O fusca novo era realmente muito bonito. Era um amarelo queimado, diferente e reluzente. É claro que todos queriam dar uma volta no carrinho recém-adquirido do meu irmão. Naquela época morávamos em Porto Alegre, mas todos os finais de semana íamos para Barra do Ribeiro, onde meu pai trabalhava. E também alternávamos indo para Camaquã, onde a família de minha mãe morava e onde tínhamos primos com quem saímos para as primeiras festas de adolescentes. Acostumados em cidade pequena, onde as regras de trânsito não eram muito rígidas, todos nós aprendemos a dirigir desde muito cedo. Então, eu lá com meus 14 anos, já pegava a direção para fazer pequenas compras faltantes na cozinha. Favores que fazíamos com gosto para minha mãe. E foi num destes “voltinhas de carro/compras” que entrei no carro novo do meu irmão que o “bichinho” não ligou. Insistia em não ligar comigo e eu estranhei por ser um carro recém-saído da loja. Pedi apoio para meu irmão e com ele o carro reagiu. Pois bem. Naquele momento já não me senti muito confortável e confiante com aquela linda novidade.
Com um final de semana mais longo devido a um feriado, iríamos para Camaquã ao final da tarde. Parte da família já estava lá e eu iria com meu irmão e minha mãe no carro novo. Ao final da tarde, entrando a noite, saímos e, como de costume, paramos no único posto para abastecer. Meu irmão saiu do carro e permaneci no banco de trás com minha mãe no banco da frente. Sentada eu percebia luzes dos carros passando mas sentia que vinham ao longe, em direção ao carro. Sentia o medo de sermos atingidos. E soltei a exclamação: mãe! Este carro tem azar! Minha mãe imediatamente me repreende: vira esta boca para lá! Ou algo assim…recuei e não disse mais nada, mas a impressão das luzes em nossa direção continuaram…
No outro dia, a tarde, como de costume, fui para a casa de minha prima. E de fusca… A casa da vó tinha uma rampa para descer e já estava acostumada a descer de ré com outros carros. Mas naquele dia o fusca parecia não querer me obedecer. Com a ré acionada, ora ia para a esquerda, em direção de um muro, ora direita, em direção de uma cerca viva, me deixando inquieta e indignada com minha falta de habilidade mas também percebia que tinha algo acontecendo. Um descontrole no carro e que refletia em mim que não conseguia entender. Com ajuda do meu pai, consegui sair com o carro e seguimos sem novas ocorrências naquela tarde.
A noite saímos como de costume, em turma de primos e amigos para boate do Clube Camaquense. Por alguma razão que não lembro mais retornei mais cedo. Dormi tranquilamente. Na manhã seguinte, acordei e fui em direção a cozinha. Saudosa cozinha de vó, sempre esperando com algo quente. Já na porta da cozinha, estava minha mãe. Lembro das poucas palavras que vieram com um olhar faiscante verde (sempre intimidadores) com uma expressão de reprovação: que boca, hein, Regina!
Até hoje carrego esta dúvida. Não sei se foi coincidência, se aviso de espíritos protetores, se “vidência” parapsicológica. Não sei. Mas sei que permaneceu o temor deste “sobrenatural” que também pode ter sido uma mera coincidência.
O ocorrido?
Durante a madrugada, apenas a duas quadras da casa da vó, meu irmão retornava com o fusca, seguia numa avenida preferencial quando um amigo, numa rua transversal, dirigindo seu carro, querendo dar um susto, achando que meu irmão iria parar, avançou com o carro atingindo o fusca na lateral. Com o impacto, o carro partiu em dois. Não houve feridos. Devido a proximidade do acidente da casa, houve grande rebuliço na casa. Todos acordaram com o barulho, meus pais foram chamados, minha avó também, mas eu permaneci dormindo. Somente na manhã seguinte descobri que o fusquinha azarento teve perda total.
Ainda hoje me lembro da reunião na sala de visitas. Estavam meus pais, Vitor, o causador do acidente e sua mãe, combinando o ressarcimento e pelo que ainda tenho memória, eles pediram para não envolver polícia pois o rapaz não tinha carteira. Tudo amigavelmente…
