
Minha infância transcorreu em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Morávamos em uma casa construída sobre um barranco. Na frente, ela parecia ter dois andares; nos fundos, abria-se para um amplo pátio onde meu pai criava cães perdigueiros, companheiros inseparáveis de suas caçadas de perdizes — uma prática permitida naquela época.
Em nossa casa também morava Sílvia, uma jovem de dezenove anos que cuidava dos afazeres domésticos. À noite, estudava. Eu tinha apenas seis anos e meu irmão era um ano mais velho. Guardamos dela as lembranças mais afetuosas. Sílvia era extremamente carinhosa conosco, gentil com todos e querida por toda a família. Seu sorriso iluminava qualquer ambiente.
Era uma moça de rara beleza. Recebia convites para participar de concursos de beleza, mas nunca aceitava. Estava noiva e sonhava em casar no ano seguinte. Sua mãe, uma lavadeira, morava perto do rio.
Numa tarde, Sílvia avisou minha mãe que não iria à escola naquela noite. Estava com uma forte dor de cabeça e seguiria diretamente para a casa de sua mãe. Preocupada, minha mãe insistiu em levá-la ao médico, nosso vizinho. Ela, porém, recusou educadamente.
Naquela mesma noite, enquanto toda a família jantava reunida na cozinha, aconteceu algo que jamais consegui esquecer.
De repente, um animal desconhecido surgiu na porta que dava acesso ao grande pátio. Tinha pelos escuros e lembrava um grande lobo. Mesmo sendo apenas uma criança, sua imagem ficou gravada para sempre em minha memória. Seus olhos eram intensamente avermelhados e pareciam fitar cada um de nós. Rosnava de forma assustadora.
Meu pai levantou-se imediatamente e, com voz firme, enxotou o animal. O que mais o intrigou foi o silêncio absoluto dos cães da casa. Eles, que costumavam latir ao menor movimento estranho, permaneceram completamente calados.
Quando meu pai chegou à porta, aconteceu algo ainda mais inexplicável: o animal havia desaparecido. Simplesmente não estava mais ali. Nunca mais voltou a aparecer. Nenhum vizinho havia visto qualquer coisa semelhante.
Cerca de uma hora depois, bateram à nossa porta.
Era a notícia que ninguém esperava.
Nossa querida Sílvia havia falecido. Sofrera um AVC.
Desde aquela noite, os dois acontecimentos permaneceram inseparáveis em minha memória. Nunca encontrei uma explicação para a presença daquele estranho animal nem para o silêncio dos cães. Talvez tenha sido apenas uma coincidência extraordinária. Talvez exista uma explicação que jamais conheceremos.
Passaram-se muitos anos, mas a lembrança continua tão viva quanto naquela noite. Ainda hoje, quando penso em Sílvia, recordo sua bondade, seu sorriso e o mistério que marcou para sempre a minha infância.
