Suicídio: um olhar acolhedor, além do pecado, do crime, da patologização e da possessão demoníaca ou ideias já dadas

Por Genoveva Moraes

14

“Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
e sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim, pensar nisso é fechar os olhos e então pensar.
É correr as cortinas da minha janela (mas ela não tem cortinas).”
(Fernando Pessoa por Alberto Caeiro)

Segundo os historiadores, o ato de tirar a própria vida acompanha a humanidade desde os primeiros tempos. Ele aparece em mitos, textos antigos e diferentes tradições culturais. Ao longo da história, porém, o suicídio foi interpretado de modos diversos, conforme os valores, crenças e formas de pensar de cada sociedade. Na Antiguidade, a morte voluntária não era vista necessariamente como pecado, crime ou sinal de doença física ou mental. Em certas circunstâncias, podia ser considerada um ato heroico, nobre ou uma forma de escapar de situações de sofrimento e opressão.

Entre os filósofos gregos, havia posições divergentes. Os Pitagóricos condenavam a morte voluntária, pois entendiam a vida como um presente divino. Já os Estoicos e Epicuristas defendiam a liberdade do ser para decidir entre a vida e a morte. Platão e Aristóteles, por sua vez, relacionavam a vida da pessoa aos interesses da comunidade e à ordem social, o que os levava a impor restrições à morte voluntária.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, essas interpretações também foram mudando. A partir do século V, a Igreja Católica passou a condenar fortemente o suicídio. Santo Agostinho associou a morte voluntária ao mandamento “Não matarás”, contribuindo para que ela fosse vista como um ato moralmente condenável. No Concílio de Arles, em 452, o suicídio foi declarado como crime. O Concílio de Braga, em 563, reafirmou essa posição e determinou restrições aos ritos religiosos destinados às pessoas que buscassem a morte por suas próprias mãos. Punições severas passaram a ser impostas a quem tentasse contra a própria vida, bem como aos seus familiares.

A palavra suicídio vem do latim: sui = próprio, de si, e cadere, caedes ou cidium = matar ou morte violenta. Ela surge apenas no século XVII, na obra Religio Medici, de Thomas Browne, em 1636, para diferenciar-se ou assemelhar-se a termos como homicídio, parricídio, infanticídio etc., que carregam conotação de violência e crime. No grego e nas línguas antigas, esse termo não existia.

A partir do século XVII, o suicídio começou a ser relacionado à doença e, depois, à insanidade mental. Os médicos Philippe Pinel (1745-1826), Jean-Étienne Esquirol (1772-1840) e Claude Bourdin (1815-1886) consideravam “que o suicídio sempre é uma doença e sempre um ato de insanidade mental”. No final do século XX e início do século XXI, esse fenômeno passou a ser compreendido como uma questão de saúde pública, incorporando perspectivas filosóficas, médicas, psicológicas e sociológicas, mas ainda marcado por ideias previamente constituidas.

Ao estudar a história, percebe-se que o ato de tirar a própria vida ganha diversas interpretações em cada horizonte histórico. Sua compreensão foi sendo construída e transformada pelas sociedades: de um fenômeno que, em alguns contextos antigos, podia ser aceito ou até valorizado, passou a ser associado ao pecado, crime, insanidade mental e possessão, tornando-se um tabú, que deveria ser silenciado e ocultado.

Portanto, a ideia de dispor da própria vida no Ocidente foi perdendo o caráter de liberdade e escolha e foi confiscada, inicialmente, pela religião, que a considerou um pecado. Em seguida, o Estado a tipificou como crime, impondo castigos e penas como açoites, enforcamentos, prisões e confisco de bens daqueles que tinham suas intenções malogradas. Caso o suicídio fosse exitoso, os familiares perdiam seus bens. Posteriormente, o poder médico adota atitude discriminatória, atribuindo a quem pensa em suicídio a pecha ou o rótulo de insanidade mental, determinando tratamentos forçados, uso pesado de medicações, internações e vigilância constante, enquanto, no Espiritismo, quem pensa em suicídio é rotulado como obsidiado e tem o seu nome indicado para a reunião de desobsessão.

Resta claro, que ideias já cristalizadas acabam por silenciar quem pensa em tirar a própria vida e procura ajuda, pois impedo que o fenômeno se mostre, ou ainda, impossibilita nossa escuta sobre como a pessoa que pensa em morrer experimenta essa situação.

Os preconceitos e julgamentos moralizantes são fatores que impedem a pessoa que pensa em suicídio de falar sobre seus próprios motivos, seja para viver ou para morrer, uma vez que quem pede ajuda são as pessoas indecisas.

A escuta de quem pensa em morrer não pode ser mediada por nenhuma ideia pré-constituída, nem a favor nem contra, pois ao se posicionar de qualquer forma, estabelece-se uma barreira ou cria-se um anteparo que nos impede de escutar os motivos que a pessoa tem para viver ou para morrer.

Importa pensar o fenômeno do suicídio a partir da motivação que as pessoas têm para viver ou para morrer. Quando se afirma que o suicídio tem uma causa, estamos entendendo que esse ato é fruto de um determinismo; não se trata de escolha ou liberdade. Portanto, não existiria nenhuma possibilidade de uma pessoa tirar a própria vida sem uma causa que assim determinasse. Essa ideia causal é uma questão da modernidade; para os Gregos era diferente, falava-se em motivos.

Logo, estabelecer uma relação causal para o fenômeno suicído é ignorar o caráter de indeterminação do ser humano.

Ressalta-se que, ao desconstruir as ideias já dadas sobre o suicídio, podemos criar um espaço de escuta verdadeira e perceber a pessoa que vive suas experiências. “Antes de interpretar, é necessário escutar. Antes de explicar, é necessário aproximar-se daquilo que se mostra na experiência vivida de cada ser humano.”

Deixa-se aqui um convite – despir-nos, ainda que por alguns instantes, das ideias a priori que carregamos sobre o suicídio. Despir-nos do pecado, do crime, da doença, da possessão e de qualquer explicação que venha antes do encontro com a pessoa. Não para negar conhecimentos, crenças ou formas de compreensão, mas para permitir que a experiência se mostre em sua singularidade. Escutar, antes de julgar; aproximar-se, antes de explicar; acolher, antes de interpretar. Afinal, somente quando suspendemos aquilo que pensamos saber sobre o suicídio podemos nos abrir para ouvir aquilo que a pessoa, em seu sofrimento e em sua liberdade, tem a nos dizer sobre sua experiência de viver e de morrer.

Compartilhe
Total
0
Shares
Outros artigos do fórum
VER TODOS

Cidadania e as Leis de Sociedade e Justiça

Introdução ao Tema. Contribuições das Ciências Humanas e sociais na Evolução do Conceito de Justiça Social: Antiguidade Grega (4.000a.C. até 476 d.C) Platão: Justiça como...

DL Dirce Carvalho Leite LER
Centro Cultural Espírita de Porto Alegre
Atividades Públicas

Reunião Pública: Roda de conversa sobre Espiritismo

Segundas às 15h

Artesanato do Bem

Terças às 14h30

Espaço Jovem

Domingos às 10h

Atendimento Espiritual

Conversação Fraterna e Passes

Quintas,
Tarde às 15h

Estudos Espíritas

Fundamentos do Espiritismo

Sábados às 15h

Meditação

Quintas às 17h

Grupos de Estudos Virtuais

Informações:
ccepars.cursos@gmail.com