A meditação nas nossas vidas


A meditação, em particular, a meditação mindfulness, é ao mesmo tempo uma prática fácil e difícil. É fácil de aprender, é fácil de fazer. Mas também é fácil de esquecer de praticá-la, embora necessite apenas de sua lembrança para retomá-la.

Implica buscar uma maior intimidade conosco e com o mundo que vivemos. É a experimentação e a prática de afinar nossa consciência, esta capacidade de experimentarmos como imagens, sensações, pensamentos, emoções, enfim, nossos sentidos no desenrolar do cotidiano da vida. E escolher assumir esta atitude meditativa é, em si mesma, uma profunda expressão da inteligência humana. É acreditar que podemos ter uma atitude radical de sanidade e amor: parar todo o fazer por um breve momento. Nos desfazer daquilo que nos carrega, nos leva ao longo da vida, sem estarmos efetivamente habitando/vivenciando.

Mindfulness é uma prática meditativa e um modo de ser. Se expandiu na área da saúde nas décadas de 70/80, a partir de um programa desenvolvido em um centro médico da Universidade de Massachussets, pela equipe do biomédico Jon Kabat-Zin. Baseada no conhecimento búdico, o objetivo original da prática era ajudar pacientes a reduzir e aliviar sintomas de estresse e dores crônicas, que a medicina tradicional não conseguia alcançar. Mindfulness não é um tratamento médico, nem uma nova terapia, afirma Kabat-Zin. Foi adaptada dos conhecimentos ancestrais, para ser uma intervenção de saúde pública autoeducativa. Resultado da confluência de dois domínios do conhecimento: da ciência médica com as antigas práticas contemplativas com inúmeras pesquisas demonstrando as evidências de melhoria da saúde de seus praticantes. Ao mobilizar nossos recursos internos, através da atenção plena, aprende-se a se cuidar melhor, lidar com níveis de estresse e de dor, colabora com os tratamentos indicados.

Iniciamos no Ccepa a prática da meditação em abril de 2026 com o objetivo de promover um espaço onde pudéssemos praticar a meditação e trocarmos as vivências sobre o processo experienciado. Atualmente nos orientamos nos estudos de Kabat-Zin e nas práticas e conceitos da vertente da psicologia que vem pesquisando e praticando a prática de mindfulness.

E, desenvolvendo esta prática dentro de um espaço de estudos espíritas, é indispensável trazer esta profunda conexão com as forças espirituais e fluido cósmico que agem continuadamente sobre nós. Estarmos mais conscientes e conectados a este campo infinito de inteligência e potencialidade criativa, temos a possibilidade de receber e trazer para as nossas vidas parte da inteligência viva do universo.(Nonnenmacher, p.25, 2017)

Iniciamos nossas primeiras práticas, com as seguintes perguntas:

Quem eu sou?
O que mais desejo neste mundo?
Qual é a minha missão?

Perguntas que nos provocam, nos inquietam. Em geral não temos respostas prontas. Melhor assim! No entanto, também podemos deixar passar toda uma vida sem chegarmos perto destas respostas se não assumirmos o autoconhecimento, a intenção de habitar realmente nosso corpo/mente. Podemos dizer que é a consciência e o autoconhecimento que nos tornam humanos. Refinar estas capacidades pode contribuir para nosso aprendizado pessoal e do universo.

Vivemos no contemporâneo, com um turbilhão de informações. Acelerados por inúmeros afazeres, agimos com um “des-compasso” entre o que faço e nossos sentidos, pensamentos e emoções. Acontecimentos vividos mas não vivenciados no corpo/mente e no mundo ao redor. (Kabat-zin, 2019)

Assumimos facilmente papéis identitários e institucionalizados, ocupando lugares demarcados, respondendo de modo automático as demandas diárias. Viver sem ter vivido plenamente, ver o tempo correr de forma vertiginosa é um risco contínuo para todos nós, dado o ritmo contínuo e imposto dos acontecimentos. Quem não viveu momentos onde precisávamos buscar alguma estratégia para resolver um problema e somos levados pelo fluxo dos eventos, seguimos os mesmos padrões de reações e respostas, nos preocupando com urgências e perdendo contato com o que é de fato importante? Intoxicados de informações parece que não chegamos a lugar algum pois “não há tempo para pensar/refletir. Não posso parar”.

Podemos aprender a ancorar nosso barco no tumulto das ondas da nossa mente e do meio onde vivemos?
Como cultivar esta capacidade inata de viver, de se ligar a vida na sua potencialidade máxima, no limite de cada um?
A consciência quando cultivada pode discernir, abrir e transcender e nos liberar das nossas limitações autoimpostas, de nossos padrões de pensamento rotineiros e automáticos, de nossos sentidos e de nossas relações do cotidiano que podem vir acompanhadas de turbulência e estresse.

Experimentar e habitar uma consciência espaçosa de coração e mente, aberta a múltiplas conexões mais vastas do mundo, pode nos auxiliar a habitar nosso corpo com mais compaixão, menos julgamento e encontrar modos de viver mais criativos e apaixonantes. O mundo do não fazer, aberto, consciente pode se manifestar de formas antes impensadas no mundo do fazer.
Sabemos que temos uma história de vida cujas passagens podem deixar marcas, cicatrizes que formam nosso Eu. Construímos hábitos condicionados por heranças genéticas, experiências, traumas, medos, falta de confiança e segurança, muito por não termos sido considerados, validados pelos nossos cuidadores. Ressentimentos de longa data, injustiças e traumas. Mesmo assim, hábitos que se não forem combatidos, estreitam nossa visão, distorcem nosso entendimento, impedem nosso crescimento e nossa cura. (Kabat-Zin, Jon p.34, 2019)

• Ao meditar, ficamos mais conscientes de nossas experiências na hora em que acontece, de forma gentil e acolhedora, (…) traz a liberdade de escolha e o livra de ser uma eterna vítima dos seus impulsos e hábitos”. (Sopezki, 2023)

É importante salientar que não se trata de promover uma visão individual positiva, egocêntrica, distorcida e mesmo de autoengano. Vivemos em um mundo carregado de sofrimento, guerras e violência. Em nome da paz, fazem guerras e parece que muitos vivem um processo de dissociação cognitiva, mesmo sabendo da realidade, agarra-se a opiniões para justificativas enganosas para entender o mundo e acalmar a dor e a insegurança. Muitas forças políticas apontam, por exemplo, para a monetização de todos os recursos ambientais, colocando em risco a vida na terra.

Mas enquanto estivermos respirando, ainda há tempo de escolher a vida e de refletir sobre o que essa escolha implica. É abrirmos para este princípio inteligente da vida espiritual. (Kabat-Zinn, p.41, 2019).

O autoconhecimento, a consciência plena, a ética, se desdobra internamente, em nossos pensamentos e externamente, em nossos atos e palavras. A profunda conexão que vivemos com a humanidade pode ser um motivador forte para a transformação interna e externa em nós e no mundo.

Bibliografia:
Zinn, Jon Kabat. Meditação é mais do que você pensa. São Paulo: Planeta, 2019
Sopezki, Daniela. Plenamente. Curso online, 2023
Nonnenmacher, Bernadete. Meditação: a ponte para expandir sua consciência. Porto Alegre: SBEBM, 2017

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