“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo”
(Renato Russo)
Conta uma daquelas histórias populares, mito moderno reinventado de boca em boca, que, em alguma cidade perdida pelos interiores do país, morava um avô muito dedicado à sua pequena horta familiar. Diariamente ele fazia diversas pequenas viagens, a pé, carregando um balde cheio com água do açude que banhava o sítio até a pequena plantação. Regava um canteiro e retornava para encher mais um balde, até terminar de regar os tomates, as couves e todas as outras plantas.
Certo dia, um de seus netos estava acompanhando o trabalho e perguntou por que ele não carregava dois baldes de cada vez, já que havia muitos outros no sítio e, assim, o trabalho de rega seria mais rápido e terminaria mais cedo. O avô, com sua sabedoria nascida da experiência, respondeu simplesmente que, se levasse dois baldes hoje, estaria forçando demais os limites de sua coluna e que amanhã provavelmente não conseguiria trabalhar, consciente dos seus próprios limites.
No dia a dia, nas tarefas que aceitamos cumprir, precisamos estar sempre cientes de nossos limites, do que podemos ou não dispor para bem cumprir nossas responsabilidades sem nos sobrecarregarmos.
Nas instituições onde trabalhamos como voluntários, esse limite também existe e deve ser considerado com muito cuidado, pois o voluntariado produz uma ilusão bastante perigosa: como ninguém recebe, parece que tudo é gratuito e, se é gratuito, conclui-se que pode ser pedido à vontade. É como se a generosidade fosse um poço sem fundo, mas não é.
Toda tarefa tem um preço que, se não for pago em valores monetários, será obrigatoriamente pago com aquelas horas de descanso, com noites mais curtas, com fins de semana reduzidos, com aquele precioso tempo que deixamos de passar com nossa família ou simplesmente de cuidar de nós mesmos, algo que é justo e merecido para todo trabalhador.
Instituições não morrem apenas por falta de dinheiro; morrem também quando transformam boa vontade em obrigação e entusiasmo em exaustão, quando esquecem que seus alicerces são pessoas e passam a imaginar que são máquinas. Devemos sempre lembrar que pessoas cansam, adoecem e precisam descansar.
A sabedoria do avô carregando seu balde em diversas pequenas viagens expressa o melhor que ele pode oferecer naquele momento de sua vida. Se aplicada às administrações, essa lógica nos faz refletir que uma instituição de sucesso não é aquela que exige o máximo de seus colaboradores, mas a que realiza o possível, garantindo que todos sejam ouvidos e acolhidos em suas necessidades e limitações, que se sintam participantes, motivados para abraçar as tarefas que podem realizar, com dedicação e vontade.
A maior contribuição que podemos oferecer para qualquer instituição é fazer o melhor que podemos, sem exageros ou sobrecargas, entendendo que nosso maior presente para a coletividade, muitas vezes, é simplesmente estarmos presentes.
