Religião e Conservadorismo


Passado um ano da assunção do cardeal americano Robert Prevost na chefia da Igreja Católica, sob o nome de Leão XIV, setores mais progressistas respiram aliviados.

Depois do pontificado do argentino Bergoglio (Papa Francisco), que quebrou históricos tabus do Vaticano, temia-se por um retrocesso, notadamente em questões atinentes aos costumes.

Contrariando esses temores, Leão XIV está saindo melhor que a encomenda. Agora mesmo, publicou um documento considerado histórico, no qual reconhece o sofrimento enfrentado por pessoas LGBTQUIA+ dentro da Igreja Católica e critica duramente as controversas terapias de conversão, chamadas popularmente de “curas gay”. Na mesma trilha de seu antecessor, Prevost desenvolve políticas de acolhimento na Igreja de católicos gays, assim como de mulheres, nomeadas para cargos de liderança na Instituição.

Recorde-se que, em sua história, a Igreja mandava queimar em fogueiras públicas os homossexuais. Também, segundo algumas fontes, chegou-se a questionar, em seus quadros, se mulheres tinham alma. Nesse contexto, tais avanços tornam-se relevantes. Justamente porque ocorridos no âmago de uma instituição religiosa. E, sem a menor dúvida, a religião é, foi e será o segmento mais conservador da comunidade mundial.

A IGREJA E A LIBERDADE DE PENSAR

Mas, o conservadorismo da religião expressa, antes de tudo, fidelidade às próprias escrituras que lhe dão origem. Daí reconhecer-se coerência nas correntes internas que combatem o progressismo, acusando seus mentores de hereges. Há uma certa lógica nesse silogismo, considerando-se a premissa da qual parte.

Escrituras religiosas são a expressão dos valores, crenças, mitos e costumes dos povos em cujo seio elas nasceram. Mas também são instrumentos de que se valem os seres humanos voltados à dominação para impor seu poder perante todos. Eles se apresentam como detentores da verdade provinda diretamente de Deus. Logo são por Ele autorizados a guardá-la, acima de qualquer outra coisa.

Direitos humanos, pois, a partir daquela premissa, só são válidos na medida em que não contrariarem o dogma expedido em consonância com a verdade escritural.

Por isso, até poucos séculos – dois ou três, não mais do que isso -, a Igreja posicionou-se firme e unanimemente contra a liberdade de pensamento. O papa Gregório XVI (Pontífice de 1831 a 1846), na sua encíclica “Mirari Vos”, chega a adjetivar a liberdade de consciência como uma verdadeira “peste”.

O QUE LEVA A IGREJA A MUDAR

Então, o que faz a Igreja a mudar e seus Papas tidos como progressistas a assumirem posições que contrariam frontalmente suas escrituras, dogmas e tradições? O que os conduz a adotar posições capazes de levá-los a serem vistos como “hereges”, em seu próprio meio, por aqueles que pregam a fé cega e o procedimento rigorosamente imposto por seus códigos morais tidos como “eternos”?

Resposta: a experiência humana, que é muito mais poderosa que leis, tratados, dogmas, costumes e códigos morais. É o laicismo, vindo da capacidade de a sociedade civil desvencilhar-se dos poderes pretensamente outorgados por Deus e por sua “Palavra”, para agirem a partir do pensamento livre, bem estruturado, fundado na razão e no pragmatismo humano, fontes de sabedoria, liberdade e felicidade.

Está aí a poderosa mensagem da Modernidade, do Iluminismo, que, mesmo combatidos pela Igreja e seus prelados, lograram tornar realidade a separação Igreja/Estado, um avanço fantástico de nossa civilização.

RELIGIÃO, LAICIDADE E HUMANISMO

A religião, pois, só avança quando cede aos ditames emanados da experiência secular, do laicismo. O progresso da religião está diretamente vinculado à sua capacidade de laicizar-se.

Sem o impulso da laicidade, a Igreja não estaria acolhendo gays ou permitindo sua frequência a casais divorciados que, impedidos de celebrarem suas bodas religiosas, assim mesmo, guardam a fé religiosa e participam de seus ritos.

O futuro da religião não está subordinado à doutrinação emanada de suas escrituras, mas à capacidade de laicizar-se e de acolher, com amor e fraternidade, os deserdados da Terra. Isso se chama humanismo.

Coluna Opinião em Tópicos, publicada na edição de junho/26 do jornal Abertura, do Instituto Cultural Kardecista de Santos

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