
– Se o senhor me dá licença eu agradeço!
Ouvi a frase, dita de forma agressiva. Afastei o carrinho de compras do supermercado e deixei-o passar. Era um rapaz forte que andava quase levando tudo pela frente. Logo atrás dele, uma moça, olhar muito meigo, grávida, passou me dizendo baixinho:
– Me desculpe, senhor.
Feitas as compras, entrei na fila e vi que, lá em frente, no caixa, alguém falava alto e gesticulava. Era ele. Reclamava da caixa por uma compra feita outro dia. O gerente prometera trocar a mercadoria e não o fez. Xingava a funcionária, que nada dizia. Até porque não era assunto dela. O rapaz afastou-se levando as compras e, novamente, pude ver que a moça ficou para trás para pedir desculpas à funcionária do caixa.
Normalmente, pensamos em anjos da guarda como seres celestiais invisíveis que nos protegem. Tolerantes com nossas faltas, não nos abandonam, por toda a vida. O próprio Allan Kardec, em sua obra, tomou de empréstimo da teologia cristã essa figura do anjo guardião. É verdade que lhe tirou as asas e aquele ar de inocente candura de quem nunca pecou. Os anjos de Kardec e do espiritismo são tão humanos como nós: Espíritos que passaram por tribulações como as nossas e que, por guardarem afinidade com a gente, aceitaram essa tarefa de nos inspirar, proteger e até, quem sabe, nos oferecer reprimendas quando erramos. Talvez nossos remorsos de consciência não sejam mais que recados sutis de nosso anjo guardião.
As atitudes daquela moça, sempre atenta a todos os gestos agressivos de seu companheiro e pedindo, educadamente, desculpas por ele, me fizeram pensar. Quando se fala em “espíritos missionários”, referindo-se a indivíduos com importantes tarefas a cumprir na vida, incluo nessa categoria pessoas, às vezes, de vida socialmente muito obscura: mães pacienciosas, pais perseverantes, maridos ou esposas que, a toda hora, matam no peito os desajustes de certos companheirinhos de jornada.
Acho que o núcleo familiar, no estágio evolutivo em que nos encontramos, é, frequentemente, o mais sério desafio de uma encarnação.
Enfim, há anjos que decidem fazer mais por nós do que, simplesmente, exercerem esse papel de protetores invisíveis. Reencarnam conosco, acompanham-nos espiritual e materialmente durante a existência. Assumem perante os outros nossas faltas, dando-nos exemplos diários de resignação, solidariedade, persistência e amor.
Anjos são espíritos, tanto quanto nós. Não há seres privilegiados na criação. Todos temos a mesma origem e, juntos, caminhamos no rumo da evolução. Nossos anjos, por melhores que sejam, também são humanos. E nem sempre suportam a carga. Às vezes, desistem. Partem para outra. Tanto quanto nós, são livres para dar o rumo que quiserem às suas vidas.
Por isso, trate muito bem seu anjo. Ele é gente. Um dia pode cansar.
