Eu vivia uma época bela da vida: recém casada, uma profissão realizadora, jovem e cheia de ideais a perseguir, mas muito, muito ocupada, cabeça cheia de compromissos e pais idosos sob meus cuidados. Era uma correria diária que eu amava, mas a minha cabeça…
Era final de tarde. Estava saindo do edifício Anes Dias, em frente à Santa Casa, onde eu acabara de acompanhar meu pai numa consulta médica. Providenciei um táxi que o levaria para casa e comecei a buscar um para mim, pois participaria de um curso, na PUC, ao qual
fazia questão de não chegar atrasada.
Uma chuva fina e fria começava a cair, me surpreendendo sem sombrinha e capa. Movimento grande de carros, mas os táxis todos ocupados. Eu, ansiosa e apressada, vi que o sinal abrira e uma fila de táxis vinha em minha direção. Levantei energicamente o braço várias vezes, até que um deles parou e abriu a porta gentilmente para mim. Encontrei um motorista que achei parecido com meu pai. Fui logo dizendo: por favor, senhor, siga para a PUC o mais rápido possível, pois estou atrasada para um curso importante.
Durante o trajeto entabulamos uma conversa agradável, ocasião que admirei a cultura e o português correto do motorista, coisa pouco comum à época, nesta profissão. Lembro que nosso bate papo conseguiu baixar meu nível de estresse da correria do dia e de minhas
preocupações com a saúde de meu pai. Foi um momento de boa recordação, até hoje!
Ao chegarmos ao meu destino, procurei com o olhar o taxímetro para ver o quanto precisaria pagar. Ué, pensei, onde será que está o taxímetro? Não estava no local convencional. Então, perguntei ao motorista tão gentil e prestativo:
– Quanto lhe devo, senhor? Não vi onde está o taxímetro!
Ele, então, calmamente, me disse:
– A senhora não me deve nada. Eu não sou taxista. No entanto, naquela chuva, naquele movimento, eu lhe vi desesperada, chamando um táxi, numa hora em que todos passavam com seus passageiros e todos lotados. Compadeci-me e pensei: e se fosse minha filha? Imediatamente, algo mais forte que eu me fez parar e abrir a porta do meu carro.
— Mas senhor, estou envergonhada de lhe causar este incômodo!!! Foi muita distração minha, depois de um dia cheio de compromissos! Minha distração não tem perdão!!! Fazê-lo vir até a PUC e ainda fazer-me tanto bem com a boa conversa que entabulamos! Deixe-me,
pelo menos, pagar a gasolina que gastou…
— Não, absolutamente, eu moro perto daqui. E como lhe disse, nunca me aconteceu algo assim! Foi um gesto inesperado para mim, como se alguém me assoprasse: pare e ajude a moça! Se lhe fiz um bem, foi um anjo que agiu por mim…
Eu saí daquele carro agradecida e,ao mesmo tempo, muito intrigada com tudo que acontecera. De um lado, assustada com minha distração de não ter percebido que entrara num carro que não era táxi. E se isso fosse nos dias de hoje? Com tanta violência social, eu
por certo correria um grande risco…
No entanto, depois das explicações do meu gentil motorista, fiquei numa grande dúvida! O episódio vivido por mim se justificaria por minha distração, num dia em que estava sobrecarregada de compromissos e muito estressada? Ou seria evidente uma intervenção
de um amigo desencarnado que se compadecera de uma jovem atrapalhada, mas bem intencionada e resolvera lhe dar uma mãozinha?
Nunca saberemos…
Mas o fato é que William Shakespeare, na peça Hamlet, já dizia: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.”
Aquela experiência, sem dúvida, foi um acontecimento estranho e até certo ponto, providencial!!! E bem cá dentro de mim, fico pensando que um baita “amigão do além” me presenteou com um “amigão terreno”!
Mas, por via das dúvidas, nunca mais entrei em um táxi sem antes me certificar, demoradamente, de que era táxi mesmo. Afinal, se naquele dia um amigo desencarnado de plantão realmente me deu uma mão, agora eu preciso fazer a minha parte e prestar mais atenção, evitando distrações potencialmente perigosas.”
