luz do Espiritismo e parte-se do pressuposto da verdade das informações de origem espiritual. Portanto, é feita uma seleção conveniente de conteúdos históricos e destruídos, que são submetidos à fé espírita.

Viés materialista

As objeções desse grupo se concentram nas suposições metafísicas dos pesquisadores, pois muitos são céticos em relação às aparências espirituais e outros tantos são ateus. Ressalta-se que os métodos históricos têm limitações e, nesse contexto sobre a vida e os feitos de Jesus, de particular importância são os critérios do que se julga serem possíveis. Por exemplo, se os cientistas não admitirem a priori os acontecimentos relatados como milagres, logo deverão ser outras coisas e não fatos. O ceticismo e o ateísmo são apontados como causas de ciúme das pesquisas sobre o Jesus histórico, cujas conclusões estariam condicionadas a esses paradigmas.

Embora reconhecendo a validade dessa argumentação, precisamos examiná-la detalhadamente. Os modelos epistemológicos mais renomados sobre as pesquisas científicas confirmam que a visão do pesquisador é significativa e que deve ser considerada como parte integrante de seu trabalho. Mas esse aspecto é administrável com boas práticas de pesquisas históricas e arqueológicas, através de métodos rigorosos, teorias consistentes e pelo controle coletivo dos pares da comunidade de pesquisadores. Os resultados são embasados ​​em fontes documentais, escavações, análises comparadas de textos etc. As evidências são apresentadas em artigos científicos que passam pelo escrutínio dos demais especialistas.

A questão é mais complexa e não podemos negar os resultados das pesquisas apenas com a justificativa da interferência do embasamento metafísico dos pesquisadores. Além disso, o espírito não tem vindo a estudar sobre Jesus? A suposição espiritualista do Espiritismo também não poderia ser usada como motivo para interditar aos espíritos a investigação histórica? Se nos guiarmos por esse entendimento tão restritivo, teríamos de concordar com os céticos dos psicológicos e mediúnicos, que desde o século XIX acusam os espíritos de parcialidade na condução dessas pesquisas.

Correntes de pensamento

Por vezes a objeção recai sobre uma suposta falta de consenso no meio científico. Certos pontos são considerados como opiniões isoladas de pesquisadores, como por exemplo, a inexistência histórica de Judas Iscariotes e o não sepultamento do corpo de Jesus. São aspectos que tocam em discussão, e a exclusão deles é embasada na divergência de outros estudiosos. É argumentação típica de espíritas que são historiadores de profissão, embora não sejam especialistas em Cristianismos e Judaísmos primitivos. Muitas vezes é rotulado de modismo como pesquisas históricas de Jesus, como se fosse uma excentricidade passageira que criava tipos alternativos e customizados do nazareno.

Naturalmente, como em toda ciência, existem tópicos não consensuais em debate nas pesquisas sobre Jesus. Mas, geralmente, não são estes itens que incomodam os espíritos, pelo contrário: são os aspectos consolidados que provocam as negações. É muito importante destacar que parte dessas alegadas divergências são de teólogos cristãos. O argumento do viés religioso deveria ser aplicado? Em muitos casos a discordância é apenas uma defesa de dogmas. Além disso, em todas as áreas científicas existem pessoas que não aderem aos consensos mesmo que há evidências robustas. Há biólogos antivacina, físicos negacionistas do aquecimento global etc. Esses sim são posições isoladas que não refletem o estado da arte de uma ciência.

As pesquisas sobre Jesus formam uma área científica consolidada, em franco desenvolvimento e remontam suas origens ao século XIX. Há uma rede mundial de historiadores e arqueólogos, grupos de pesquisa universitária, periódicos de publicação e debates. Fontes e métodos embasam essas ciências, que utilizam documentos, artefatos materiais, textos etc. Logo, não se trata de uma modinha acadêmica, mas de um trabalho interdisciplinar maduro. Os espíritos que pesquisam nesse ramo científico são muitas vezes acusados ​​de estarem tentando solapar o Espiritismo, são tratados como adversários internos.

E se Jesus não for o “cara”?

Essa é uma questão central para os espíritos. O Jesus histórico revelou pelas pesquisas científicas muitas e importantes diferenças com suas representações teológicas. O Espiritismo surgiu em uma cultura cristã e herdou séculos dessa construção religiosa. Kardec teve uma postura racional e ponderada ao lidar com o assunto, quando chegou ao conhecimento, ao analisar a obra de Ernest Renan. Kardec se esforçou para dialogar com as ciências de sua época (e suas limitações), e não se tornou um defensor de Jesus teológico. Apesar disso, a visão religiosa de Cristo é relevante em seu trabalho. Nesse sentido, é exemplar a querrela para associar o Espírito de Verdade a Jesus, que continua provocando debates atualmente. Essa discussão teológica foi iniciada pelo próprio Codificador a partir de mensagens mediúnicas que ele revelou essa informação. Essa busca mostra o comprometimento em dar autoridade ao pensamento espírita dentro de um contexto majoritariamente cristão.

A estratégia consiste em trazer ao Cristo em pessoa (espírito) a condução da elaboração do Espiritismo. Mas esse líder tem que ser uma criatura excepcional da visão teológica. Ocorre que a ciência mostra como foi a construção paulatina dessa figura ímpar e os interesses e conflitos que mobilizaram tal estruturação. Daí, portanto, surgirem os choques provocados pelas descobertas do Jesus histórico. Alguns aspectos do pensamento espírita são calcados em informações equivocadas ou exageradas sobre o nazareno. O que acontece se esvaziarmos Jesus dessa potência salvífica? Se as suas características extraordinárias foram atribuídas a segundas disputas religiosas, é preciso enfrentar uma ruptura no sagrado, um conflito de fé.

Por isso, estou confirmado de que por um longo tempo o Jesus histórico ficou quase limitado ao meio acadêmico (e entre os curiosos), sem penetrar no meio espírita, que ele é refratário. Jesus de Nazaré era um camponês inteligente que falava coisas sábias. Mas esse não é o motivo de seu sucesso popular. Não foi esse o “cara” que dividiu o calendário em antes e depois dele. A relevância em se falar de Jesus (desde o século I) se deve ao fato de ele curar, exorcizar e fazer milagres. Ele é capaz de controlar a água e os ventos, trazendo paz e segurança, libertando o indivíduo do medo. Esse Jesus exaltado e reverenciado é que faz sentido para muitas pessoas. Esse é o lado que explica o seu sucesso, embora tenha um pouco a ver com a história.

Isso se refere à dimensão teológica de um Jesus fortemente idolatrado que, inclusive, vai gradativamente se tornar Deus ao longo do processo histórico. Ele se transformou em uma potência a quem os cristãos recorrem para lhes salvar e ajudar. Os cristãos tradicionais fizeram o Nazareno chegar ao topo através de profundas interações culturais nas quais Jesus absorveu muitas potências dos deuses da concorrência religiosa. Os espíritos prosseguem à expansão teológica de Jesus, colocando-o no patamar superior a todos os Espíritos, conferindo-lhe o título de governador espiritual do planeta. Embora o Espiritismo reconheça a existência de missões em todas as culturas, Jesus é melhor do que eles, evoluíram em linha reta.

O maravilhoso e o sobrenatural

A religião não é algo estático. Os movimentos de Jesus sem Jesus (re)configuram dinamicamente o retrato do camponês de Nazaré. Há estilos para todos os gostos: Jesus profeta do fim do mundo, Jesus (quase) guerrilheiro, Jesus filósofo, Jesus esotérico etc. Alguns confrades manifestam preocupação de que logo vamos ter um “Jesus espírito progressista”, que será um avatar de discussões sobre representatividade étnico-racial e libertação anticolonial, apresentações apenas para a vida terrena. Não partilho desse recebimento. Com o expressivo avanço neopentecostal e do fundamentalismo religioso cristão no Brasil, o Jesus teológico assume uma visão reacionária, armamentista e focada na prosperidade econômica.

O movimento espírita hegemônico, federativo e institucionalizado, responde a esse cenário aprofundando seu típico conservadorismo. Está em curso a ascensão de um Espiritismo que supervaloriza o texto bíblico em detrimento das pesquisas históricas e arqueológicas e do próprio conteúdo espírita. Popularizam-se os grupos de “estudo minucioso” do evangelho, impulsionados pelos órgãos de unificação, sem qualquer suporte dos saberes científicos. O Jesus teológico é reforçado, embora se adaptando ao novo contexto de predomínio religioso dos evangélicos. Já temos até uma “Bíblia espírita” e “especialistas” das escrituras sagradas. Trata-se da continuação do Espiritismo catolicizado que dominou o século XX. Em ambas as situações, o Jesus teológico é fundamental para a estrutura do credo.

Essa mentalidade tem origem no século XIX, quando as teses de Roustaing desembarcaram no Brasil. Suas concepções teológicas sobre Jesus enraizaram-se profundamente nos Espiritismos do país, principalmente por causa de sua intensa divulgação pela Federação Espírita Brasileira. Nessa perspectiva, Jesus não teve um corpo carnal, mas apenas o fluídico, dentre outros absurdos. Embora em franca contradição com a lógica, as ciências, os fatos e os princípios espirituais, sua obra caiu no gosto popular marcadamente devocional. Percebe-se essa poderosa influência do Roustainguismo no senso comum espírita, que interpreta de maneira literal as narrativas de curas e milagres atribuídos a Jesus. Kardec foi cauteloso ao examinar esse tópico e propor explicações espirituais.

Asclépio — deus da medicina e da cura na mitologia grega — curava e ressuscitava (também doentes em fase terminal). É uma realização anterior a Jesus, famoso no império romano. Não adianta hoje dizer isso pois, para o espírito crente na perspectiva teológica, Jesus Cristo o superou. Nessa chave cristã de leitura do Espiritismo, o guia e modelo moral da humanidade precisa ser dotado de habilidades sobre-humanas. Atribuir-lhe superpoderes é uma forma de credenciá-lo ao papel máximo de líder espiritual. Portanto, quando uma pesquisa científica aborda o homem Jesus, historicizado, e explica o seu processo multissecular de deificação, a fé de muitos espíritos pode ficar abalada.

Por uma nova transcendência

As pesquisas do Jesus histórico geram dúvidas pertinentes sobre a veracidade das informações mediúnicas sobre ele e os cristãos. É preciso examinar com rigor os livros psicografados que versam sobre esse tema e ter a honestidade intelectual de rejeitar aquilo que estiver errado. É compreensível o incômodo que isso causa no meio espiritual, pois essas obras foram (e ainda são) fundamentais para construir, divulgar e fortalecer o imaginário teológico. Aceitar os resultados científicos implica abandonar a visão mística do Nazareno, o que muitas pessoas não querem fazer. Reitero o meu respeito ao direito do espírito de crer nesse Jesus romanceado e nas invenções espirituais sobre ele, mas é preciso enfatizar que tal crença não tem embasamento histórico nem arqueológico.

Nós somos criados no caldo cultural dominado pelos cristãos e pelas suas teologias de Jesus. O meio espírita brasileiro faz parte dessa educação social, em particular através dos conteúdos mediúnicos fantasiosos. Vivemos muitos anos imersos nessas áreas e é difícil encarar as críticas que apontam seus limites e historicidade. Nessa mente, aprender a reverenciar Jesus como um ser especial, dotado de poderes específicos, sem as fragilidades humanas. Há companheiros que alertaram para a provável formação de um Jesus sem transcendência, “apenas” humano. Observe que a perda do status divino causa insegurança e mal estar.

Penso que nosso amadurecimento na relação com Jesus e sua mensagem passa mesmo por essa humanização dele. Não em um sentido depreciativo, negando-lhe virtudes. Mas, paradoxalmente, (re)formulando sua transcendência. O comportamento dele é profundamente humano porque é ético e amoroso. Jesus foi um judeu, camponês analfabeto, que propôs o reino de Deus na Terra, baseado em três princípios: comensalidade, justiça e paz. A prática do amor ao próximo é o núcleo de sua moral. Se Jesus fosse um ser transcendente, diferenciado no sentido teológico, ele possuiria uma natureza diversa da nossa. Logo, tudo o que ele ensinou não nos serviria, pois só seria viável de aplicação para os que fossem semelhantes.

As deturpações teológicas e mediúnicas da figura de Jesus infantilizam cristãos e espíritas, que o tratam como um sujeito excepcional. Daí advêm aberrações e sofismas para justificar que ele seja simultaneamente humano e divino. Há espíritos que admitem a virgindade de Maria e a tese de que Jesus morreu na cruz para nos salvar dos pecados. Essas são algumas consequências de concebê-lo com essa transcendência religiosa. No entanto, o Espiritismo explica que a natureza dele é idêntica à nossa. Essencialmente somos iguais e nossa diferença em relação a ele não é de natureza, mas sim de nível de desenvolvimento espiritual. As pesquisas históricas enfatizam a convivialidade de Jesus, sempre no meio das pessoas, participando de suas vidas, envolvidas com as grandes questões de sua época-lugar.

Eu estou convencido de que no diálogo com o Jesus histórico podemos aprofundar nossa compreensão sobre ele e seus ensinamentos e abrir mão das versões teológicas construídas para atender aos interesses do domínio religioso. Essa abertura crítica para o conhecimento científico sobre Jesus apresenta novas perspectivas de interpretação até de sua moral e nos imuniza contra fanatismos, fundamentalismos e dogmas. Além disso, os avanços das pesquisas em nada afetaram o núcleo do Espiritismo, que é: a existência da alma e sua sobrevivência à morte do corpo biológico, conservando integralmente a sua individualidade. Estudar Jesus com os métodos e teorias da história e da arqueologia pode ser de grande utilidade na reformulação de sua transcendência, deslocando-a dos aspectos místicos e devocionais para os aspectos éticos e sociais. Isto é, trocar a ênfase dada para curas, milagres, exorcismos etc, pelo sujeito profundamente amoroso e comprometido com a felicidade do próximo, com a garantia do necessário para uma vida digna e com o exercício das virtudes. Enfim, transitar para uma compreensão historicizada de Jesus é um convite para que uma pessoa espírita permita uma experiência liberta das carcomidas amarras das teologias.

[1] A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Capítulo I, item 55. Autor: Allan Kardec. Editora: IDE.

[2] O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo I, item 8. Autor: Allan Kardec. Editora: LAGO.

Agradecimentos a Priscilla Pellegrino pela revisão textual, a Diego Alberto pelos apontamentos relevantes, e ao pessoal do Instituto de Pesquisa Matéria, Espírito e Sociedade pela paciência nas controvérsias sobre o Jesus histórico no meio espiritual.

Artigo publicado em https://medium.com/@cultespirita

Opinando

A violência nossa de cada dia

Vivemos em uma era marcada por episódios de violência extrema e intolerância. Policiais se matam em Caxias, torcedores são brutalmente violentados por torcidas organizadas, enquanto a extrema-direita cresce no Ocidente. No Equador, gangues desmantelam a ordem social; na África, guerras civis persistem. Gaza está destruída, e Trump ameaça se apossar de territórios e promover limpeza étnica. A PM de São Paulo se transformou em uma máquina de matar, fenômeno que não se restringe ao estado, mas reflete uma política de segurança pública militarizada e repressiva em todo o Brasil. Além disso, a perversidade socioeconômica do neoliberalismo, o racismo, o patriarcado, a misoginia e o ódio contra imigrantes e pessoas LGBTQIA+ perpetuam um clima de hostilidade. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é um dos países com as maiores taxas de homicídios do mundo (mesmo caindo 3,4% em 2023!), com cerca de 47 mil assassinatos por ano, sendo que a maioria das vítimas são jovens negros e periféricos. Tais fatos evidenciam que a violência não é um desvio ou aberração, mas sim um mecanismo estrutural de dominação dentro do capitalismo contemporâneo.

Sigmund Freud (1856–1939) elaborou a noção de pulsão de morte, que pode nos ajudar a compreender, em parte, essa barbárie. Segundo ele, há uma força pulsional destrutiva inerente à psique humana que, quando não sublimada por Eros – a pulsão de vida –, pode se manifestar de formas devastadoras, tanto no plano individual quanto no coletivo. A resistência diante do conceito de pulsão de morte, inclusive dentro da própria psicanálise, reside na dificuldade de aceitar que o gozo destrutivo – esse prazer perverso que surge do impulso de autoaniquilação – é parte integrante de nossa condição humana.

Mas por que negamos o mal que habita em nós?

Talvez porque encarar essa sombra terrível e universal significaria assumir uma responsabilidade imensa pela transformação de nossas próprias relações e estruturas sociais. Negar essa realidade da agressividade humana nos permite viver em uma ilusão confortável, mesmo que temporária. A negação do mal em nós também é uma forma de individualizar os problemas, criar bodes expiatórios e alimentar o discurso de que somos todos “civilizados”, enquanto o verdadeiro problema é o outro. Assim, a solução parece simples: basta eliminar o inimigo para sermos felizes. Na verdade, o buraco é muito mais complexo e tem dimensões psicossociais que muitos preferem não ver.

Do ponto de vista marxista, a violência não pode ser compreendida apenas no nível psíquico individual, mas deve ser analisada como parte da dinâmica estrutural do capital. Karl Marx (1818–1883) já alertava sobre a violência como motor da acumulação primitiva, e Frantz Fanon (1925–1961) aprofundou essa discussão ao demonstrar como o colonialismo naturalizou a brutalidade como ferramenta de controle. Mais recentemente, Achille Mbembe descreve a necropolítica, ou seja, a forma como os Estados modernos e o capitalismo neoliberal decidem quem deve viver e quem pode ser descartado, as vidas que são enlutáveis e as dispensáveis (como nos alerta Judith Butler), transformando certas populações em vidas matáveis. O genocídio da juventude negra no Brasil e o extermínio palestino são expressões contemporâneas desse mecanismo.

E como Eros pode nos ajudar a sair desse ciclo?

Eros representa a força criadora, o impulso de socialização, de amor e de construção de vínculos que se contrapõe à pulsão de morte e à desagregação, manifestadas em uma sociedade líquida e marcada pelo cansaço, como diria Byung-Chul Han. A multidão de explorados e oprimidos precisa criar caminhos para transformar a violência pandêmica e a destruição necropolítica em processos de construção, de solidariedade e de forja de vínculos fraternos. Isso não significa acreditar em uma ingênua sociedade perfeita, mas reconhecer que a luta para integrar os opostos – a violência e o amor, a destruição e a criação – é o caminho para uma transformação mais consequente e realista, ampliando o bem-estar para a maioria do povo e não apenas para o 1% mais rico.

No entanto, essa mudança vai na contramão das estruturas socioeconômicas e culturais do capitalismo. Fere a razão neoliberal hegemônica e bloqueia os interesses da hidra financeira global, cujo modelo econômico é baseado no endividamento, na exploração e na degradação ambiental. Segundo Thomas Piketty, a desigualdade global aumentou de forma alarmante nas últimas décadas, com o 1% mais rico controlando cerca de 38% da riqueza mundial. Portanto, não será fácil; haverá resistência e conflitos severos.

Somente a prática do amor e do cuidado, tanto nas relações interpessoais quanto nas estruturas sociais, pode abrir espaço para que a força de Eros contraponha, já no campo micropolítico, a barbárie capitalista. Isso não significa eliminar o mal, a agressividade – algo impossível –, mas canalizá-lo para formas mais conscientes, criativas, prazerosas e construtivas de existência. Em última análise, a tarefa é reconhecer e trabalhar com nossa ambiguidade, transformando a angústia, o pânico diante do mundo cão e a agressividade ativa-reativa em força para a mudança de si mesmo e do mundo.

Somente assim poderemos construir uma outra sociabilidade, onde a democracia, a justiça, a igualdade e a solidariedade sejam os alicerces da convivência coletiva. Sem essa mudança estrutural, continuaremos a mergulhar fundo no que há de mais monstruoso nos escombros da psique humana, expresso em estruturas sociais absolutamente perversas e brutais. E não sei por quanto tempo mais a humanidade poderá resistir sem ser varrida pelas forças vivas da natureza, seja pelo colapso climático, seja pelo aprofundamento da miséria e da violência sistêmica.

Mas quero crer que ainda há tempo para uma virada em direção à pulsão de vida. Eros pode – e deve – ser o guia de um outro mundo possível.

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