A evolução do Espírito está referenciada na Lei de Progresso. Em “O Livro dos Espíritos”, questão 647, está dito que: “ (…) Aliás, a lei natural compreende todas as circunstâncias da vida (…)”. Como consequência para o Espiritismo, o progresso espiritual é inerente ao existir humano, cumprindo-se pela ação do indivíduo.
Kardec definiu o Espiritismo como ciência investigativa dos fatos espíritas, através da mediunidade, e como uma filosofia com consequências morais. Sabemos que a Filosofia Espírita não é apenas um conhecimento, um campo de ideias abstratas, mas um meio efetivo para a compreensão do mundo, da vida, dos seres, enfim, da existência e da realidade, através da lente e do entendimento espírita. Para tanto, Kardec, ao longo de sua obra, propõe que essa tarefa se realiza ancorada no exercício da razão e do livre-arbítrio, os quais conferem-nos a condição de protagonistas, a responsabilidade por nossas escolhas e, também, o desmérito ou mérito de nossas ações e progresso.
Sendo desta maneira, o Espiritismo propõe que aprofundemos a busca por significados sempre crescentes e mais abrangentes, o exercício do pensamento crítico e autônomo, a reflexão questionadora dos valores e crenças, a análise das relações entre os indivíduos, culturas e contextos históricos. Propõe, igualmente, que questionemos, utilizando o raciocínio lógico e ético para analisar verdades estabelecidas e temas complexos, para, então, alcançar novas perspectivas de pensamento, verdades ampliadas e sempre progressivas, bem como sermos capazes de eleger novos propósitos de vida, coerentes com o desenvolvimento da própria razão e que propiciem, também, o desenvolvimento das livres escolhas, de modo a produzir mais felicidade, progresso e justiça para todos.
Livre-arbítrio e razão são patrimônios de todos os seres humanos. São como marcas do divino em nós. No entanto, são como pedras brutas que precisam ser lapidadas. Aí está o nosso protagonismo! Razão e livre-arbítrio são a estrutura que sustenta e que, ao mesmo tempo, revela o nível do ser que somos, o que sentimos, acreditamos e a natureza das nossas ações. Quanto mais precário e insuficiente for esse nível, mais deixamo-nos governar pelos “determinismos e instintos” extremos. Expressões como: “sempre fui assim”, “o mundo é assim mesmo”, “é o que Deus quis ou quer”, mostram passividade e submissão total diante da ação do determinismo, um livre-arbítrio adormecido e uma fé cega. Quanto mais desenvolvida a razão e o livre-arbítrio mais o determinismo e o instinto perdem atuação e menos condicionam as ações humanas, dando lugar à conscientização. Essa conscientização será, então, livre de misticismos, madura, coerente, ética e responsável, amparada nas contribuições da ciência, especialmente das ciências humanas e sociais.
Na escala inicial da jornada do Espírito, o Espiritismo situa-nos como “simples e ignorantes”. À medida das experiências nas encarnações múltiplas, vamos colhendo aprendizagens e, gradualmente, desenvolvendo razão e livre-arbítrio, transformando a mente, tornando-a capaz de raciocínios mais complexos, superando a condição inicial de simples. Da mesma forma, por ensaio, erro e acerto, colhemos consequências de dor ou de bem-estar e, assim, vamos educando nosso livre-arbítrio, realizando com isso melhores escolhas.
Desta maneira, sempre como protagonistas do aperfeiçoamento do espírito que somos, razão e livre-arbítrio ocupam a tarefa de construir, unidos à nossa vontade, nosso crescente possível progresso. Razão e livre-arbítrio crescem e determinismo e instinto perdem espaço de influência no nosso proceder, na medida que subimos de posição na escala de progresso, rumo à conquista da perfeição que é possível ao ser humano.
Na mesma medida em que crescemos em desenvolvimento da razão e do livre-arbítrio, crescemos em moralidade porque, pela prática da ética, examinamos nossos valores morais e vamos, também, transformando-os, abandonando aqueles que nossa razão refuta e elegendo outros, em coerência com uma prática de vida conectada com os novos patamares intelectomorais construídos. Essa conquista moral vai abrindo oportunidades ao Espírito de acessar reencarnações em mundos melhor situados na Escala Espírita de progresso, abandonando aqueles dos quais nossa sintonia vibracional desconectou-se e ingressando em mundos crescentemente mais avançados, em sua condição de existência.
O determinismo, se tomado como absoluto e fatal condicionante das ações do indivíduo, é uma concepção que afeta e avilta a visão espírita do ser humano, se compreendida deste modo, pois retira dele o protagonismo individual, autônomo, consciente e responsável por seus atos e construtor do seu destino. Em “O Livro dos Espíritos”, questão 851, o determinismo entendido como fatalidade:
“(…) só existe no tocante à escolha feita pelo Espírito ao se encarnar, de sofrer esta ou aquela prova; ao escolhê-la ele traça para si mesmo uma espécie de destino, que é a própria consequência da posição em que se encontra. Falo no tocante às provas de natureza física, porque, no tocante às provas morais e às tentações, o Espírito, conservando o seu livre-arbítrio sobre o bem e sobre o mal, é sempre senhor de ceder ou resistir (…)” (grifos nossos).
No pensar espírita, o determinismo manifesta-se na revelação das tendências inatas, resultantes de experiências passadas, bem como pelos condicionamentos de condutas que trazemos conosco na vida atual e que pedem superações do indivíduo reencarnante. Ao reencarnar, trazemos nossa própria herança intelectomoral em seus aspectos positivos e aqueles que necessitamos ultrapassar.
A questão 861 de “O Livro dos Espíritos” esclarece que:
“(…) Se há fatalidade, às vezes, é apenas no tocante a acontecimentos materiais, cuja causa está fora de vós e que são independentes da vossa vontade. Quanto aos atos da vida moral, emanam sempre do próprio homem, que tem sempre, por conseguinte, a liberdade de escolha; para os seus atos não existe jamais a fatalidade.”
Então, reencarnar e desencarnar é fatalidade para Espíritos imperfeitos que necessitam desenvolver razão e livre-arbítrio pelo amplo e generoso processo de educação que o existir proporciona nas duas dimensões da vida. Entendido desta forma, o determinismo espírita é positivo porque permite o autoconhecimento real e abre as possibilidades de, a partir dele, reescrever pela autoeducação a história de progresso individual possível a cada ser.
O determinismo espírita age compulsoriamente, fatalmente, mostrando quem somos através dos nossos modos de sentir, pensar, agir e, especialmente, por meio de nossas reações que costumam ser automáticas, repetitivas e espontâneas. Ele pode ser entendido, agindo independente de nossa vontade, evidenciando as forças interiores que nos compõem e que solicitam transformações. À medida que o Espírito vai progredindo através do desenvolvimento da razão e do livre-arbítrio, ele domina e enfraquece o determinismo pessoal e, em seu lugar, vai solidificando, pouco a pouco, virtudes, “agora”, por sua livre escolha e por consciência da necessidade de mudanças.
Resumindo, para entender a função pedagógica do determinismo e do instinto, que caminha com ele, precisamos relembrar a caminhada do Princípio Espiritual. Nos estágios iniciais do seu desenvolvimento a dinâmica é determinista, pois não há consciência de progresso, porque só há apenas latente o princípio da razão e do livre-arbítrio. Nesse nível, determinismo e instinto são soberanos na sua atuação, pois nesse contexto, a dinâmica de desenvolvimento inerente ao existir é automática e inconsciente.
Desta forma, o determinismo material é constante, nas fases iniciais da jornada do princípio espiritual, onde a razão ainda não desabrochou. Existem níveis diferentes de determinismo. Ele não se cumpre indefinidamente e do mesmo modo para todos. Emoções, impulsos, tendências e automatismos reacionais estão presentes no indivíduo, em cada encarnação, de forma sempre individual. No entanto, esses elementos podem ser transformados, quando destrutivos, pela educação do livre-arbítrio, pelo desenvolvimento da inteligência e pelo autoconhecimento. É saudável, mental e espiritualmente, buscá-los, porque a libertação dessa herança pessoal que sabota nossa felicidade e progresso é necessidade do ser humano, na conquista pessoal evolutiva.
Para o Espiritismo o determinismo, aliado ao instinto, não é uma fatalidade definitiva. É a vontade humana de autotransformação e de expansão da consciência que vai agindo sobre eles, na medida em que o indivíduo vai vencendo seus impulsos em desequilíbrio, seus comportamentos infantis repetitivos, suas tendências geradoras de infelicidade, seus comportamentos egocêntricos e seu funcionamento escravo de reações deletérias. O autoconhecimento, a autoaceitação, a disposição às mudanças e a busca do conhecimento são antídotos à submissão pessoal ao determinismo individual. Educação do livre-arbítrio, expansão da consciência, busca de novos conhecimentos e autotransformação são indicadores de que estamos progredindo e no caminho produtivo.
Temos que ter clareza, portanto, que fatalidade e livre-arbítrio precisam ser muito bem compreendidos, como diz Kardec:
“O homem tem livre-arbítrio ou está sujeito a fatalidade? Se a conduta do homem dependesse da fatalidade, não teria responsabilidade pelo mal nem o mérito pelo bem praticado. Consequentemente todo o castigo seria injusto e toda recompensa um contrassenso. O livre-arbítrio do homem é consequência da justiça de Deus; é o atributo que lhe confere sua dignidade e o eleva acima das demais criaturas…” (O que é o Espiritismo, Capítulo III, Item 128).
Importante é ter presente que, se livre-arbítrio é autonomia, na visão espírita ela tem um referencial: a fraternidade e a construção do bem comum. Fora disso, livre-arbítrio carecerá de maturidade espiritual.
Será sempre o uso da própria liberdade, no sentido de emancipação intelectomoral, o exercício da ética e a educação da vontade, liberta de paixões, entendidas como todos os excessos que praticamos, que nos colocarão no caminho do progresso, que conquista mais felicidade pessoal e coletiva.
Tudo está em nossas mãos!
Referências Bibliográficas
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83. ed. São Paulo: LAKE, 2020.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. 30. ed. São Paulo: LAKE, 2022.
RÉGIS, Jaci. Do Homem e do Mundo. Santos, SP: LICESP, 1994.
RÉGIS, Jaci. Introdução à Doutrina Kardecista. Santos, SP: LICESP, 1997.
RÉGIS, Jaci. Novas Ideias: Textos Reescritos. Santos, SP: ICKS Edições, 2007.
