A Lei Divina ou Natural na Consciência Humana: Uma Interpretação

Lei Divina e Natural – Caracteres da Lei Natural

No Livro Terceiro de OLE Kardec trata das Leis Morais, conforme o Espiritismo. Na questão 614 é apresentado o conceito de Lei Natural com as características a ela inerentes: ser lei de origem divina; necessária e única para a felicidade do homem; de ser indicativa daquilo que deve ou não fazer e de ser causa de infelicidade o afastamento dela. Forte é a ideia, pacífica para o Espiritismo, de que o estabelecimento de identidade, de origem e de natureza divinas são inerentes às Leis do Universo.

Aqui cabe a nossa primeira indagação: como podemos pensar, hoje, no Espiritismo, essas afirmações?

1° Como podemos interpretar, hoje, esta autoria divina para a Lei Natural que atinge coisas e seres? Superamos há muito tempo a ideia do Deus antropomórfico, punidor, recompensador, interventor. Deus, então, não é a Lei Natural, pois ela expressa a pedagogia divina de garantir o objetivo do equilíbrio, harmonia e renovação constante do Universo por Ele criado. Os mecanismos da Lei Natural estão presentes tanto nos fatores físicos como nos que afetam o desenvolvimento do ser inteligente. Assim, a Lei Natural manifesta a sabedoria divina por mecanismos inerentes às leis naturais para equacionar a presença da inteligência divina no desenvolvimento sequencial dos seres.

Se analisarmos deste modo a atuação divina nas Leis Naturais, concluímos que seu objetivo não é o de julgar e condenar, ou seja, não é moral, mas o de estabelecer diretrizes positivas inerentes a elas, que atuam automaticamente nas diferentes formas de vida criadas e, no caso da vida humana, nos limites e possibilidades do livre-arbítrio.

Voltamos, então, à ideia inicial: para o Espiritismo, as Leis Naturais possuem identidade divina e são chamadas de Naturais, porque regem tudo o que existe e que está sujeito a elas, inscritas que estão no processo evolutivo próprio das diferentes naturezas dos seres criados. Eu aprecio muito essa ideia de diretriz divina” presente nas Leis Naturais, assim compreendida. Leio nela a positividade impressa pelo Criador, que criou Leis Naturais de tal modo que dá ao homem o “livre-arbítrio”, tutelado pelos efeitos intrínsecos à Lei, mas a serem absorvidos pelo homem em seu ritmo de descoberta e de absorção em aprendizagens evolutivas próprias, pelo princípio de Causa e Efeito. É a presença divina que não abandona sua criação, não deixa à deriva do caos, mas que está atuando, amorosamente, através dos mecanismos, sistemas e dispositivos que estão intrinsecamente presentes nas Leis Naturais.

Como o Espiritismo responde à indagação, hoje, de que as Leis Naturais Universais existem na consciência, para garantir o princípio do equilíbrio e harmonia seja no Universo Físico, seja no Universo Moral do indivíduo e sociedade, como expresso na questão 614 de OLE: “…é a única necessarária à felicidade do homem, ela lhe indica o que ele deve ou não fazer e ele só se torna infeliz porque dela de afasta”?

Anteriormente, dissemos que a Lei Natural não é moral, mas dissemos também que ela contém uma “diretriz positiva inserida em seus mecanismos de atuação, na compreensão do Espiritismo. Se aceitamos a ideia de que não é moral, mas com diretrizes, veremos em nossa felicidade, e nela incluído, nossa evolução em busca dessa felicidade um parâmetro próprio da Lei Natural.

Sobre esse ponto, Kardec aprofunda a questão 614 e indaga aos Espíritos: “621 – Onde está escrita a Lei de Deus? – Na consciência”. Fundamental é abandonar a compreensão infantil de que “nascemos sabendo o que podemos ou não fazer” por obra da ação divina.

A ciência positiva, hoje, rejeita a derivação de valores normativos absolutos a partir de meros fatos da natureza, mantendo a distinção entre o que ‘é’ e o que ‘deve ser’. O método científico explica as causas do comportamento, mas não valida qual conduta é intrinsecamente ‘boa’ ou ‘correta’, sem um critério filosófico externo”.

(IA Gemini).

Desta contribuição científica contemporânea, pensar que o bem e o mal estão postos, magicamente, na consciência humana é pensamento místico. Prefiro pensar que, pelas Leis Naturais, há no homem um ecossistema, um ambiente, cenário, uma conjuntura, uma rede, um conjunto de condições próprios de sua natureza humana, que tornarão a ele capacitado para desenvolver e conquistar o conhecimento e ou a prática do bem e do mal, sempre no uso do livre-arbítrio e de suas possibilidades momentâneas.

O Espiritismo nos apresenta, para esta ideia, o Princípio de Causa e Efeito, como o mecanismo educativo da liberdade humana, na vivência das consequências das escolhas feitas. Escolho livremente algo, colho os efeitos da minha escolha, sofro ou sou feliz e, então, minha aprendizagem se inscreve, por meus atos e minha própria experiência, em minha consciência, o bem, o que devo ou que não devo fazer.

Sabemos que o bem e o mal também têm um caráter cultural em cada sociedade. A história humana nos dá exemplos de sua evolução nos diversos grupos humanos. Isso evidencia que são múltiplos fatores a influenciar na aquisição humana de valores identificados com o bem e o mal, Sofremos a influência da realidade onde vivemos, mas também podemos influenciá-la. E, por esse motivo, temos sociedades moralmente menos ou mais desenvolvidas que outras.

O Espiritismo, com o Princípio da Reencarnação, equaciona de modo cristalino que a consciência se desenvolve nas experiências reencarnatórias. Que desenvolver a consciência é possibilidade sempre do indivíduo e também do grupo social em que está inserido. Que a expansão da consciência, na vivência do bem, está ligada ao desenvolvimento da inteligência e da sensibilidade, áreas da razão e dos desejos, respectivamente. Somos nós, os portadores da condição, do ecossistema interno de inteligência e sensibilidade como vontade, que nos permite sermos os protagonistas de “inscrever a Lei de Deus/Natural” em nossa própria consciência. À Inteligência Suprema devemos nosso ecossistema interno, que nos permite crescer, aprender, evoluir e expandir, indefinidamente, nossa consciência. Deus nos deu consciência e as Leis Naturais, mas somos nós que inscrevemos essa lei em nós, tornando-a exclusivamente por ação humana, então, de fato natural na própria consciência. Podemos pensar, para melhor compreender nossa autoria em inscrever as Leis Naturais em nossa consciência, na analogia de uma semente lançada ao solo. O Criador preparou o terreno e deu potência de desenvolvimento e destino de plenitude a ela, mas sempre pela ação de seu portador.

A natureza humana, segundo o Espiritismo, é perfectível. Hoje, por certo, não somos mais a pessoa que fomos aos 15 anos, fácil comprovar. Mas o livre-arbítrio, aliado ao desenvolvimento da inteligência e sensibilidade, é que marcará, ou não o alcance e o ritmo dessa perfectibilidade, que guardará coerência com a construção do bem e o afastamento do mal. Nessa caminhada, não estamos ao léu ou sem rumo, pois as aprendizagens que já inscrevemos em nossa consciência nos servirão de guia. É todo um protagonismo individual no autodesenvolvimento, cujos frutos vão sendo registrados na consciência e de tal modo significativos, porque tornam-se potentes para modificar a prática. Semelhante processo atinge o grupo social que, na vivência do Princípio de Causa e Efeito, colhe consequências grupais que afetam compreensões, que transformam culturas, modificam leis e imprimem, mesmo que lentamente, progresso na compreensão dos direitos humanos e nas políticas públicas.

Deste modo, percebemos que a Lei Natural pode ser vista como um grande plano divino cósmico universal que, amorosamente, sustenta o equilíbrio, a harmonia e o desenvolvimento de todas as formas de vida criadas. A contribuição do conhecimento científico equaciona para nós este entendimento, a saber: pelo estudo da cosmogênese (origem e evolução de toda a realidade cósmica); biogênese (surgimento da vida e as sucessivas transformações das espécies); antropogênese (origem, aparição do homem e desenvolvimento ontogenético e filogenético); psicogênese (início e progressivo desenvolvimento da complexidade psíquica humana até a obtenção da consciência reflexiva); sociogênese (formação e ampliação da vida coletiva os homens dentro do processo civilizatório geral).

A esta contribuição da ciência positiva, a visão filosófica espírita traz-nos a espiritogênese (criação e progresso dos espíritos, cumprindo etapas sucessivas no processo reencarnatório e na vida essencialmente espírita). Ao analisarmos cada uma dessas vertentes de entendimento da atuação da Lei Natural, identificamos uma característica comum: a evolução, mudanças.

Do ponto de vista espírita, evolução é progresso conquistado pelo ser humano, essencialmente pelo movimento intencional e consciente de mudança pessoal, na conjugação da vivência da liberdade com responsabilidade, vivificados pelo critério do bem comum, indicador da crescente maturidade espiritual. Então, dentro desta ampla compreensão das Leis Naturais, percebemos que estamos, como humanidade, sujeitos à sua ação, mas que compete ao ser individual registrar, “inscrever” em sua própria consciência, através de suas aprendizagens, a essência e as exigências dessas leis. É o maravilhoso processo que combina experiências vividas, busca de conhecimento para iluminá-las e, sobre tudo, a reflexão, o autoconhecimento e a vontade firme no sentido de aprimoramento pessoal, que fará acontecer a conquista da desejada expansão da consciência, que permitirá a ampliação da perfectibilidade e o alcance de mais felicidade.

É condição natural humana a possibilidade de enobrecer-se como ser individual, mas que necessita da vida em sociedade para cumprir seu destino de perfectibilidade e felicidade. Inscrever as Leis Naturais na própria consciência é caminho, possibilidade e convite do Espiritismo!

Referências Bibliográficas.

  1. Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, 83a edição, LAKE – Livraria Allan Kardec Editora – São Paulo.

  2. Jaci Regis. Novo Pensar – Deus, Homem e Mundo. 1a edição, ICKS – Instituto Cultural Kardecista de Santos – São Paulo.

Estudo do Perispírito – Conceitos Básicos

  1. Evolução do Conceito de Energia Vital

Fluido Vital: Substância ou “fluido invisível” responsável pelos fenômenos vitais (dos seres animados). É uma transformação do Fluido Cósmico Universal – matéria primitiva criada por Deus.

Princípio Vital: princípio organizador que diferencia seres vivos da matéria inanimada.

Energia Vital: expressão genérica usada para designar a força que sustentaria a vida – reinterpretação contemporânea de tradições antigas da Medicina Alternativa e do Espiritualismo.

Fluido Cósmico Universal – FCU: é a matéria elementar primitiva do cosmos, a substância primordial de onde se originam todas as coisas materiais, densas e sutis, do universo.

  1. Conceitos Principais

1 – Fluido Cósmico Universal (FCU): é a base de toda a criação. Ele preenche todo o espaço e sofre modificações constantes para gerar desde os corpos densos até as energias mais sutis.

2 – Princípio Vital: é a causa ou a força abstrata que anima os corpos orgânicos, dando-lhes a vida biológica (nascimento, crescimento e reprodução). É comum a todos os seres vivos, como plantas, animais e seres humanos.

3 – Fluido Vital: é uma modificação específica do Fluido Cósmico Universal. Ele funciona como o agente material ou “a corrente” que une o Espírito (por meio do Perispírito) ao corpo físico, orgânico. Quando o corpo físico se esgota e não o absorve mais, ocorre a morte física.

4 – O perispírito é um corpo semimaterial que serve de elo entre o Espírito (que é imaterial) e o corpo físico (que é matéria densa). Ele, o perispírito, é constituído/elaborado pelo Espírito a partir das modificações do próprio Fluido Cósmico Universal (FCU) do planeta em que o Espírito se encontra.

5 – A matéria prima do perispírito é retirada pelo Espírito do Fluido Cósmico Universal do mundo em que encarnar. Por isso, a densidade do perispírito muda de acordo com a evolução do Espírito ou com o mundo em que ele habita.

6 – O perispírito atua como uma esponja ou canalizador. É através do perispírito que o Espírito absorve parte do fluido vital para energizar o corpo físico. Estando encarnado, também absorve parte da energia vital necessária presente nos alimentos, nas bebidas e no ar. Em mundos superiores, onde não existe mais necessidade de alimentos densos, é apenas o perispírito que atua, sempre sob o comando do Espírito, cumprindo a tarefa de revitalizar-se de energias sutis existentes ao seu redor, necessárias aos trabalhos que for realizar.

7 – Quando o Espírito deseja agir no mundo físico ele manipula os fluidos ao seu redor através do pensamento. O perispírito transmite esse comando fluídico aos nervos e músculos do corpo material.

8 – Os fluidos do ambiente e as impressões do corpo físico tocam primeiro o perispírito, que então traduz e envia essas impressões e sensações para a mente do Espírito.

9 – Após a morte física o perispírito não se destrói, ele se desprende do corpo biológico e continua a servir como o “corpo” ou a veste do Espírito no mundo espiritual.

10 – Os laços fluídicos que uniam o perispírito ao corpo físico começam a se romper e o fluido vital que restava no corpo dissipa-se e volta à natureza.

11 – Livre da matéria densa (corpo físico) o perispírito assume uma forma que reflete fielmente o estado mental e ético do Espírito. Espíritos mais desapegados materialmente e integrados no bem possuem um perispírito mais sutil, luminoso e leve. Espíritos muito apegados à matéria ou com muita culpa podem apresentar e manter um perispírito denso, pesado e opaco e mesmo obscuro.

12 – No mundo espiritual, o perispírito geralmente mantém a última forma humana para ser reconhecido pelos seus afetos que com ele conviveram, anteriormente. Porém, por ser maleável, o perispírito pode ser modificado em sua forma pela força do pensamento do próprio Espírito. É a capacidade de transformação ou de criação de algo (forma ou cenário) pertencente ao Espírito, chamada de ideoplastia e que ocorre através do perispírito.

13 – O perispírito expressa o histórico evolutivo e as marcas das ações anteriores do Espírito (ler OLE, questões 94 e 187). Isso porque, cada ato, sentimento ou pensamento são como forças reais, que emitem ondas de energia que alteram a estrutura, a cor e a densidade desse corpo semimaterial.

Para Allan Kardec “semimaterial” designava algo situado entre a matéria ponderável, e as formas de matéria ou fluidos então considerados imponderáveis: uma substância extremamente sutil, sem o peso e a densidade da matéria comum, mas ainda dotada de materialidade e, portanto, própria à ação e manipulação pelo Espírito. No Espiritualismo contemporâneo, especialmente em autores como Barbara Ann Brennan, o conceito que mais se aproxima de semimaterial seria o de Campo de Energia, entendido como algo que pode ser individual ou coletivo — abrangendo grupos, comunidades, cidades, países, o planeta e, em uma escala mais ampla, o Campo de Energia Universal, que apresenta certa aproximação com o conceito magnetista de Fluido Cósmico Universal.

Excessos ou o mal praticado pelo Espírito gera desarmonia mental profunda, se ele já tiver consciência disso. Essa culpa ou desequilíbrio atua como uma “toxina espiritual”, criando manchas, lesões ou pontos de retenção de energia densa, paralisada na estrutura do perispírito.

Assim, vemos que o perispírito funciona como reflexo do banco de dados das experiências anteriores, ou seja, moldado diretamente pela força do pensamento e da vontade do Espírito.

14 – Segundo a Doutrina Espírita, o perispírito não se separa do Espírito nem antes nem depois da morte física. Não é possível conceber um sem o outro na prática da vida espiritual. O Espírito precisa sempre do perispírito, porque ele funciona como a ferramenta de ligação necessária para que o Espírito interaja com e sobre qualquer ambiente, físico ou espiritual. Sendo o Espírito uma “centelha divina” puramente imaterial, ele necessita de um envoltório para conseguir agir sobre a matéria. No mundo físico isso obedece ao comando do pensamento do Espírito, que direciona a sua vontade para a ação através do perispírito. No mundo espiritual, Espíritos, moldando os fluidos ao redor, criam casas, roupas, cenários, paisagens, apenas concentrando o pensamento de acordo com sua vontade e capacidade. Em casos de mediunidade de efeitos físicos, Espíritos conseguem mover objetos, produzir sons, condensando fluidos com a ajuda de médiuns.

15 – Importante é ter presente que o perispírito não tem consciência nem memória própria, apenas manifesta, expressa, demonstra a que é inerente ao Espírito. Então, o perispírito é uma ferramenta através da qual o Espírito expressa sua vontade e ações nas realidades do mundo físico e do mundo espiritual. Quem pensa e sente é sempre o Espírito.

Bibliografia

  1. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos.

  2. Allan Kardec, O Livro dos Médiuns.

  3. Allan Kardec, A Gênese.

  4. André Luiz, Espírito. Evolução em Dois Mundos. Psicografia de Chico Xavier.

Centro Cultural Espírita de Porto Alegre
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