Nasci em Porto Alegre, mas com poucos meses fui para São Gabriel, na região da Campanha Gaúcha, onde vivi com meus avós até aproximadamente os treze anos. Foi ali, entre ruas tranquilas, vizinhos conhecidos e uma rotina de cidade do interior, que construí algumas das lembranças mais marcantes da minha infância.
Nos anos 1980, a cidade tinha seu ritmo próprio, com o comércio fechando ao meio-dia para que as pessoas pudessem almoçar e sestear, depois retornando o movimento por volta das duas da tarde. No fim do dia, as ruas ficavam mais silenciosas, enquanto as casas se enchiam de luzes e barulhos domésticos, conversas, sons de rádio ou televisão. A cidade tinha, então, pouquíssimos prédios, se não me falta a memória eram não mais que cinco, sendo que um deles estava ainda em construção.
O caminho para a escola era feito a pé. Pelo trajeto encontrávamos colegas que se ajuntavam ao grupo e transformavam a caminhada numa pequena aventura. O que atualmente se chama “Ensino Fundamental” era o “Primeiro Grau”, com oito séries, assim nosso grupo tinha desde os pequeninos com idades entre cinco e sete anos até os um pouco mais velhos, que tinham no máximo quatorze anos e agiam como líderes do bando.
Nossas conversas podiam ser bobas, sobre o episódio da semana de um desenho animado ou série de domingo que passava em um dos dois canais de televisão que “pegavam” em São Gabriel sem o uso da antena parabólica, o sonho de consumo de muitos, que acrescentava apenas mais dois ou três canais, sendo um deles sempre com chuviscos na tela, mas que, na nossa realidade, pareciam ser o acesso a um universo de novidades.
Mas, às vezes, também surgiam histórias muito mais sérias, como do meu querido amigo Francisco, que perdeu a mãe para o câncer cedo demais, que o pai havia se tornado amargurado e às vezes violento, principalmente quando adicionava álcool no cardápio da semana.
Os castigos físicos eram muito comuns e alguns pais simplesmente pareciam não conhecer limites, donos de uma impressionante criatividade na hora de punir, como o pai do Vicente que o mandou para escola usando um calção branco, bem curtinho, num dia frio de inverno, para que as marcas da cinta nas pernas fossem vistas por todos, pois era a punição pelas notas baixas no último boletim escolar.
Nestas horas eu agradecia por morar com meu avô, uma pessoa calma e tranquila. Já naquela época ele entendia que me deixar de castigo sem poder brincar com os amigos num final de semana, ficar sem ver um filme ou episódio da minha série favorita, eram punições muito mais eficientes. Bom, talvez também ajudasse o fato de que para me dar uma surra de cinta ele teria que correr atrás de mim pelo pátio tentando me alcançar primeiro, algo que ele não conseguiria naquela idade sem ter um infarto. De todo modo, em comparação com outros, eu estava numa posição melhor.
Hoje, tendo a responsabilidade de criar meus filhos, percebo que os exemplos negativos e positivos daquela época ressoam fortemente nas minhas escolhas. Entendo que os jovens, como seres em desenvolvimento, precisam de apoio e limites, mas também são donos de capacidades mentais afiadas, que estão prontos para aprender pelo exemplo, pela conversa, pelo carinho que acolhe e orienta sem julgar.
