
-
Perfil Biográfico.
Aurélio Agostinho (354 d.C. – 430 d.C.) nasceu em 13 de novembro em Tagaste, pequena cidade da Numídia, no norte da África, território atualmente pertencente à Argélia. Sua infância e adolescência transcorreram principalmente em sua cidade natal, no ambiente limitado de um povoado perdido entre as montanhas. “Cometia pequenos furtos na despensa de casa ou na mesa por gulodice ou para dar algo aos seus camaradas”. Sua mãe, Mônica, canonizada santa, teve grande influência na conversão e na formação espiritual do filho: “Passei a ver, de repente, apenas baixeza em minhas vãs esperanças e desejei a imortal sabedoria com indescritível impulso do coração…”, afirma Agostinho na sua obra “Confissões”.
Em sua formação intelectual, Agostinho deixou-se influenciar por várias doutrinas, entre as quais o Maniqueísmo Persa, que afirmava ser o universo dominado por dois grandes princípios opostos, o bem e o mal, mantendo uma incessante luta entre si.
Do Ceticismo ficou a permanente desconfiança no conhecimento sensorial, conhecimento que nos apresenta uma multidão de seres mutáveis, flutuantes e transitórios.
Mais tarde, entrou em contato com o Neoplatonismo, movimento filosófico do período greco-romano, desenvolvido por pensadores inspirados em Platão (428 a.C. – 348 a.C.) e Plotino (204 d.C. – 270 d.C.), sendo marcado por sentimentos religiosos e crenças místicas. Assimilou a concepção de que a “Verdade”, entendida como “conhecimento eterno”, deveria ser buscada intelectualmente no mundo das ideias, mas que as almas achavam-se em contínua relação com a “Verdade”, que já estava presente e unida essencialmente à elas. Sendo a “Verdade” imutável e eterna, Agostinho encontrou no Neoplatonismo elementos para pensar a natureza espiritual e a imortalidade da alma.
-
Como foi seu despertar para a fé.
2.1. A Razão e a Fé.
“Toda filosofia começaria por uma intuição plenamente certa do Mundo Inteligível, que se revela diretamente e em plena evidência ao espírito, independentemente dos sentidos e, por conseguinte, ao abrigo do erro e da dúvida.” Padre François-Joseph Thonnard (1896-1974) – Sacerdote e professor de Filosofia.
Deste modo, Agostinho acredita numa prova direta da existência da “Verdade”, apelando para o testemunho da própria consciência, que atestaria em nós uma intuição do inteligível, em condições tais que o erro seria impossível. Efetivamente a Fé se anteciparia à Razão dado o fato de que as verdades eternas seriam imanentes, contidas em nossas almas ou nossas consciências. Além dos sentidos externos, verificamos em nós um sentido interno, cujo papel seria dirigir nossas ações, Destarte, enquanto nossa razão passa da ignorância à ciência, estando submetida às variações do tempo, as verdades do mundo inteligível seriam imutáveis e eternas, acessadas pela nossa fé.
Uma hipótese considerável é a influência do profeta bíblico Isaías, na passagem “se não crerdes, certamente não subsistireis” (Isaías 7:9), para a formulação do pensamento de Agostinho sobre a necessidade de “crer para compreender”, pois, para ele, a fé iluminaria os caminhos da razão, e que a compreensão nos confirmaria a crença posteriormente. Isso seria justificado pelo fato de que para Agostinho o mundo inteligível habitaria essencialmente nossos espíritos, cabendo a fé nos revelar verdades de forma direta e intuitiva. Posteriormente viria a razão esclarecendo aquilo que a fé já havia antecipado.
Recusando-se a separar a purificação do coração da iluminação da inteligência, Agostinho empenhou-se na retórica, ensinando que a fé, embora não seja racional, é, entretanto, razoável, ou seja, não é contrária à razão. Para ele, somente a luz cultural da razão, transitória, jamais poderia nos levar às bem-aventuranças eternas, sendo, nesse caminho, guiada pela fé.
2.2. A Conversão de Agostinho ao Cristianismo.
Aproximadamente aos 32 anos de idade, Agostinho vivenciou um episódio que marcaria sua vida, atormentado por dúvidas e inquietações quando ele ouve uma voz infantil dizendo: “Toma e lê…” – enquanto estava em um jardim em Milão. Interpretou isso como um sinal divino, abriu a Bíblia aleatoriamente e leu um trecho da Epístola aos Romanos, que exortava os prazeres carnais e a seguir Cristo:
“Vivamos decentemente, como à luz do dia, não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e devassidão, não em desavença e inveja. Ao contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo e não fiquem pensando em como satisfazer os desejos da carne.” (Romanos 13:13-14).
Agostinho buscou então conciliar fé e razão, inspirado tanto pela Bíblia quanto por ideias neoplatônicas. Sua conversão não foi apenas “espiritual”, mas também intelectual, levando-o a repensar questões como o livre-arbítrio, o pecado e a Graça Divina, conforme relatado no Livro VIII, capítulo XII de seu livro “Confissões”. No ano 391 foi ordenado sacerdote, em 395/396 foi consagrado bispo de Hipona e, em seguida, assumiu a liderança titular da Diocese, após a morte do Bispo Valério.
-
A importância de Agostinho de Hipona para a codificação espírita.
As concepções de Agostinho de Hipona aparecem nas reflexões da Filosofia Espírita, na qual os elementos de razão e fé são apriorísticos, ou seja, independentes da experiência ou da observação prática. Segundo entendia Immanuel Kant (1724-1804), apareceriam como potencialidades inerentes ao espírito humano. Já as experiências sensíveis, ou encarnatórias, conforme afirmava Herculano Pires (1914-1979), as desenvolveriam e atualizariam, transformando a potência em ato, a semente plantada e cuidada em árvore adulta. Esses elementos já fariam parte de nós, independentemente dos objetos de conhecimento, mas se desenvolvendo à medida que o Espírito evolui.
É assim que o sentimento da existência de Deus pode ser compreendido como uma disposição intuitiva, como na afirmação contida em comentário de Allan Kardec, na questão número seis de “O Livro dos Espíritos”:
“Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse tão somente produto de um ensino, não seria universal e não existiria senão nos que houvessem podido receber esse ensino, conforme se dá com as noções científicas.”
Efetivamente, a fé natural, ou intuitiva, antecede o desenvolvimento da razão no processo evolutivo, consoante com “O Evangelho segundo o Espiritismo”, Capítulo XIX – A fé transporta montanhas, Item 12 – A fé humana e a divina:
“No homem, a fé é o sentimento inato de seus destinos futuros; é a consciência que ele tem das faculdades imensas depositadas em gérmen no seu íntimo, a princípio em estado latente, e que lhe cumpre fazer que desabrochem e cresçam pela ação da sua vontade.”
Não haveria mais motivos para discussões intermináveis entre o valor da fé ou da razão, posto que para a Filosofia Espírita ambas fazem parte da substância do ser, complementando-se, como afirma Kardec no mesmo capítulo, ao final do sétimo item, “Condição da fé inabalável”:
“A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é deste século,18 tanto assim que precisamente o dogma da fé cega é que produz hoje o maior número dos incrédulos, porque ela pretende impor-se, exigindo a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É principalmente contra essa fé que se levanta o incrédulo, e dela é que se pode, com verdade, dizer que não se prescreve. Não admitindo provas, ela deixa no espírito alguma coisa de vago, que dá nascimento à dúvida. A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis por que não se dobra. Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.”
Para Agostinho, a Fé orientava a Razão, era preciso crer para compreender. Caso a razão humana não conseguisse compreender a fé, deveria calar-se, pois com o tempo, a razão naturalmente iria encontrar o sentido e entendimento da fé, entendida como confiança absoluta.
Para o Espiritismo, a fé deve encontrar na razão uma base capaz de sustentá-la, era preciso compreender para crer. A chamada fé raciocinada de Kardec é aquela que passa pelo exame da razão e encontra nos fatos e na lógica os fundamentos para sua aceitação. É também herdeira do espírito iluminista, que valorizava o uso autônomo da razão e se opunha à aceitação cega de dogmas, entendendo as “luzes da razão” como superiores às “trevas da fé cega”.
4. Vocabulário
Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho para os católicos, é conhecido como “Doutor da Graça”. Era cidadão romano, nascido na parte do império que ficava ao norte da África.
Graça, para ele, era a ação gratuita, imerecida e interior de Deus, que cura a natureza humana feita pelo pecado e desperta a vontade para o bem, tornando possível a salvação, sendo importante não somente o exercício da graça, mas também a participação da vontade humana que se volta para o Criador.
No Espiritismo essa concepção de Graça é reinterpretada como a permanente possibilidade de crescimento e evolução espiritual nos aproximando gradualmente de Deus. A natureza humana não é vista como pecaminosa, mas sim como potencialidade de perfeição, conquistada em inúmeras encarnações de aprendizado, trilhando um caminho autônomo de desenvolvimento intelecto-moral até atingir o estágio de Espírito Puro, livre das encarnações perecíveis (conforme “O Livro dos Espíritos”, Questão 113).
Fé e Razão, para Agostinho de Hipona, e para o Espiritismo, andam juntas, entendendo que a presença espiritual da Divindade e do coletivo são fundamentais para a “salvação” ou “evolução espiritual”, pois é uma caminho que não pode ser trilhado sozinho.
Retórica: (grego) arte da oratória, de utilizar a linguagem em um discurso persuasivo, por meio do qual visa-se convencer uma audiência da verdade de algo.
Mundo Inteligível: Considerado o plano superior, de perfeição, baseado na concepção de Platão sobre o “Mundo das Ideias”.
Neoplatonismo: foi uma corrente filosófica e mística de inspiração platônica. Propunha uma visão unitarista e espiritual do Universo, baseada na ideia de que toda realidade deriva de um princípio supremo e transcendente.
Maniqueísmo: é uma filosofia religiosa que divide o Universo e a realidade, de forma absoluta, entre o Bem e o Mal.
Plotino: filósofo do século III, nascido no Egito por volta do ano 204 d.C., reconhecido como o principal fundador do Neoplatonismo.
Imutável: adjetivo para algo que não pode ser mudado, modificado ou alterado. Indica algo que é permanente, constante e invariável.
Iluminismo: foi um movimento cultural, filosófico e intelectual que ocorreu na Europa, principalmente nos séculos XVII e XVIII, e ficou conhecido como o “Século das Luzes”. Os iluministas defendiam a razão acima da fé, o uso do pensamento racional e da ciência para explicar o mundo e guiar o progresso humano.

