ROTINAS
Na fase da vida em que restam sós, após filhos criados, casais costumam desenvolver rotinas simplificadoras da vida. Uma delas é na sua alimentação.
Não mais pratos sofisticados: uma carne assada no forno elétrico, acompanhada de salada, um dia; um arroz com linguiça, ou uma sopa, noutro; ou uma pizza entregue em casa, de vez em quando. E por aí vai.
Aqui em casa, não é diferente. Mas, a verdade é que velho não come muito. A gente aprende a restringir o consumo, em benefício do bem-estar e da saúde.
Resulta daí que, invariavelmente, sobra comida. E isso termina incomodando, pois que o desperdício, num mundo em que há tanta fome, ganha dimensões de acinte e de egoísmo.
O NOSSO POBRE
Para não jogar sobras de comida saudável ao lixo, adotamos uma prática: embalamos o que sobrou, acrescemos alguma fruta, colocamos em uma sacolinha e a amarramos nas grades de entrada de nosso condomínio. Fazemos isso, normalmente à noite, antes de dormir. No dia seguinte, confiro. Sempre alguém terá levado.
Estabelecemos, assim, uma relação com uma hipotética pessoa, que sequer sabemos seja sempre a mesma, mas a quem, carinhosamente, tratamos como o “nosso pobre”.
Ele come, rigorosamente, o que comemos. Aos domingos quando, saindo da rotina, e para receber a família estendida, fazemos o tradicional churrasco, nosso pobre também irá se deliciar com nacos de costela e picanha. E há aquelas datas especiais, onde um prato de camarão ou de bacalhau congrega festivamente a família. De uma certa forma, ele irá confraternizar conosco, pois sua porção será colocada no ponto convencionado.
Tão concreta é nossa relação com ele que, quando resolvemos apenas fazer um lanche, tipo um pastel para cada um ou um pãozinho recheado de queijo e salame, ou um iogurte, não me esqueço, ao comprar, de prever o quinhão igualitário do “nosso pobre”.
BENS DE TODOS
Claro que esse exercício não é nada diante do gigantesco problema da fome. De uma certa forma, traz ainda mais angústia a quem, vivendo na abastança, sente-se impotente de contribuir decisivamente para minorar esse drama comum a tantos outros países.
O mais angustiante é constatar que, em nosso meio, se desenvolveu relativamente bem a ideia de que o problema se resolve mediante atos, comumente chamado de “caridosos”, com doações pessoais aos mais necessitados. As campanhas nesse sentido, geralmente, são exitosas e minoram o sofrimento de muita gente. Mas não resolvem o problema macro que depende de uma consciência mundial de que os bens da Terra, sejam naturais ou fruto da capacidade humana de produção e transformação, são valores cuja destinação natural é a humanidade como um todo.
Uma ideologia nitidamente egocêntrica e materialista, dominante no mundo, parte da ideia de que a pobreza resulta da falta de disposição para o trabalho. Que todos, querendo, podem enriquecer, ter sucesso na vida. A pobreza seria fruto da indolência, da preguiça, do desinteresse em colher as oportunidades oferecidas pelos mecanismos do capitalismo e da meritocracia.
Tal postura leva à indiferença com o sofrimento alheio. A filosofia espírita parte do princípio de que todo o espírito é “criado” “simples e ignorante”. Mas, cada um percorre singular trajetória de paulatina apreensão de conhecimentos. Sofre as influências boas e perniciosas de suas próprias inclinações e experiências, mas, também, do meio em que reencarna. A apreensão das leis naturais cujo exercício leva à autonomia e à felicidade, é processo para o qual, necessariamente, concorrem os esforços próprios, as diferenciadas experiências encarnatórias, mas também as influências sociais. Chegam em fases e circunstâncias diferenciadas a cada espírito.
Nesse contexto, as leis do Amor, da Justiça e da Caridade (questões 873 e seguintes do L.E.), que podem ser sintetizadas em valores de Solidariedade e Humanismo, tornam-se fatores indispensáveis ao crescimento de todos.
Ninguém anda sozinho e ninguém cresce sem a efetiva contribuição de uma sociedade estruturada com vistas ao exercício daqueles valores.
Enquanto não se institucionalizarem, concretamente, esses valores sociais, a gente vai ajudando, como pode, “nossos pobres”. Mas, ao mesmo tempo, cresce em nós a indignação e a frustração de vivermos em um mundo profundamente injusto e desigual.
Só a justiça social, e não o que, ingenuamente, apelidamos de “caridade”, pode mudar definitivamente esse quadro.
