Era uma tarde de quarta-feira, num silêncio daqueles de prender a respiração, quando o inesperado aconteceu. Estávamos todos concentrados em plena sessão mediúnica na sociedade espírita. A mesa estava pronta, o ambiente preparado e a Leda, nossa dirigente, conduzia os trabalhos com a serenidade de sempre. Foi justamente nesse instante de calmaria absoluta que o meu coração decidiu protestar.
Começou com uma dor fininha, que logo se transformou em um aperto insuportável no peito. O pânico foi imediato: “Meu Deus, estou tendo um infarto!”, pensei, sentindo o suor frio escorrer pela testa. Uma batalha interna se travou na minha mente: eu não sabia se quebrava o silêncio para avisar a Leda, se pedia para chamarem o SAMU ou se simplesmente aceitava o meu destino ali mesmo. No auge do desespero, cheguei a pensar com meus botões: “Bom, se eu morrer em plena mesa mediúnica, pelo menos já subo direto, né?”
Enquanto eu sofria em silêncio, achando que eram os meus últimos minutos de vida, a Glaci — uma médium maravilhosa, esposa do Seu Ulisses — captou o que estava acontecendo. Ela era a médium de psicofonia da Maria do Balaio, uma preta velha muito querida, conhecida por se apresentar espiritualmente com seu avental branco e um balaio, e que sempre encerrava os trabalhos nos dando um passe e mentalizando uma rosa branca para cada um.
De repente, a Glaci incorporou a Maria do Balaio, olhou bem para mim e, com aquela voz mansa e acolhedora típica de preto velho, disparou no meio do grupo:
— Fia, não te preocupa. O que tu tá tendo aí é só uma crise de gases! Mas a vovó já te deu um chá de funcho espiritual e tu já vai melhorar.
O impacto foi imediato. A vergonha que me abateu superou qualquer dor no peito. Eu ali, jurando que estava partindo para o plano espiritual por motivos cardíacos, e a entidade revelando para todo mundo que o meu drama era, na verdade, um baita sofrimento por flatulências retidas!
O mais impressionante? Não se passaram nem dois minutos e a dor sumiu por completo. Sem alarde, sem a necessidade de nenhum remédio de farmácia e, felizmente, sem nenhum efeito colateral sonoro. A dor simplesmente evaporou, permitindo-me retomar a concentração e cruzar a linha de chegada da sessão sã, salva e… aliviada.
Assim que os trabalhos terminaram, claro, virei o motivo de chacota oficial do grupo.
O Beto, meu companheiro de risadas, não perdeu tempo e logo sugeriu que aquela história rendia uma boa crônica. Entre tantas gargalhadas e piadas sobre o meu “infarto incompreendido”, pensamos no título ideal para essa aventura. Ficamos com o óbvio e definitivo: “O Milagroso Chá de Funcho”. Afinal, não é todo dia que a espiritualidade faz o que parecia ser uma morte trágica se transformar num diagnóstico de gases com direito a plateia!
