1. Espiritismo e Cidadania
Bem-vindos ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, o nosso CCEPA, realizando uma de suas missões fundamentais, construindo um espaço plural para a reunião de livres-pensadores, comprometidos com a progressividade do Espiritismo, buscando desenvolver teorias e práticas que respondam efetivamente aos desafios dos tempos atuais.
Quando pensamos na jornada evolutiva do espírito, na percepção espírita, estamos considerando o caminho das reencarnações, cada uma com objetivos próprios a serem alcançados, com determinados aprendizados que precisamos integrar ao nosso ser antes de conseguirmos avançar.
Gosto muito da metáfora utilizada por Salomão Benchaya nos grupos de estudo do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, onde didaticamente ele compara o processo com um plano de viagem. Imaginem nós, na erraticidade, ou seja, entre duas encarnações segundo o vocabulário kardecista, nos preparando para uma estadia no plano mais denso, uma viagem de aproximadamente cem anos, talvez um pouquinho menos ou mais, de todo modo, nessa faixa aproximada de tempo. A bagagem que vamos levar conta, por um lado, com nossas experiências através do tempo, nossos aprendizados já realizados e, por outro lado, também com um conjunto considerável de pessoas queridas. Algumas delas no plano espiritual, quem sabe atuando como nossos guias, mentores ou bons amigos da espiritualidade, inspirando nossos pensamentos na direção que precisamos seguir, mas sem impor nada, apenas nos aconselhando, cientes de que as escolhas são sempre nossas. Outras já encarnadas, ou em vias disso, prontas para dividir conosco a experiência neste aqui e agora.
Não entendemos esse processo como originário de um determinismo puro, no sentido literal da palavra, de algo semelhante ao que muitos chamam de destino, mas, usando a metáfora do plano de viagem, percebemos a reencarnação como um conjunto de eventos planejados, que esperamos encontrar ou realizar em certos pontos da nossa passagem pela Terra. Alguns vamos conseguir fazer, talvez até a maioria, mas outros precisarão de uma nova viagem no futuro e tudo bem.
Um ponto de relativo consenso entre as diversas linhas de pensamento espiritualista e reencarnacionistas é que alguns fatos, acontecimentos e situações que se repetem, atuam como fortes indicadores de lições que precisam ser aprendidas, pedras no caminho, obstáculos que precisamos entender como superar para, então, avançarmos.
Consideramos que existem aprendizados individuais e coletivos. A própria história humana nos demonstra situações que se repetem aqui e ali na construção das nossas sociedades. Com essa pequena introdução, volto nosso pensamento para o dia 25 de março de 1852, quando logo após um golpe de Estado que dissolveu a assembleia legislativa, alterou leis e instaurou uma forte censura estatal, Napoleão III reprimiu toda e qualquer forma de oposição, estabelecendo rigorosos mecanismos de controle para as reuniões civis, impedidas de debater livremente qualquer tema político. Essa censura violenta, na França, permaneceu inalterada até 1868, quando começou a perder fôlego até terminar em 1870, com o final do Segundo Império Francês.
Os interessados na história espírita já devem ter percebido que o intervalo de tempo mencionado engloba o período em que Hippolyte Léon Denizard Rivail, assinando como Allan Kardec, produziu seus trabalhos no que entendemos como “Período da Codificação”, ou de fundação e construção da teoria espírita.
Então, quando muitos espíritas contemporâneos utilizam o estatuto da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas para exigir que nenhum tema político seja tratado em nossas instituições, por ser, na concepção deles, “uma orientação do codificador”, esquecem, ou não sabem, que essa limitação era uma exigência legal da época, que as primeiras reuniões espíritas não poderiam acontecer sem a autorização da polícia francesa de Napoleão III, que não poderiam tratar de temas políticos pelo risco de terem seus dirigentes presos e a associação dissolvida.
Tempos difíceis aqueles! Será que eram tão diferentes dos nossos?
Essa é uma das reflexões que os trabalhos apresentados no “IX Fórum do Livre-Pensar Espírita” despertarão, tratando de temas como cidadania, sustentabilidade, inclusão e democracia, entre outros.
Desejamos a todos um ótimo evento, repleto de trocas e confraternização entre amigos em sintonia de pensamentos, todos na busca por uma sociedade mais justa.
2. O Centro Espírita inserido na Comunidade
Vemos, surpresos, que na chamada “era da informação”, grande parte da população ainda segue seu dia a dia numa realidade de alienação. O próprio termo “político”, de origem grega, que vem de coisas da “pólis”, da cidade, do coletivo, tomou uma concepção praticamente pejorativa.
Ora, quando pensamos em coletivo, podemos estar falando apenas de um grupo familiar, por exemplo. Quem de nós, que vive com familiares, não possui regras da casa para utilização de espaços coletivos como sala, banheiro ou cozinha? Mesmo em nossas instituições temos regras, em estatutos e regimentos, orientando e guiando nossa ação coletiva.
É preciso entender que todas as nossas ações ou inações da porta para fora de nossas casas, ou Centros Espíritas, terão efeitos coletivos na comunidade onde estamos inseridos, na vida de nossos vizinhos, na saúde de nossos bairros e cidades, ou seja, terão consequências políticas.
Pensando na ideia de um Espiritismo humanista, plural e progressista, a cidadania surge como exercício da autonomia plena, ou seja, da liberdade consciente e responsável do indivíduo junto à sociedade. Nesse contexto, o Centro Espírita deve ser entendido como espaço de espiritualidade e acolhimento, mas também de cultura, educação, diálogo e promoção do desenvolvimento humano pleno.
A noção de progresso espiritual espírita possui uma marcante dimensão individual, baseada nas escolhas de cada pessoa em relação à sua própria jornada de aprendizagem nas inúmeras encarnações. Contudo, em determinado momento, a própria ampliação das percepções encontra a dimensão coletiva, compartilhada, na construção da realidade social onde nos encontramos.
Penso que primeiro aprendemos como amar e respeitar a nós mesmos, para então despertar esses sentimentos por todos aqueles que nos acompanham, nossos companheiros na jornada épica do Espírito. No aqui e agora onde nos manifestamos, encarnados nas diversas sociedades do plano físico, a cidadania representa a dimensão social de nossa responsabilidade moral como espíritas.
O Espiritismo não nos convida apenas a compreender o mundo, mas também a assumir nossa parcela de responsabilidade, individual e coletiva, por aquilo que fazemos dele. Nossas instituições espíritas, consideradas como parte atuante no processo de regeneração social, não podem ser apenas reprodutoras de belas teorias que não se realizam na prática diária, mas também voltar seu olhar para a Comunidade onde se encontram, para o que as pessoas buscam ao baterem em nossas portas, para suas diferentes necessidades espirituais, psicoemocionais, familiares e sociais.
O Centro Espírita:
… precisa fazer parte da vida da comunidade onde está inserido.
… não apenas recebe pessoas, ele também vai ao encontro delas.
… precisa produzir respostas para os desafios do seu tempo.
… cumpre sua função social ao ampliar horizontes e transformar vidas.
(*) Nascido em Porto Alegre/RS, Joaquim Roberto de Souza Neto – Beto Souza é bacharel em Teologia e licenciado em Filosofia pela Universidade Estácio de Sá – UNESA; mestre reikiano da linhagem Usui Tibetana; possui formação como massoterapeuta pelo Instituto Inanís; atua profissionalmente como terapeuta integrativo e está atualmente na posição de presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA.
