Uma história vivida em Flecheiras
Corria o ano de 1975. Eu lecionava Topografia enquanto cursava Engenharia. O Colégio Mesquita, mantido pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, oferecia um curso profissionalizante que funcionava nas noites de sexta-feira e nas manhãs de sábado.
Foi ali que conheci Antônio Monteiro, professor de Hidrologia, capitão do Exército e presidente da Sociedade Espírita Luz e Caridade (SELC). Naquela época, eu estava deixando para trás uma religiosidade baseada em dogmas e abrindo espaço para uma espiritualidade mais consciente. A identificação entre nós foi imediata.
Depois de muitas conversas, Monteiro me presenteou com O Livro dos Espíritos e me convidou para conhecer a SELC. Logo me identifiquei com a casa e, especialmente, com “Seu Jones”, como todos chamávamos Maurice Herbert Jones, o grande construtor do pensamento da instituição. A convivência na SELC marcou profundamente minha formação espiritual.
Depois de 1990, em razão do trabalho, fui me afastando de Porto Alegre. Anos mais tarde, em 2010, surgiu a oportunidade de trabalhar na implantação de parques eólicos no município de Trairí, no Ceará.
Trairí possui três belas praias — Guajirú, Flecheiras e Mundaú — enquanto a sede do município fica no interior, distante do litoral. O empreendimento era dividido em quatro parques distribuídos entre essas localidades. Durante cerca de um ano morei em Flecheiras.
A pousada onde me hospedei ficava praticamente sobre a areia, entre a praia e o mar. Como bom gaúcho e pampeano, todas as tardes, ao retornar das obras, preparava meu chimarrão e me sentava para apreciar o pôr do sol.
Durante a semana, Flecheiras era muito tranquila. O movimento turístico concentrava-se apenas nos finais de semana e, na maior parte dos dias, aquele era um mate solitário. A pousada mantinha apenas um garçom nesse período: Batista.
Mineiro de origem, Batista havia ido para São Paulo em busca de oportunidades. Lá conheceu uma cearense, por quem se apaixonou. Quando ela decidiu voltar para sua terra natal, em Flecheiras, ele veio junto. Mais tarde, já separado dessa primeira companheira, apaixonou-se por outra cearense da própria comunidade. Dessa união nasceu sua filha.
Batista tornou-se meu companheiro das longas conversas ao entardecer. Nunca se interessou em aprender a tomar chimarrão, mas sempre fazia questão de me acompanhar enquanto eu tomava meu mate. Tinha muitas histórias para contar sobre Minas Gerais, São Paulo e sua nova vida no Ceará.
Logo nos primeiros dias em Flecheiras procurei alguma sociedade espírita em Trairí ou nas redondezas, mas não encontrei nenhuma.
Nossas conversas, inicialmente sobre a vida, aos poucos foram se aprofundando. Em determinado momento, Batista perguntou se eu era espírita. Talvez alguma resposta minha ou a maneira como eu enxergava determinadas situações o tenha levado a essa pergunta.
Quando confirmei que era espírita, seu semblante se iluminou. Fez inúmeras perguntas sobre o Espiritismo e contou que possuía os cinco livros fundamentais da Doutrina Espírita. Havia lido todos, embora jamais tivesse frequentado uma casa espírita. Comprara os livros em Fortaleza, numa das raras viagens que fizera à capital.
A partir daí, nossas conversas transformaram-se em verdadeiros estudos. Formamos um grupo de estudos composto por apenas duas pessoas. Algum tempo depois, Batista manifestou o desejo de iniciar o Evangelho no Lar e me convidou para conduzir os primeiros encontros.
Naquele período, Loanda passava algumas semanas comigo em Flecheiras. Juntos iniciamos o Evangelho no Lar na casa do Batista.
Foram momentos profundamente emocionantes. Sua casa era muito simples, típica construção de taipa do interior cearense, mas a atmosfera espiritual era intensa. Todos nós sentíamos uma presença de paz e acolhimento difícil de descrever em palavras.
Algum tempo depois, Batista reuniu alguns amigos de Trairí e conseguiu uma sala em uma escola estadual para realizarmos reuniões de estudo. Infelizmente, após alguns encontros, o grupo não conseguiu prosseguir. Diversos fatores contribuíram para isso: minhas responsabilidades na obra aumentaram, não havia transporte público entre Trairí e Flecheiras e as dificuldades de deslocamento
acabaram inviabilizando a continuidade das reuniões.
Apesar disso, nossa amizade permaneceu. Depois que retornei ao Rio Grande do Sul, ainda voltei algumas vezes a Flecheiras para reencontrar Batista.
Sempre que volto em pensamento a Flecheiras, não me lembro primeiro das torres eólicas nem das obras que executamos. Lembro do mar, do chimarrão ao fim da tarde e da casa de taipa onde, entre amigos, iniciamos o Evangelho no Lar.
