O Livro dos Espíritos – 169 anos

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Uma enquete que gostaria de fazer: perguntar aos estudiosos da obra fundadora do espiritismo (18/04/1857), no seu formato definitivo (a partir da edição de 1860), qual a mais importante dentre suas 1.019 questões.

A obra, em estilo claro e acessível à maioria das pessoas, enfoca temas os mais variados. A partir da premissa da existência do espírito imortal e de sua comunicabilidade com o mundo material, O L.E. se ocupa de questões filosóficas, teológicas, sociais, ético-morais, jurídicas etc.

A variedade de temas, com certeza, propiciaria ao entrevistado eleger a questão mais compatível com suas próprias vivências e indagações, e dificilmente não teríamos uma gama enorme de questões, cada uma delas apontada como a mais importante.

Não por outra razão, o próprio espiritismo, nas diversas feições mediante as quais seus seguidores passaram a vê-lo, decorridos mais de um século e meio de sua existência, visualizam-no sob diferentes ângulos: o científico, o filosófico, o religioso, o social, o estritamente fenomênico, e por aí a fora.

A MINHA ESCOLHA

Quanto a mim, há muito já elegi a questão 614 como a que melhor situa o espiritismo como filosofia ou como visão de Deus, de ser humano, de universo, de vida, enfim.

Refere-se à lei natural, a partir da pergunta de Kardec de como se deve entendê-la, tendo recebido de seus interlocutores espirituais esta resposta:

“A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou não fazer e ele só é infeliz na medida em que dela se afasta”.

É justamente esse conceito de “lei natural” que irá balizar toda a teoria ética, moral e social de toda a terceira parte da obra.

É o elemento que rompe com a visão sacralizada, sobrenatural, da origem e do destino do ser humano. Coloca a vida como um processo natural e não regido por um voluntarismo divino do qual a religião seria a condutora e seus livros sagrados repositórios de dogmas inamovíveis.

A LEI NATURAL

A própria pergunta, tal como formulada por Kardec, já aponta um direcionamento de ruptura com a tradição religiosa. É bom lembrar que desde de São Tomás de Aquino (1225/1274), a Igreja se orientava pela escola chamada “escolástica”, de matriz aristotélica, da qual Aquino foi o grande propulsor.

A escolástica admitia, sim, uma lei natural, ínsita na natureza humana. Isso não significava, contudo, que ela fosse a lei de Deus. Esta, a “lex divina”, de natureza sobrenatural e fruto da revelação, se sobrepunha àquela. Tão importante era isso que a teologia recomendava que se a lei natural contrariasse a lei divina, o homem deveria desobedecê-la, mantendo-se fiel às leis eclesiásticas, intérpretes da lei divina.

A revolucionária proposta filosófica espírita, muito bem expressa na questão 614, sustenta que a lei natural, diferentemente da proposta teológica cristã, está gravada na consciência do ser (questão 621). É um imperativo da razão. Deus, pois, se expressa no ser humano pela racionalidade nele implantada e desenvolvida, e não pela revelação.

A AUTONOMIA ESPÍRITA

Está aí a característica essencial da filosofia ética do espiritismo. Reconhece a autonomia a que está vocacionado o espírito no seu processo evolutivo. E acresce a isso outro conceito, igualmente revolucionário e de ruptura com a teologia: dessa autonomia, ditada pela compreensão e pela vivência da lei natural deriva a felicidade.

A bem-aventurança espiritual, assim, neste estágio e cada vez mais acentuadamente, nos futuros, não está nas práticas religiosas. Foge dos limites estreitos da fé e dos cumprimentos impostos por seus mistérios, e se consolida na harmonia do ser com as leis da natureza.

Não está aí a essência da proposta espírita? Não está nesse conceito a ruptura da moral naturalista, fruto da razão e do livro pensamento, contrastando com a moral religiosa? Não está definida aí a natureza fundamental do espiritismo?

E para você, qual seria a questão mais importante de O Livro dos Espíritos, obra que este mês completa 169 anos?

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3 pensamentos sobre “O Livro dos Espíritos – 169 anos

  1. Aprecio grandemente esta invitación a la reflexión. Nunca me había detenido a pensar cuál sería la pregunta o inciso más relevante, para mí, de la obra más fundamental y fundacional del Espiritismo. Ciertamente estos argumentos resuenan conmigo y Milton expone claramente lo que, me parece, es esencial en esta doctrina filosófica y moral tan emancipadora. ¡Enhorabuena por estos 169 años de El Libro de los Espíritus! Gracias Milton, por llevarnos a re explorar esta inmensa obra, con ojos que buscan y encuentran.

  2. Como sempre ler os textos e trovas do Dr. Milton é um prazer. Textos sempre explicativos e pedagógicos. Muito obrigada. E acabo de saber que concordo . A resposta mais importante é a 614!!! “Deus sive natura.”

  3. Bom dia, não consigo eleger uma questão como sendo mais importante vejo que todas trazem algo que nos faz refletir. Mesmo me considero principiante para mim hoje acho que todas foram essências cada qual por um motivo

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