O cristofascismo, a sacralização da política e a democracia em perigo

Por Bianca Medran Moreira

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RESUMO

O presente artigo examina o fenômeno do cristofascismo para compreender suas relações com o autoritarismo no contexto dos riscos de erosão democrática. O artigo dialoga com conceitos de verdade, pós-verdade, Anti-intelectualismo e ethos fascista e estabelece um contraponto com a tradição espírita de Allan Kardec, especialmente sua defesa da liberdade de consciência e do livre pensamento.

Palavras-chave: cristofascismo; democracia; religião; autoritarismo; verdade; liberdade de consciência; Espiritismo.

INTRODUÇÃO

A relação entre religião e política constitui um dos temas mais intrigantes para a compreensão da história humana e das frágeis democracias contemporâneas. Este artigo tem por objetivo analisar as relações entre cristofascismo, sacralização da política e erosão democrática, considerando os mecanismos pelos quais determinadas interpretações religiosas podem ser convertidas em instrumentos de legitimação da autoridade, desqualificação da divergência e restrição de direitos. A reflexão aborda, nesse percurso, a construção de inimigos morais, o messianismo político, o anti-intelectualismo e a deterioração dos critérios públicos de produção e validação da verdade.

A análise também estabelece um diálogo com o pensamento de Allan Kardec, em particular com sua defesa da liberdade de consciência, do livre exame e da fé raciocinada. Essa aproximação permite compreender o livre pensamento como dimensão da emancipação intelectual e como elemento relevante para a cultura democrática. Ao articular essas perspectivas, o texto busca contribuir para a compreensão dos riscos representados pela submissão da política a uma verdade única e para a defesa de uma democracia fundada na pluralidade, na dignidade humana e na possibilidade permanente de questionamento do poder.

CRISTOFASCISMO

O termo cristofascimo foi cunhado na década de 70 por Dorothee Solle (para criticar o uso de Deus como ferramenta de dominação e legitimação da violência política durante o nazismo alemão) e ele descreve a fusão entre o fundamentalismo cristão e a política fascista ou proto fascista, que se caracteriza pelo autoritarismo político extremo e pelo controle moral da sociedade. Nessa fusão, ocorre a normalização do Estado de exceção, da violência política e da ideia de que Deus e uma interpretação especifica sobre a bíblia devem orientar o Estado, as leis e todas as regras e costumes de uma sociedade. A fé deixa de ser uma experiência transcendental e vira um projeto de poder.

O Cristofascismo avança a passos largos, desde a década de 70, com a expansão do neopentecostalismo e a chamada teologia de domínio: líderes religiosos deixam de pregar sobre converter as pessoas e passam a pregar sobre a conquista de toda a sociedade para Cristo. A proposta deixa de ser exclusivamente espiritual e passa a ser institucional, política e cultural, pois, além de converter a consciência dos indivíduos, é preciso conquistar as estruturas que organizam toda a vida coletiva. O que significa influenciar as escolas, a política, a mídia, o judiciário, o comportamento sexual, a família e até mesmo a economia. A ideia é dominar o Estado institucionalmente, com a submissão da vida pública a uma interpretação cristã específica da lei bíblica.

O discurso sempre é o mesmo: família tradicional; guerra contra ideologia; combate a um ou vários “inimigos”; defesa dos valores cristãos; “feministas ameaçam a família”; “pessoas lgbts devem ser curadas, desagradam a Deus e são perigosas perto de crianças”; demonização de professores e negação completa à ciência, como se ela fosse apenas uma possibilidade, uma narrativa. Desumanizam a oposição e transformam em inimigos de Deus e do bem, os seus opositores. A construção desse inimigo moral não é acidental. Ela é parte de uma estratégia de mobilização, na qual a diversidade é convertida em ameaça, a discordância em pecado e a oposição em uma força a ser combatida e excluída. A política deixa de ser espaço de convivência entre diferentes e passa a ser apresentada como uma guerra santa entre o bem e o mal, entre os escolhidos e os inimigos da fé e do certo.

O líder surge messianicamente dentro desse contexto, e ele pode flertar com golpe de estado, ser pedófilo, corrupto, mentir ou roubar. Afinal é escolhido de Deus e tem imunidade moral, como no absolutismo, representando o próprio Deus na Terra e desvinculando-se da legalidade. Geralmente é um sujeito patriarcal, agressivo, anti-intelectual, anticiência, punitivista moralista e inimigo das minorias.

Nesse modelo, evidente que a legitimidade do líder não decorre de sua submissão à lei, à ética, a superioridade intelectual ou à responsabilidade pública, mas de uma suposta escolha divina que o colocaria acima do julgamento dos demais. A autoridade deixa de ser responsabilizável e passa a ser sacralizada. A aproximação com o absolutismo não é meramente retórica: ela remete à ideia de um poder cuja legitimidade transcende a vontade dos cidadãos e se apresenta como expressão de uma ordem superior, não sujeita à contestação ordinária.

A ESCALADA DO PROJETO DE PODER

O neopentecostalismo tem uma máquina de comunicação gigantesca de tv, rádio, mídias sociais com verdadeiras milícias digitais, editoras, igrejas e opera enormes centros de produção de conteúdo e identidade política. Consolida-se, assim, em uma verdadeira máquina de guerra moral contra minorias, capaz de disseminar discursos, estabelecer agendas, produzir pertencimento e converter convicções religiosas em mobilização política.

Cristofascismo é, portanto, uma descrição política, não é exagero ou radicalismo e cresce cada dia a passos mais largos no Brasil, com a intenção de transformar uma determinada compreensão religiosa em fundamento central de toda a organização da sociedade, como se uma convicção específica pudesse adquirir validade universal e se sobrepor à pluralidade de consciências que constitui uma democracia nos dias de hoje.

Grande parte dessa construção veio da direita cristã norte-americana, principalmente como reação a qualquer cristianismo ligado à ideia de justiça social. O objetivo era substituir qualquer possibilidade de um cristianismo de emancipação por um cristianismo de culpa e extremamente anticomunista. Em vez de uma fé comprometida com a transformação das estruturas de opressão, consolida-se uma religiosidade voltada à preservação de hierarquias, à disciplina moral e à identificação de inimigos ideológicos. Ocorre a utilização da religião para legitimar um projeto de poder que pretende subordinar a liberdade individual, a pluralidade democrática e os direitos fundamentais a uma interpretação religiosa. O moralismo conservador aqui está combinado com interesses econômicos de frações burguesas e não se está diante de uma simples disputa religiosa, mas de uma verdadeira ameaça à democracia, à liberdade de consciência e ao próprio pensamento humano. Quando uma interpretação religiosa reivindica autoridade absoluta sobre a legislação, a política se converte em cruzada moral, e a oposição passa a ser tratada como inimiga da própria sociedade.

A diversidade deixa de ser reconhecida como expressão legítima da liberdade humana e passa a ser interpretada como degeneração moral, ameaça espiritual ou conspiração contra o bem. A pluralidade, elemento constitutivo de qualquer democracia mesmo frágil, é atacada, e o diferente deixa de ser alguém com quem se pode dialogar e passa a ser alguém que deve ser combatido, silenciado, corrigido ou excluído. A democracia pressupõe que nenhuma pessoa, instituição, partido ou autoridade religiosa detenha o monopólio da verdade política. Seu fundamento é justamente o reconhecimento de que cidadãos livres, iguais em dignidade e portadores de diferentes convicções podem construir normas comuns e respeitar os direitos fundamentais. O cristofascismo ameaça precisamente essa premissa: pretende substituir o pluralismo.

DEMOCRACIA EM PERIGO

A democracia não se sustenta apenas pela existência de eleições, mas pela preservação das condições que a tornam possível. São elas: o pluralismo, a igualdade, a autonomia da consciência, a liberdade científica, os direitos fundamentais, especialmente das minorias, a separação entre poderes e entre religião e Estado e possibilidade permanente de contestação do poder, além de se chegar nele, respeitando-se alguns requisitos. O poder político deve ser legitimado por procedimentos públicos, direitos fundamentais e participação cidadã, não pela pretensão de representar uma vontade.

A renúncia ao pensamento crítico e a transformação da autoridade espiritual em poder político incontestável ameaçam de morte a democracia que exige que nenhuma autoridade humana seja considerada sagrada a ponto de escapar à crítica, à lei e à responsabilidade, para existir.

E não é necessário abolir formalmente as eleições para se esvaziar uma democracia. É possível conservar instituições, discursos eleitorais e até mesmo procedimentos constitucionais enquanto se deterioram, progressivamente, as condições que tornam a democracia efetiva. A erosão democrática pode ocorrer por dentro, mediante a deslegitimação das instituições de controle, a perseguição simbólica de adversários e a construção de uma sociedade na qual apenas determinados grupos sejam reconhecidos como cidadãos moralmente legítimos. O primeiro mecanismo de erosão democrática é a destruição da legitimidade do outro.

Em uma democracia, o adversário político não precisa ser considerado correto, virtuoso ou moralmente admirável para ter direito à existência política. Sua legitimidade decorre simplesmente de sua condição de cidadão e das regras constitucionais que asseguram a pluralidade. O cristofascismo rompe essa lógica ao estabelecer uma divisão entre os que supostamente representam Deus, a família e a nação e aqueles que são apresentados como inimigos desses valores. A consequência é profunda: deixa-se de disputar ideias e passa-se a combater pessoas. A oposição é desumanizada, a crítica é demonizada e a violência pode ser reinterpretada como uma forma de defesa da fé. Quando o adversário deixa de ser reconhecido como interlocutor legítimo, a própria possibilidade de alternância democrática fica comprometida.

O Estado laico não é um Estado antirreligioso, mas justamente a estrutura que permite a coexistência de diferentes religiões, filosofias e convicções, sem que uma delas adquira poder coercitivo sobre todas as demais. A ameaça aparece quando uma interpretação bíblica pretende determinar o conteúdo das leis, das políticas públicas e dos direitos civis. E, nesse modelo, a cidadania de muitos corre risco. Pessoas que não professam a fé dominante, mulheres que reivindicam autonomia e pessoas LGBTQIA+ podem ter seus direitos submetidos a uma moral religiosa da qual não compartilham. A democracia passa, então, a conviver com uma contradição: utiliza-se a liberdade democrática para conquistar o poder e, posteriormente, restringir a liberdade daqueles que não compartilham o projeto dominante. É a invertida do paradoxo da tolerância.

A democracia depende de cidadãos capazes de questionar, investigar, comparar informações e revisar suas próprias convicções. Depende do pensamento crítico, da pluralidade e da liberdade de consciência. Por isso, o cristofascismo e o anti-intelectualismo representam ameaças estruturais. Quando professores são apresentados como inimigos da família, universidades como centros de corrupção moral, pesquisas científicas como conspirações e o pensamento crítico como ameaça à fé, não estamos diante de uma simples divergência pedagógica ou religiosa. Estamos diante de uma disputa sobre quem tem autoridade para produzir conhecimento e interpretar a realidade. A ciência opera pela investigação, pela evidência, pela possibilidade de refutação e pela revisão de conclusões. O autoritarismo religioso entra em conflito com esses princípios. Uma sociedade que perde a capacidade de questionar autoridades torna-se vulnerável à manipulação política.

A democracia é um pacto jurídico-político que assegura a convivência entre diferentes concepções de vida, é um dos mecanismos de proteção da sociedade contra o arbítrio. Nela, a proteção dos direitos fundamentais de todos não depende da aprovação moral de alguns. O cristofascismo ameaça esses princípios. Nesse cenário, decisões judiciais contrárias ao líder podem ser descritas como ataques à fé; e controles institucionais, como sabotagem de um projeto divino. A consequência é a construção de uma autoridade que reivindica legitimidade transcendente para escapar à responsabilização democrática.

Um dos aspectos mais preocupantes é a possibilidade de se transformar a violência política em instrumento moralmente justificável. Quando determinados grupos são descritos como ameaças à família, à infância, à religião ou à própria existência da nação, cria-se um ambiente no qual medidas excepcionais podem ser apresentadas como necessárias A lógica é conhecida: se o inimigo é considerado absoluto, qualquer mecanismo de contenção parece insuficiente. A violência deixa de ser percebida como violação de direitos e passa a ser representada como defesa legítima de uma ordem superior. É assim que o estado de exceção pode ser normalizado: direitos são tratados como obstáculos, garantias constitucionais como privilégios e a força como instrumento de restauração moral.

O controle sobre os corpos e a vida privada é outra dimensão central desse tipo de projeto. Quando o discurso político transforma a família tradicional em modelo obrigatório de organização social, a autonomia das mulheres e a existência de diferentes configurações familiares passam a ser tratadas como problemas a serem corrigidos, curados. O feminismo é apresentado como ameaça. A diversidade sexual é convertida em inimigo moral. A educação sexual e sobre direitos e diferenças é confundida deliberadamente com uma suposta ameaça às crianças.

Isso não é apenas conservadorismo moral. A questão democrática surge quando convicções particulares são utilizadas para retirar direitos, restringir a cidadania ou legitimar discriminações. A democracia não pode depender da aprovação moral de uma maioria religiosa para reconhecer a dignidade de uma minoria. Direitos fundamentais existem justamente para impedir que a maioria transforme sua preferência moral em instrumento de opressão. Esse é justamente o caráter contramajoritário dos direitos fundamentais. A democracia não é apenas o direito da maioria de governar. É também o direito das minorias de existir, discordar, participar e preservar sua dignidade. A vontade da maioria não é autorização para eliminar direitos fundamentais de minorias

A liberdade humana não consiste apenas em poder escolher entre alternativas, mas em conservar a capacidade de pensar, questionar e responder racionalmente pelas próprias escolhas. A tutela racional exige que nenhuma afirmação seja protegida da investigação apenas porque foi pronunciada por uma autoridade religiosa, política ou moral. Uma sociedade democrática não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que ninguém seja privado da liberdade de pensar por si mesmo.

É justamente por isso que a instrumentalização de Deus como fundamento de poder político representa uma ameaça tão profunda: ela pode transformar a dúvida em pecado e a liberdade de consciência em insubordinação. A democracia depende da possibilidade de discordar inclusive das autoridades que se apresentam como moralmente superiores. A democracia não morre apenas quando se fecham as instituições, mas quando se fecha a consciência. Seu perigo está na erosão progressiva dos fundamentos que tornam a tornam possível: pluralismo, autonomia, igualdade, ciência, pensamento crítico, laicidade, direitos fundamentais e responsabilização dos que exercem o poder. Quando uma pessoa deixa de exercer sua razão porque acredita que pensar é desobedecer a Deus, ela não está apenas entregando sua autonomia a uma autoridade religiosa. Está também abrindo mão de uma das condições fundamentais da própria democracia.

TUTELA RACIONAL E O LIVRE PENSAR ESPÍTIRA

A ameaça autoritária do cristofascismo pode ser compreendida, em sua dimensão mais profunda, como uma tentativa de captura da consciência e o pensamento humano. Antes de pretender controlar instituições, leis, escolas, comportamentos e estruturas políticas, todo projeto de dominação necessita estabelecer uma relação profunda de subordinação do indivíduo. A liberdade de consciência, nesse sentido, não é apenas uma garantia jurídica de professar ou não uma religião. É uma condição essencial da autonomia humana. Significa reconhecer que nenhuma autoridade exterior pode reivindicar o domínio absoluto sobre a interioridade, as convicções e o pensamento de outro indivíduo.

Na Revista Espírita, especialmente nos artigos “O Espiritismo independente”, de abril de 1866, e “Livre pensamento e livre consciência”, de fevereiro de 1867, Kardec defende a liberdade de consciência, o livre exame e a fé raciocinada. O livre pensamento não é apresentado como simples ausência de crenças, mas como exercício autônomo da faculdade de pensar, associado à emancipação intelectual e à independência moral.

A razão, nessa perspectiva, não representa uma ameaça à espiritualidade. É instrumento para que a espiritualidade não se converta em submissão cega. É justamente nessa dimensão que o diálogo com Allan Kardec se torna particularmente relevante. Em O Livro dos Espíritos, questões 833 a 842, Kardec aborda a liberdade de pensar, a liberdade de consciência e os limites da intervenção de uma pessoa sobre a consciência de outra. Na questão 835, a resposta é expressa: “A consciência é um pensamento íntimo que pertence ao homem, como todos os outros pensamentos.”

A afirmação possui implicações que ultrapassam o campo religioso. Se a consciência pertence ao indivíduo, nenhuma instituição pode legitimamente reivindicar sua propriedade. Nenhum líder religioso, governante, partido ou organização pode transformar sua interpretação particular da verdade em obrigação universal imposta a todos. A liberdade de consciência é, portanto, incompatível com qualquer projeto de dominação que pretenda submeter a interioridade humana a uma autoridade incontestável externa.

O cristofascismo, quando transforma a fé em instrumento de poder e pretende subordinar a vida pública a uma interpretação religiosa obrigatória, entra em tensão direta com esse princípio.

“Em sua concepção mais larga, o livre pensamento significa livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada. Ele simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, c0omplemento da independência física.”

A importância desse texto está em não reduzir a liberdade de pensamento à oposição entre religião e ateísmo. Kardec sustenta que o livre-pensamento não consiste em determinar previamente aquilo em que alguém deve acreditar, mas em preservar a liberdade de examinar as próprias convicções. Essa formulação é fundamental para o diálogo com o cristofascismo porque desloca o problema da existência da fé para a relação que o indivíduo estabelece com ela. O que compromete a liberdade é a fé que renuncia ao exame, que se declara imune à dúvida. Assim, a crítica ao cristofascismo não precisa assumir a forma de uma negação da espiritualidade e nem mesmo ao cristianismo. Pode ser formulada como uma defesa radical da liberdade de consciência contra toda forma de submissão intelectual, de religiosos ou não.

A tutela racional é, nessa perspectiva, uma proteção contra a captura da consciência. Não se trata de substituir a autoridade religiosa pela autoridade absoluta da ciência, nem de instituir uma nova ortodoxia racionalista ateia ou até mesmo espírita. Trata-se de reconhecer que nenhuma afirmação deve adquirir validade apenas pela posição hierárquica de quem a pronúncia. A razão deve permanecer livre inclusive para examinar seus próprios limites, rever conclusões e reconhecer aquilo que ainda não sabe. É justamente essa atitude que distingue a racionalidade emancipadora do dogmatismo.

A liberdade de pensamento e de consciência não é um elemento periférico do pensamento espírita, mas uma dimensão constitutiva de sua proposta filosófica. A necessidade de submeter o próprio pensamento espírita ao exercício da crítica, defendendo a possibilidade de uma elaboração espírita progressiva e aberta à revisão. Claro que a liberdade de pensamento precisa valer também para o exame crítico de Kardec, das instituições espíritas, de suas lideranças e das interpretações historicamente construídas em torno de sua obra. Respeitar uma tradição não significa abdicar da própria razão diante dela. E essa é uma das condições fundamentais de qualquer cultura democrática. A emancipação humana exige que nenhuma autoridade encarnada ou desencarnada detenha o monopólio do pensamento.

É nesse sentido que a defesa da racionalidade constitui uma questão democrática e não apenas filosófica. A democracia precisa de sujeitos capazes de avaliar discursos, reconhecer manipulações, questionar autoridades e participar conscientemente da construção das normas coletivas. A emancipação intelectual não garante, por si só, a democracia, mas sua supressão certamente compromete uma de suas condições fundamentais e fundantes. A deterioração dos critérios de verificação e a hostilidade ao pensamento crítico e à ciência não são apenas problemas epistemológicos: podem constituir condições culturais favoráveis ao autoritarismo. A razão ocupa um lugar central na história da emancipação humana porque permite ao indivíduo examinar aquilo que recebe como verdade, confrontar argumentos, identificar contradições e rever suas próprias convicções.

A racionalidade deve ser aplicada também às ideologias políticas, às tradições culturais, às teorias filosóficas e às próprias instituições que reivindicam autoridade intelectual. O livre pensamento não significa aceitar todas as ideias como equivalentes, mas preservar a possibilidade de avaliá-las segundo critérios de coerência, evidência e argumentação. É precisamente essa capacidade que permite ao indivíduo não ser conduzido exclusivamente por medo, ressentimento, pertencimento ou obediência. A racionalidade não elimina a dimensão afetiva da experiência humana. Permite, entretanto, que emoções e convicções sejam compreendidas e examinadas, em vez de se converterem automaticamente em critérios absolutos de julgamento e ação.

A crise contemporânea da verdade não pode ser compreendida apenas como proliferação de notícias falsas. Seu aspecto mais profundo está na deterioração da disposição coletiva para investigar, verificar e revisar afirmações. A pós-verdade não significa simplesmente que as pessoas possuem opiniões diferentes. O problema surge quando a evidência deixa de ter relevância diante da identificação emocional com uma narrativa. A afirmação passa a ser aceita não porque foi demonstrada, mas porque confirma aquilo que o grupo deseja acreditar.

A universidade, a ciência, a imprensa e as instituições de conhecimento podem ser desqualificadas quando seus resultados contrariam determinadas convicções. Essa dinâmica é particularmente perigosa quando associada ao fundamentalismo religioso, pois a convicção espiritual pode ser utilizada para proteger afirmações políticas e empíricas contra qualquer exame.

A racionalidade democrática exige que afirmações possam ser confrontadas, que argumentos sejam avaliados e que decisões permaneçam abertas à revisão. Sem isso, o espaço público deixa de ser lugar de deliberação e se transforma em disputa entre convicções imunes à crítica. A defesa da razão não significa atribuir infalibilidade à ciência ou a qualquer instituição, mas sim preservar os procedimentos que permitem identificar erros, corrigir interpretações e ampliar o conhecimento. A democracia depende de instituições, leis e procedimentos, mas também de uma cultura de racionalidade pública. A razão crítica funciona, nesse cenário, como instrumento de proteção da liberdade. Ela permite questionar o exercício do poder, avaliar políticas públicas, distinguir argumentos de propaganda e reconhecer que a legitimidade de uma decisão não depende apenas da convicção de quem a defende.

O cristofascismo revela uma das tensões mais importantes da vida contemporânea: a possibilidade de que a religião, em vez de inspirar a emancipação da consciência, seja instrumentalizada para captura do estado democrático do direito.

É por isso que a contribuição de Allan Kardec é tão relevante. Nele a liberdade de consciência e o livre pensamento aparecem como princípios que não dependem da adesão a uma crença específica. A fé raciocinada, o livre exame e a independência intelectual constituem caminhos para que o indivíduo participe ativamente da formação de suas convicções. A razão em Kardec não precisa destruir a espiritualidade. Pode libertá-la do medo, da imposição e do dogmatismo. O livre pensamento não exige que abandonemos nossas convicções, mas que não renunciemos jamais à capacidade de examiná-las.

A democracia, por sua vez, não exige unanimidade. Exige que a pluralidade seja preservada. E, se o cristofascismo ameaça a democracia ao converter a fé em instrumento de obediência, o livre pensamento oferece uma resposta que não é contra a espiritualidade, mas a favor da emancipação humana.

COMO PROTEGER DEMOCRACIAS

O enfrentamento do cristofascismo não deve ser confundido evidentemente com o combate à religião, mas com a resistência à transformação da religião em instrumento de dominação política, supressão de direitos e imposição de uma verdade única. Promover o letramento midiático e a análise de discurso. Ensinar jovens a identificar os gatilhos emocionais em discursos políticos, separando dogmas espirituais de táticas de manipulação eleitoral e desinformação.

O cristofascismo tenta reescrever a história nacional sob o mito da “Nação Cristã”, apagando minorias religiosas e a herança multicultural brasileira. É preciso introduzir o conceito de Laicidade Colaborativa ou de Neutralidade Estatal Positiva. O Estado laico não é a ausência de religião no espaço público, mas a garantia jurídica de que nenhuma denominação religiosa terá o monopólio da violência legítima ou da criação de leis. No campo pedagógico, é preciso trabalhar a história das religiões comparadas e os direitos humanos. Demonstrar historicamente que sempre que uma religião dominou o aparato estatal (seja o catolicismo na Inquisição ou o calvinismo em Genebra), o povo foi esmagado.

Mas não se combate o extremismo religioso apenas com o secularismo iluminista, a história e o Direito. O totalitarismo surge também quando as massas procuram fugir da realidade em busca do conforto da ficção. Para indivíduos inseridos em comunidades de fé, os argumentos puramente laicos muitas vezes soam como “ataques do mundo exterior”. A disputa precisa ocorrer também no campo da hermenêutica bíblica. Contrapor a “Teologia do Domínio” (que prega a submissão da sociedade à igreja) com a Teologia da Alteridade e da Justiça Social. Ensinar a contextualização histórica e histórico-crítica dos textos sagrados. Demonstrar como a mensagem central de toda religião foca na ortopráxis (a prática da justiça, do acolhimento ao vulnerável e do amor social) em oposição à ortodoxia cega utilizada como ferramenta de exclusão de minorias de gênero, raça ou orientação sexual e de regimes totalitários e fundamentalistas.

Importante salientar também que o fascismo e o extremismo religioso crescem onde o Estado falha em prover dignidade e pertencimento. Muitas vezes, as igrejas radicalizadas preenchem vazios psicossociais e materiais de populações vulnerabilizadas. Daí a importância das políticas públicas e dos direitos sociais garantidos pela cidadania e não pela caridade seletiva ou pelo clientelismo religioso. Incentivar a participação de jovens e lideranças em espaços civis plurais (conselhos de bairro, coletivos culturais, sindicatos, ONGs) também é fundamental.

Combater o cristofascismo e enaltecer à racionalidade significa defender a democracia como projeto civilizatório comprometido com a dignidade humana, a igualdade, a liberdade, o reconhecimento da diversidade e a garantia dos direitos fundamentais.

REFERÊNCIAS

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SÖLLE, Dorothee. Beyond mere obedience: reflections on a Christian ethic for the future. [S. l.]: [s. n.], 1970.

1 Advogada, Mestre em Direito, pela FMP, Especialista em Direito Constitucional e graduada pela PUC-RS, Conselheira da OAB-RS e do ECK.

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