
Corria o ano de 2013. Eu estava trabalhando na construção de parques eólicos no Peru, na região Norte, no deserto de Cupisnique, quando recebi um telefonema do Uruguai. Era um amigo me convidando para trabalhar na construção de um terminal de regaseificação de gás natural, em Punta Sayago, Montevidéu.
Quem não gostaria de trabalhar em Montevidéu?
No dia 6 de janeiro de 2014, eu já estava iniciando o trabalho.
Em outro momento, contei como se deu minha iniciação no Espiritismo. Estou há mais de cinquenta anos ligado ao Espiritismo, sempre na mesma casa, na Rua Botafogo, 658, em Porto Alegre. Num primeiro momento, a instituição se chamava Sociedade Espírita Luz e Caridade — SELC; posteriormente, passou a denominar-se Centro Cultural Espírita de Porto Alegre — CCEPA.
Minha formação religiosa inicial foi o catolicismo. Minha mãe, neta de italianos, era muito católica. Fui batizado, fiz catequese e fui crismado. Até os 18 anos, frequentava regularmente a missa. A partir daí, porém, fui progressivamente me afastando, até abandonar completamente, em 1979, qualquer atividade ligada ao catolicismo.
Em 1975, passei a frequentar regularmente a Sociedade Espírita Luz e Caridade.
Desde que Maurice Herbert Jones e Elba Jones assumiram a liderança da instituição, em 1968, imprimiram à casa uma característica que, para mim, sempre foi marcante: a busca do conhecimento, sobretudo por meio do estudo da filosofia espírita segundo o pensamento de Allan Kardec. A dúvida era valorizada como instrumento e motor do conhecimento. Essa postura crítica e investigativa acabou se tornando uma espécie de marca registrada da casa.
Quando cheguei a Montevidéu, procurei algumas casas espíritas e encontrei um grupo que estava começando a se organizar.
O grupo era liderado por Joaquín Martín, um contabilista fluente em português, pois havia feito mestrado na UFRGS. Conversamos por telefone e ele me convidou para conhecer o grupo.
As reuniões aconteciam na casa da mãe de Joaquín. Ainda não era uma sociedade espírita formalmente organizada. Era, basicamente, um grupo de pessoas interessadas no estudo do Espiritismo. Eram convidados palestrantes para falar ao grupo e, ao final das reuniões, eram ministrados passes aos presentes.
Logo percebi que a orientação daquele grupo se aproximava bastante da chamada religião espírita. Ainda assim, sempre gostei de participar de grupos pequenos, nos quais existe mais espaço para conversar, questionar e expor opiniões.
Comecei a frequentar o grupo em 2014 e cheguei a fazer algumas palestras em espanhol. Apesar das diferenças de entendimento sobre a filosofia espírita, nossa convivência era boa. Certa vez, uma companheira chegou a me alertar de que o líder do grupo entendia que o Espiritismo era, de fato, uma religião.
Na metade daquele ano, porém, o ritmo da obra de Punta Sayago se intensificou bastante. O trabalho passou a exigir cada vez mais da minha presença e do meu tempo, e fui me afastando gradualmente do grupo. A justificativa imediata eram as exigências profissionais, que realmente aumentavam.
Assim, minha experiência em Montevidéu foi chegando ao fim. Retornei a Porto Alegre no final de 2015.
Nos anos seguintes, quando voltei a Montevidéu, soube que aquele grupo havia se dividido e que, a partir dele, haviam surgido diferentes sociedades espíritas.
Confesso que fiquei feliz com isso. Afinal, esse resultado me pareceu muito próximo do pensamento de Kardec: pequenos grupos de espíritas podem organizar sociedades independentes, com suas próprias características, desde que preservem o estudo e a reflexão sobre a Doutrina.
Essa experiência também me fez refletir sobre aquilo que entendo ser a própria natureza da filosofia espírita.
Marx afirmou, em 1845, que “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo.” A frase expressa a ideia de uma filosofia que não se limita à interpretação da realidade, mas que também se volta para a ação e para a transformação social.
Vejo algo semelhante na filosofia espírita, embora evidentemente partindo de pressupostos diferentes. Para mim, o Espiritismo é uma filosofia com características próprias, que considera a existência humana como uma experiência que se desenvolve nos dois planos da vida — o material e o espiritual — e que procura compreender as consequências dessa relação sobre a vida individual e coletiva.
Uma filosofia que não deveria nos conduzir à passividade diante do mundo em que vivemos, mas, ao contrário, estimular-nos a interferir nele para torná-lo melhor. Uma sociedade menos desigual, mais progressista, mais democrática e na qual o conhecimento e a liberdade de pensamento tenham papel fundamental.
Hoje, olhando para aquela experiência em Montevidéu, percebo que talvez eu tenha aprendido algo que vai além da própria experiência espírita.
Com o passar do tempo, compreendi que não devemos impor aos outros o nosso próprio entendimento. Cada pessoa chega ao Espiritismo a partir de sua história, de sua educação, de suas experiências e, sobretudo, de seu grau de amadurecimento.
O que para mim parecia evidente poderia ainda não fazer sentido para outra pessoa. E isso não significa necessariamente que alguém esteja errado. Significa que estamos em momentos diferentes de uma mesma caminhada.
Talvez essa seja uma das maiores lições que o Espiritismo me proporcionou ao longo de tantos anos: mais importante do que convencer o outro é aprender a compreender por que ele pensa diferente.
E foi assim que, depois de mais de cinquenta anos ligado ao Espiritismo, fui compreendendo que o conhecimento não se constrói pela imposição de verdades, mas pelo estudo, pela dúvida, pelo diálogo e pela disposição permanente de rever aquilo que pensamos saber.
