Me tirem daqui!

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Éramos jovens. Eu tinha começado a namorar a Fátima, uma belezoca meio chorona que havia conhecido na Mocidade da União Espírita Paraense, num domingo de 1963.

Numa noite quente de Belém do Pará, eu, a Fátima e sua amiga — quase irmã — Lúcia Abreu, também integrante da juventude espírita,
saímos para visitar um centro kardecista na periferia da cidade, onde nossa amiga faria uma palestra.

Pegamos um ônibus — que, naquela época, era o único transporte que podíamos pagar — e lá fomos nós rumo ao bairro do Guamá, onde, por
sinal, iríamos morar, seis anos depois, quando me casei com a Fátima, numa casa cedida por meus pais.

O Centro estava apinhado! Era um público de gente simples, como a maioria das pessoas nascidas no Norte e no Nordeste do Brasil naquela época de marcantes desigualdades sociais — um cenário que, infelizmente, até hoje não foi totalmente superado.

No salão, apenas o choro de algumas crianças quebrava o silêncio profundo. Muitas pessoas já se mantinham de olhos fechados e com as
mãos espalmadas sobre as pernas, postura convencional em alguns ambientes religiosos para facilitar a recepção de graças espirituais.
Próximo à mesa diretora dos trabalhos, destacava-se uma tina com água. Pensamos que ela deveria estar fluidificada, pois provavelmente seria utilizada para acalmar os médiuns em caso de incorporações violentas. Mas não, não era para os médiuns! A água era esparzida sobre os Espíritos como se fosse água benta, da forma que faziam os sacerdotes católicos!

Para conter os Espíritos (ou médiuns) mais agitados, havia uma estrutura intrigante, acompanhando parte das paredes laterais do auditório,
via-se uma fila de assentos de madeira intercalada por cadeiras individuais que possuíam uma tranca. Esses lugares possuíam, no encosto, uma tabuleta com a inscrição “Cadeira Anímica”. Nós estávamos sentados bem próximos a uma delas.

Abertos os trabalhos, Lúcia foi chamada à mesa para falar. Acho que ela acabou se empolgando e passou do tempo estipulado para a preleção,
pois um despertador nada discreto soou sobre a mesa, avisando bruscamente à palestrante que era hora de parar.

Apagadas as luzes foi dado o sinal de que os “doutrinadores” deveriam levantar-se e ficar próximos à fileira onde estavam os médiuns
para dialogar com os Espíritos incorporados. Como isso era feito simultaneamente, o salão instantaneamente se transformou em uma
verdadeira balbúrdia sonora.

Nessa hora, bem ao nosso lado, um Espírito incorporou e começou a falar:
– Meu Deus! O que é isto? Por favor, me tirem daqui! Isso é uma casa de doidos! Vou embora! Eu vim aqui porque disseram que eu receberia ajuda, mas vejo que nessa bagunça não dá para ficar!

Imaginem a cena: um salão fechado, com cerca de duzentas pessoas, crianças chorando, dezenas de médiuns simultaneamente tomados por
espíritos ou mesmo externando, em catarse, seus próprios conflitos psicológicos e ainda um número equivalente de doutrinadores tentando, aos gritos, esclarecer e orientar espíritos em sofrimento!

Saímos dali com uma certeza: o quanto faz falta estudar profundamente as obras de Allan Kardec, nesse caso, pelo menos “O Livro
dos Médiuns” – para sabermos lidar, de forma construtiva e segura, com a mediunidade.

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