Muitas vidas

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Sinto como se tivesse vivido muitas vidas na mesma vida. Entendo que é um conceito estranho, mas é exatamente como parece ao pensar em determinados momentos da minha vida e no quanto as situações mudaram, no quanto eu mesmo mudei nesse constante “vir a ser” heraclitiano.

Lembro daquele final de 1989 em São Gabriel…

Estudávamos de tarde e a saída era por volta das 17h. No inverno já começava meio que a escurecer nesse horário, mas a partir da metade da primavera, ali por meados de outubro, o dia ainda estava claro e permanecia assim até perto das 19h. Saíamos em grupo, na direção da Praça da Matriz, que era maior e mais iluminada, ou, mais raramente, para a praça que ficava ao lado do Ginásio Chiappetão, quando tinha alguma atividade acontecendo por lá, chamando a atenção da gurizada.

Na pracinha dentro da Praça da Matriz tinha uma espécie de “labirinto”. Eram umas muretas brancas de aproximadamente um metro e meio de altura, com furos em formatos geométricos de losangos, triângulos, quadrados e círculos que permitiam aos menores passarem por dentro, compondo um espaço divertido para brincar de pega-pega, correndo por dentro ou por fora daqueles corredores diminutos.

Eu tinha doze anos, meus colegas de turma tinham a mesma idade ou algo muito próximo, talvez com diferença de apenas alguns meses. Como era bastante comum no nosso grupo de jovens criativos, tínhamos criado um novo modo de usar o labirinto, não mais correndo no chão tedioso, mas equilibrando-se no topo das paredes, avançando em linha, com um pé na frente do outro e pulando para a parede seguinte com a destreza de um felino. Com certeza não seria um modelo de pega-pega aprovado pelas normas de segurança e, mais de uma vez, um ou outro taxista do ponto na frente da Igreja Matriz gritou para que a gente não fizesse aquilo, que contaria para nossos pais e outras ameaças que entravam por um ouvido e saiam pelo outro, enquanto continuávamos pulando e correndo uns atrás dos outros aos risos.

Tudo muito bonito, certo? A pré-adolescência tem dessas coisas em suas “artes”.

Numa daquelas tardes eu errei o pé ao pular e cai do alto de uma parede. Foi um tombo feito, ralei as pernas e joelhos na areia grossa da pracinha, mas o pior foi que bati o calcanhar direito com a força total do meu peso. Tive uma microfratura, sei que podia ter sido muitas vezes pior e, como sempre, acredito que tinha um anjo da guarda “segurando minhas costas”. Foi preciso engessar. Como a região da fratura era no calcanhar, o gesso vinha do pé, deixando apenas os dedos de fora, e subia até pouco abaixo do joelho, no calcanhar colocaram um saltinho preto, onde eu me apoiava para caminhar lentamente.

Continuei indo na praça depois das aulas, mas naquela situação, eu apenas ficava sentado num dos bancos de madeira, vendo meus colegas continuarem suas brincadeiras correndo de um lado para o outro, lembro também do olhar debochado de um taxista conhecido, como que dizendo “eu te avisei, guri tinhoso”.

Estávamos em novembro e já começava a fazer calor, antecipando a chegada prática do verão. Eu estava perdido em algum pensamento quando ela chegou e sentou do meu lado no banco.

Se chamava Júlia, estudava na mesma escola e série, apenas em outra turma. Era uma das poucas meninas que brincavam com os meninos tanto no recreio quanto depois das aulas. Ela tinha longos cabelos cacheados, num belo tom de cobre que parecia brilhar no sol do final da tarde, mas, infelizmente, naquele dia estava com os cabelos bem mais curtos, coisas que as mães daquela época faziam para nosso desespero, querendo terminar rapidamente com uma infestação de piolhos.

Não lembro exatamente do que falamos, deve ter sido sobre as amenidades sérias que povoavam nossos pensamentos naquela época, a proximidade das férias, ou a loucura que tinha sido a eleição presidencial recém realizada, primeira eleição direta depois do final da ditadura. Eu engessado sem poder caminhar direito e ela sem seus longos cabelos cacheados.

Ela pediu para assinar no meu gesso, eu deixei. Era mais uma assinatura e, por sinal, em poucos dias aquele gesso já estava parecendo um mural de recados.

• Eu gosto de ti.

Ela disse assim, do nada. Foi a primeira vez que alguém me disse isso nesse contexto. Ainda com a caneta na mão, tendo escrito seu nome com um coração, com aqueles cabelos curtos ressaltando a linhas do rosto e olhos castanhos firmes, cravados nos meus. Confesso que fiquei sem saber o que fazer naquela situação. Eu gostava de outra pessoa e respondi isso com bastante tranquilidade.

Júlia já sabia quem era a pessoa que eu gostava. Fiquei surpreso, não sabia que eu era tão transparente em meus sentimentos, mas também não sabia que alguém estava me observando atentamente enquanto meu olhar corria para outra pessoa na escola.

Estávamos numa situação de Júlia que gostava de Roberto, que gostava de Simone, que gostava de Pedro, que gostava de futebol. Amores jovens, paixões avassaladoras que tinham curto prazo de validade, mesmo que a gente não soubesse disso na época.

Conversamos um bom tempo e nos despedimos quando o sol já tinha ido embora. Eu não sabia exatamente onde ela morava, mas era nas proximidades da Igreja Matriz, direção que ela tomava no final do dia, quanto todos pegávamos nossas mochilas para ir embora. Antecipando o que viria logo depois em nossas vidas, ela foi para o oeste e eu fui para o leste.

Logo vieram as férias escolares e, como a escola em que estávamos não tinha os últimos anos do ensino fundamental, fomos transferidos. Foi um momento de separação para muitos colegas que estavam juntos desde a pré-escola, eu e Júlia também, fomos cada um para uma escola diferente, mudaram nossas rotinas diárias e os percursos.

Ficou na minha lembrança a imagem daquela menina com seus cabelos cortados sem os longos cachos, olhos castanhos firmes e a coragem de declarar seus sentimentos para um menino que ela já sabia gostar de outra pessoa.

Demorou cerca de um ano para nos vermos de novo…

Era final 1990, minha nova escola estava realizando sua tradicional gincana, algo que movimentava toda a comunidade escolar, com missões sendo reveladas na rádio local no meio da tarde e pais tirando folga no trabalho para ajudar no transporte e deslocamento até locais mais remotos, cumprindo tarefas muito estranhas, como por exemplo fazer uma cópia com decalque da placa em homenagem ao local onde tombou Sepé Tiaraju e outros pedidos complexos e divertidos, que pontuavam mais pelo menor tempo de execução.

As atividades tiveram, mais ou menos, duração de uma semana e a sexta-feira era reservada para apresentações artísticas no Ginásio Chiappetão. A minha equipe estava meio que perdida sem saber o que apresentar. Estávamos quase desistindo quando ouvi na rádio a música “Quatro semanas de Amor” de Luan e Vanessa e, numa daquelas inspirações maravilhosas e imediatas, tive a ideia de fazer uma paródia.

No estilo “O Gordo e o Magro”, escolhemos um colega mais baixo e gordinho para ser o nosso “Luan” e outro colega, bem alto e magrinho, para ser a nossa “Vanessa”, usando uma peruca loira conseguida às pressas no salão de beleza de uma das mães.

Chegou a hora da nossa apresentação e eles entraram na quadra. Confesso que eu estava esperando apenas não zerar a prova, mas logo que a música começou a tocar e aqueles dois “incorporam” os personagens, o ginásio veio abaixo com as gargalhadas. Eles foram performáticos, num momento “Luan” tentava fugir, “Vanessa” corria atrás dele e segurava suas pernas, no outro era ele quem se ajoelhava e implorava que “o sonho não acabou”, seguindo a letra da música e fazendo gestos teatrais com as mãos.

Olhei para os jurados e entendi pelas suas expressões, e risadas, que tínhamos não apenas passado na prova, mas superado todas as expectativas com praticamente zero de orçamento. A plateia estava vibrando com nossa comédia improvisada!

Do lado direito das arquibancadas vi longos cabelos cacheados e sua dona rindo no meio da multidão…

Hoje, enquanto escrevo essa lembrança, passaram trinta e seis anos desse momento, mas não esqueci a mistura de emoções que senti.

De repente, eu era o “Romeu” de Leonard Whiting olhando para a “Julieta” de Olivia Hussey, no filme de Franco Zeffirelli. Quando nossos olhares se encontraram eu sorri, ela sorriu de volta e a gincana sumiu, não estava mais ali, nem as apresentações, nem as risadas, nem a multidão, nada de tempo nem de espaço.

Esses momentos são muito raros.

Eu, em todos os sentidos, já não tinha nenhum “gesso” segurando meus movimentos, ela tinha novamente seus longos cabelos cacheados, sua autoimagem restaurada, transmitindo uma sensação de segurança, força e alegria. Fui até onde ela estava, “assistimos” juntos as apresentações, conversamos e contamos como tinha sido o ano de cada um, em nossas escolas diferentes.

Terminou o evento e todos começaram a ir embora, nos despedimos e combinamos de nos ver de novo. Retornei para junto da minha equipe da gincana e todos estavam muito animados com a pontuação obtida. Depois de mais algumas despedidas realizadas, os que moravam perto uns dos outros seguiram seus caminhos em pequenos grupos diferentes. Eu fui caminhando no automático, sem prestar atenção no que meus colegas estavam falando, pensando apenas no olhar decidido daquela menina, firme no alvo até atingir o objetivo, um olhar que tinha encontrado seu caminho até o meu ser.

• E o que aconteceu depois?

Bom, como eu disse no início… Sinto como se tivesse vivido muitas vidas na mesma vida.

Uma tempestade já estava formada e se encaminhando para minha direção naquele momento. Eu era como Dorothy esperando sem saber pelo furacão que a levaria para Oz, mas, no meu caso, era uma passagem só de ida. Veio o adoecimento e a morte fulminante do meu avô, vieram semanas caóticas, cheias de incertezas.

Assim, o capítulo da minha vida, naquela cidade, também morreu.

Na prática, para os que ficaram em São Gabriel é como se aquele “Robertinho” que fui tivesse morrido. A vida continuou tanto para mim na nova vida em Porto Alegre, quanto para meus amigos, amores, situações não resolvidas e histórias sem um encerramento próprio, mas que tiveram um final, aquele que apenas quem já se mudou definitivamente de uma cidade para outra pode conseguir entender plenamente.

Essa história, como tantas outras, termina assim, naquele breve momento de alegria no encontro de dois seres. Na verdade, pensando nos meses que se seguiram, essa lembrança é um raríssimo presente de alegria no meio de muitas sombras. É um motivo de gratidão! Sentimento que transmito para o espaço e para a dona daquele olhar decidido, esperando que hoje ela continue sendo uma manifestação das forças da natureza, como era naquele momento, e que tenha sido muito feliz em sua jornada!

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