Espiritismo e racismo: questões para os tempos atuais

Artigos
Por Jacira Jacinto da Silva e Mauro de Mesquita Spinola 7

IX FLPE Fórum do Livre-Pensar Espírita (Porto Alegre, outubro de 2026)
Jacira Jacinto da Silva1 e Mauro de Mesquita Spinola2

Introdução

A CEPA (Associação Espírita Internacional)3 e o CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita)4 desenvolvem o projeto editorial Coleção Livre-Pensar: Espiritismo para o século XXI. Compõe-se livros digitais de livre acesso voltados para a difusão do espiritismo livre-pensador. Há autores da América Latina e da Europa. A Série 1, composta por oito títulos em quatro idiomas cada, trata dos fundamentos do espiritismo, revisitados com o desenvolvimento da ciência e da cultura. Está disponível nos portais da CEPA e do CPDoc.

A Série 2 está em desenvolvimento e seus volumes estão sendo lançados paulatinamente. Tem foco em espiritismo e sociedade, discutindo a visão espírita sobre gênero, sexualidades, mulher, humanismo, fundamentalismo, política e vários outros temas do mundo moderno.

Um dos volumes da Série 2 tratará sobre espiritismo e racismo. Visando a debater essa questão com estudiosos do assunto, o CPDoc decidiu realizar o Seminário Espiritismo e Racismo. A programação do Seminário conta com a participação de pesquisadores e estudiosos do tema.

Como motivação para esse evento, foram elaboradas algumas questões e levadas ao IX FLPE, em Porto Alegre, realizado algumas semanas antes do Seminário programado. Os participantes do IX FLPE foram convidados a participar de uma enquete com essas questões. Foi feito assim um levantamento de opiniões e percepções sobre alguns aspectos relevantes do tema. Este relatório apresenta as questões propostas e os resultados obtidos. Discute ao final os desdobramentos da discussão realizada.

 

1. Espiritismo e racismo: três temas para debate

Para propor as questões da enquete, foram considerados três temas relacionados a espiritismo e racismo. São os próprios temas do Seminário do CPDoc:

  1. O racismo na sociedade e no cotidiano. Estudos recentes mostram que há base analítica, sociológica e histórica para compreendermos a emergência e a reprodução do racismo em diferentes níveis e contextos.
  2. O espiritismo, a história e as religiões no Brasil. Pesquisas sobre a obra de Allan Kardec denotam que houve assimilação das teorias raciais oitocentistas nos escritos de Kardec, permeadas com a visão igualitária e humanista do espiritismo. No Brasil, por outro lado, estudos sobre o espiritismo e as religiões mediúnicas identificam o racismo com elemento chave do cenário socio-histórico brasileiro.
  3. O espiritismo e o combate ao racismo no século 21. Com base na filosofia espírita e nos avanços científicos e culturais da sociedade, é possível discutir balizes éticos, teóricos e práticos para a construção de um espiritismo antirracista voltado aos desafios do século 21, com base nos princípios ético-doutrinários igualitários, o compromisso de atualização científica e os caminhos práticos.

 

2. Questões propostas e resultados

A enquete foi respondida por 33 participantes do IX FLPE. Seguem as questões propostas e os resultados.

Questões propostas

Resultados

Bloco 1: O racismo na sociedade e no cotidiano

1) Qual é a melhor estratégia para superar as desigualdades de renda e oportunidade entre brancos, negros e indígenas no Brasil?

A) Focar prioritariamente em investimentos universais na escola pública e na melhoria da renda para todos, pois focar em raça pode acentuar as divisões sociais.

B) Combinar investimentos universais com políticas específicas de ação afirmativa (como cotas raciais), para reparar diretamente as desvantagens históricas acumuladas.

C) Apostar no crescimento econômico do país e na meritocracia, uma vez que o esforço individual é o fator determinante para o sucesso.

2) Na sua opinião, por que ainda existem grandes diferenças de renda e de escolaridade entre pessoas negras, indígenas e brancas no Brasil?

A) Por conta da herança da escravidão e da falta de oportunidades acumuladas ao longo de gerações.

B) Por falta de esforço individual e de dedicação aos estudos.

C) Não existe uma diferença relevante motivada por cor de pele, etnia ou raça.

Bloco 2: O espiritismo, a história e as religiões no Brasil

3) Ao analisar os textos em que Allan Kardec trata das diferenças entre as raças (como “Perfectibilidade da raça negra”, de 1862), qual interpretação reflete melhor esses escritos?

A) Kardec apenas usou os termos científicos da época para se comunicar com os pensadores do século XIX, sem que haja qualquer viés racial em suas ideias.

B) Kardec contrapôs a escravidão e defendeu a igualdade moral, mas assimilou teorias do racismo científico da época (frenologia e evolucionismo), gerando ambiguidades na obra.

C) Os textos contêm verdades espirituais atemporais e não devem ser analisados ou questionados por critérios humanos modernos.

4) Ao longo da história do espiritismo e da umbanda no Brasil, como você percebe a relação entre as diferentes práticas mediúnicas?

A) Houve e ainda há preconceito na sociedade e no meio espírita. Costuma-se valorizar espíritos de médicos ou filósofos e olhar com desconfiança para entidades de origem africana ou indígena.

B) Há preconceito na sociedade, mas o meio espírita e mediúnico brasileiro é um espaço livre de preconceito de cor ou de origem.

C) Esse tipo de preconceito existiu no passado, mas hoje já está totalmente superado.

Bloco 3: O espiritismo e o combate ao racismo no século 21

5) Sabendo que a biologia atual provou a inexistência de raças biológicas humanas, como os livros de Kardec, que contêm afirmações do século XIX sobre raças, devem ser publicados hoje?

A) Apagar ou alterar as frases desatualizadas nas novas edições para evitar que leitores se sintam ofendidos ou confusos.

B) Manter o texto original exatamente como Kardec escreveu, mas inserir notas explicativas e quadros de contextualização nas edições.

C) Preservar o texto original totalmente intacto e sem notas de rodapé, deixando que a contextualização histórica seja feita em cursos, seminários e livros de estudo separados.

6) Na sua visão, como os ensinamentos espíritas (como a reencarnação e a ideia de que o espírito não tem cor) podem colaborar para o fim do racismo?

A) Fazer com que os espíritas assumam uma postura ativa de combate ao racismo e de respeito fraterno a todas as religiões, inclusive as de matriz africana e indígena.

B) Deixar que o progresso dos espíritos através da reencarnação resolva o preconceito naturalmente com o tempo, sem necessidade de ações ou discussões no presente.

C) O espiritismo deve tratar apenas de temas espirituais e não se envolver em questões sociais como o racismo.

 

3. Discussão e próximos passos

Os participantes do IX FLPE, majoritariamente, identificaram o racismo como um problema real, gerador de diferenças profundas de oportunidades na sociedade, exigindo ações por toda a sociedade (investimentos universais e políticas específicas de ação afirmativa) e pelos espíritas em particular. Reconhecem também que houve e ainda há preconceito no meio espírita.

Apesar de reconhecerem a presença, na obra de Kardec, de influência da ciência da sua época, vêem no seu legado as bases para a proposição de uma sociedade sem racismo.

Os próximos passos, discutidos ao final da apresentação dos resultados aos participantes, são os seguintes:

  1. Explicitamente tratar o racismo em estudos, discussões e ações no meio espírita.
  2. Ampliar e qualificar a produção teórica e as pesquisas sobre espiritismo e racismo.
  3. Ampliar as ações efetivas, alinhadas com outros segmentos progressistas da sociedade.
  4. Aperfeiçoar o uso do vocabulário. Tudo evolui, inclusive as referências a pessoas e coisas.

Esses resultados reforçam a relevância do Seminário Racismo e Espiritismo, e a futura publicação do livro Espiritismo e racismo para integrar a Série 2 da Coleção Livre-Pensar.

 

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1 Juíza aposentada, advogada, mestre em Direito, participante do CPDoc, autora de Criminalidade: educar ou punir (CPDoc) e Espiritismo, ética e moral (CEPA/CPDoc, Coleção Livre-Pensar)

2 Engenheiro e doutor em engenharia, participante do CPDoc, autor de Centro espírita: uma revisão estrutural (CPDoc) e Reencarnação: um revolucionário paradigma existencial (CEPA/CPDoc, Coleção Livre-Pensar)

3 cepainternacional.org

4 cpdocespirita.com.br

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